Trump e Kim usaram canal das secretas em vez da diplomacia

Correio do Pantanal

19 abr 2018 às 06:51 hs
Trump e Kim usaram canal das secretas em vez da diplomacia

Manifestantes marcaram presença na audição de Mike Pompeo na comissão do Senado há uma semana

  |  REUTERS/LEAH MILLIS

Presidente dos EUA enviou diretor da CIA – indigitado secretário de Estado – para se reunir com líder norte-coreano. O objetivo foi preparar cimeira entre os chefes de Estado

Antes de seguir para uma partida de golfe com o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, o presidente dos Estados Unidos causou esta quarta-feira surpresa ao anunciar, via Twitter, que o diretor da CIA se deslocou na semana passada a Pyongyang para se encontrar com Kim Jong-un. Surpresa em vários níveis: Pompeo, nomeado secretário de Estado por Donald Trump, segundo a mensagem deste, forjou uma “boa relação” com o ditador norte-coreano. A visita teve como objetivo preparar a reunião inédita entre líderes dos EUA e da Coreia do Norte, a qual deverá acontecer no final de maio ou princípio de junho. A desnuclearização da Península Coreana será o ponto mais importante da agenda.

O clima de desanuviamento – impensável há uns meses – reflete-se também na agenda da cimeira das Coreias, que terá lugar no dia 27: Seul quer assinar um acordo de paz com Pyongyang. Os dois Estados ainda estão tecnicamente em conflito, uma vez que em 1953, após três anos da guerra que dividiu a península, só foi assinado um armistício entre os exércitos comunistas da Coreia do Norte e da China e o exército dos EUA, em representação das Nações Unidas.

“Pormenores da cimeira estão a ser trabalhados agora. A desnuclearização vai ser uma coisa em grande para o mundo, mas também para a Coreia do Norte!”, tuitou Trump em resultado do encontro entre o líder da Coreia do Norte e o diretor da CIA. A ida a Pyongyang de Pompeo – à Reuters, fontes próximas esclareceram que aconteceu no fim de março e não na semana passada, como disse Trump – foi a resposta a um convite norte-coreano.

No dia 9 de março, em visita à Casa Branca, o conselheiro nacional de segurança da Coreia do Sul, Chung Eui-yong, anunciou que Kim Jong-un propôs uma reunião com Donald Trump. Não é nada de estranho para o empresário: durante a campanha presidencial havia declarado que se encontraria com o terceiro dos Kim porque fala a toda a gente. De lá para cá, o discurso foi mudando ao sabor dos ventos – ou melhor, dos testes nucleares e de mísseis que o regime norte-coreano foi conduzindo e da ameaça que chegou a fazer de bombardear a base aérea de Guam. “Se formos obrigados a defendermo-nos ou aos nossos aliados não teremos outra opção além da destruição total da Coreia do Norte”, afirmou Trump na Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro passado.

Em Washington, funcionários da administração explicaram que a visita de Pompeo foi organizada pelos chefes das secretas sul e norte-coreanas, Suh Hoon e Kim Yong Chol, e tinha como objetivo avaliar o grau de seriedade de Kim Jong–un sobre a anunciada renúncia das armas nucleares. E do que foi transmitido a Trump, este ficou convencido de que é possível realizar negociações positivas.

Ao The New York Times, alguns dirigentes mostraram-se surpreendidos também pelo facto de Pompeo regressar sem um sinal de boa vontade de Pyongyang, como seria a libertação de três norte-americanos de ascendência coreana, acusados de espionagem e de praticarem atos hostis.

Apesar dos sinais de boa vontade, o encontro ainda não está garantido. Uma das maiores dificuldades é chegar a um acordo sobre o local. Seguindo a tradição do pai, Kim Jong-un não se desloca de avião, pelo que reduz as hipóteses. Por seu turno, a Casa Branca não quer que Trump vá até à zona desmilitarizada, para não dar uma imagem de subalternização em relação a Kim.

A notícia da viagem de Pompeo coincidiu com a preparação da cimeira das Coreias. O presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, quer acabar formalmente com a Guerra da Coreia. “Consideramos a possibilidade de transferir o armistício da Península Coreana para um tratado de paz”, confirmou um porta-voz da presidência sul-coreana.

Para inflacionar a agitação diplomática, o presidente chinês, Xi Jinping, planeia visitar em breve a Coreia do Norte, adiantou a CNN. No mês passado, o líder norte-coreano fez uma viagem não anunciada à China, a sua principal aliada. No entanto, Pequim não tem condescendido com o programa de armamento do vizinho coreano nas votações no Conselho de Segurança da ONU.

Tomada de posse de Pompeo em risco

> Mike Pompeo já está a trabalhar num escritório do Departamento de Estado, apesar de ser o diretor da CIA. O chefe desta agência secreta foi indigitado sucessor de Rex Tillerson como chefe da diplomacia no dia 13 de março. Um mês depois foi ouvido no comité das relações externas do Senado. Mas os próximos capítulos não estão escritos. Dos 11 republicanos que formam o comité, Rand Paul já anunciou que está contra a nomeação. Dos dez democratas, só um ainda não esclareceu se segue o voto de oposição dos colegas. Apesar de este voto não ser vinculativo, é um sinal de que Pompeo – considerado pouco consensual – poderá não ser confirmado depois pela globalidade do Senado.

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