‘Tenho mais medo da vida que da morte’: o jovem que sobreviveu após ter 90% do corpo queimado

Correio do Pantanal

13 fev 2021 às 20:27 hs
‘Tenho mais medo da vida que da morte’: o jovem que sobreviveu após ter 90% do corpo queimado
  • José Carlos Cueto
  • BBC News Mundo

10 fevereiro 2021

Aleixo Paz, um jovem de cabelo castanho com topete e o rosto cheio de cicatrizes de queimaduras
Legenda da foto,O documentário seguiu a vida de Aleixo durante vários anos

“Acordo todos os dias com raiva dentro de mim”, diz Aleixo Paz, um jovem espanhol que aos 8 anos de idade teve 90% do corpo queimado em acidente. Ele estava dormindo no caminhão-tanque de seu pai, cheio de milhares de litros de diesel. O caminhão bateu e o combustível se dispersou. O menino acordou em chamas.

Ele passou muitos anos entre sua casa e o hospital. Dezenas de operações, enxertos de pele, dores, pesadelos e raiva — muita raiva.

Hoje, aos 20 anos, ele diz que a raiva é a “única coisa que o mantém vivo” porque o mantém “fazendo rap e fazendo música”.

Recentemente, foi lançado um documentário sobre sua história, El Niño de Fuego (o menino de fogo, em espanhol), do diretor Ignacio Acconcia.ADVERTISEMENThttps://bf4cb1a5bee29785ee10eab5ad347e1c.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Aleixo e sua mãe no sofá de casa
Legenda da foto,O jovem mora com sua família na Espanha

Aleixo é desconfiado e não gosta de lugares públicos nem de que as pessoas olhem para ele. É difícil para ele se abrir. Odiou ter uma câmera o seguindo por vários anos.

Até hoje, diz, não se recuperou emocionalmente do acidente e diz para não esperarem frases motivadoras vindas dele.

Aleixo diz que “até gostou” da repercussão do filme, mas que “tanta bajulação” o deixa confuso.

“Eu fico confuso e me iludo. Até acho que minha vida pode melhorar. Aí eu volto à realidade e tenho que dizer a mim mesmo: ‘Mas cara, acorde, isso não vai mudar você'”, diz Aleixo de sua casa na Espanha, por telefone, à BBC. “A única coisa que me conforta é que as pessoas se sentem melhor depois de me conhecer.”

Aleixo recebe tratamento médico; seus dedos são encurvados por causa das queimaduras
Legenda da foto,O jovem ainda sofre muitos problemas de saúde por causa do acidente

Eu não superei nada

“Não quero que as pessoas cometam erros e me vejam como um exemplo de alguém que melhorou. Eu não superei absolutamente nada. Suporto o que tenho que suportar para viver, como todo mundo. Cada um tem o seu quinhão”, afirma.

“Portanto, se alguém vir alguma força ou exemplo de melhora em mim, não se engane. Se eu aguento, não é por causa de outra coisa senão toda a raiva que tenho dentro de mim. É o que mais me comove, então ainda estou vivo”, diz Aleixo.

O jovem afirma que não quer que as pessoas se enganem pensando que ele “fez algo com a vida dele”.

“E eu não me importo que há pessoas que querem me ver feliz e me ver seguir em frente. Não vejo por que tem que ser assim. Às vezes me engano e acho que a minha vida pode melhorar. Mas não importa o quanto eu minta para mim mesmo, minha saúde não é nenhuma maravilha”, afirma Aleixo.

Hoje ele tem muitos problemas de estômago e dores diárias no corpo.

“Por mais que me digam que está tudo bem, na verdade tudo continua igual para mim. Agora, é claro que vou continuar lutando. Ninguém nunca me deu nada e também não quero que me deem nada”, diz.

Uma foto emoldurada de aleixo quando criança: um menino loiro e sorridente de cabelo comprido
Legenda da foto,Aleixo sofreu o acidente quando tinha 8 anos

“Aleixo não me representa”

O jovem diz que não se reconhece quando vê as fotos suas de criança.

“Mas não tem nada a ver com aparência física, que pode ser o que todos vão pensar a princípio”, diz ele. “O que não consigo identificar é ter esperança, querer conhecer o mundo ou ser feliz. Nunca mais serei assim.”

Desde o acidente, diz ele, teve que “montar um armadura” e uma maneira própria de fazer as coisas.

“Meu nome é Aleixo, mas o nome não me representa. Aleixo é o nome da criança que era, não do jovem que sou.”

Aleixo Paz e Ignacio Acconcia
Legenda da foto,Ignacio Acconcia dirigiu o documentário sobre a vida de Aleixo

Mais medo da vida do que da morte

Aleixo diz que discorda das pessoas que o consideram corajoso por continuar “indo em frente”.

“O que acontece é que, desde o acidente, tenho mais medo da vida do que da morte. Eu nunca esqueço, e uma vez que ele vem à mente, começo a recriá-lo mil vezes em detalhes”, conta.

Enquanto queimava, diz ele, em nenhum momento perdeu a consciência.

“É difícil esquecer. Eu não preciso ficar bem. Não sei ficar bem e não estou acostumado. Na verdade, me sinto mais poderoso quando acordo em um dia horrível, porque então a raiva me move”, diz ele.

“Prefiro continuar sendo assim desde que minha família e as pessoas que amo estejam bem”, conclui.

ATENÇÃO: Comente com responsabilidade, os comentários não representam a opnião do Jornal Correio do Pantanal. Comentários ofensivos e que não tenham relação com a notícia, poderão ser retirados sem prévia notificação.