Síria à beira de dez anos de uma guerra onde não há vencedores

Correio do Pantanal

27 fev 2021 às 09:42 hs
Síria à beira de dez anos de uma guerra onde não há vencedores

Os Estados Unidos atacaram milícia pró-Assad e mostraram que não estão de saída do país. Rússia pede diálogo, tal como diplomatas e especialistas o advogam como primeiro passo para uma trégua.

Um helicóptero norte-americano sobrevoa um campo de extração de petróleo e uma lixeira nos arredores
Um helicóptero norte-americano sobrevoa um campo de extração de petróleo e uma lixeira nos arredores de Malikiya, no nordeste da Síria controlada pelos curdos.© Delil SOULEIMAN / AFP

César Avó27 Fevereiro 2021 — 01:25

Há uma semana, em resposta a um ataque do Estado Islâmico que matara oito membros de uma milícia pró-Damasco, a aviação russa conduziu 130 ataques aéreos que mataram 21 jihadistas na província de Deir Ezzor, junto à fonteira com o Iraque. Também na fronteira entre os dois países, na quinta-feira, foi a vez de a aviação norte-americana atacar alvos das milícias xiitas iraquianas da aliança Hashed al-Shaabi, onde confluem grupos com ligações ao Irão.

No ataque ao posto militar fronteiriço e a três camiões carregados de munições morreram pelo menos 22 pessoas, naquela que foi a primeira ação militar com o aval do presidente Joe Biden.

10 000. Número de combatentes do autodenominado Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Há dois anos, quando Donald Trump anunciou o fim do califado, contavam-se apenas uns 1500.

Moscovo, o principal aliado militar do líder sírio Bashar al-Assad, e que teve um papel determinante em segurar o regime quando entrou na guerra, em 2015, criticou o ataque levado a cabo pelos norte-americanos. “Ultimamente temos ouvido várias informações de várias fontes – até agora não a pudemos confirmar e gostaríamos de perguntar diretamente aos norte-americanos”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, aos jornalistas. “Estão alegadamente a tomar a decisão de nunca deixar a Síria… até ao ponto de destruir este país”, prosseguiu.

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O veterano chefe da diplomacia reconheceu que os militares russos e norte-americanos estão em contacto sobre a Síria, mas realçou a importância de o diálogo ser reativado ao nível político. “É muito importante para nós compreendermos a linha estratégica dos Estados Unidos no terreno e na região como um todo”, disse Lavrov.

Esqueça-se a declaração sobre o projeto de destruição da Síria pelos EUA – o território terá pelo menos um terço de edifícios danificados ou destruídos e só Alepo contribuía em 2017 com 15 milhões de toneladas de escombros, graças aos bombardeamento das forças sírias e russas, segundo a ONG Action on Armed Violence.

Atente-se antes no apelo ao diálogo político. É a única forma de pôr fim a uma guerra iniciada em março de 2011, em plena Primavera Árabe, quando as manifestações contra o regime de Assad foram reprimidas de forma brutal e aos grupos opositores se juntaram extremistas financiados por vários Estados do Médio Oriente e mais tarde tornou-se uma guerra por procuração.

387 000. Devido à ação de variadas milícias a favor e contra o regime e de vários exércitos, a guerra na Síria tirou a vida a pelo menos 387 mil pessoas.

Exangue, a Síria continua dividida em regiões sob controlo de Assad, das milícias pró-iranianas e da Rússia, em especial a capital e a faixa costeira; de opositores ao regime, no noroeste, sob patrulhamento russo e turco; e da oposição síria curda, no no nordeste, aliada dos EUA, mas alvo de invasão e ataques da Turquia. Como não bastasse, o Estado Islâmico reagrupa-se no extenso deserto.

O chefe da diplomacia recebeu na semana passada o enviado especial da ONU para a Síria, Geir Pedersen
O chefe da diplomacia recebeu na semana passada o enviado especial da ONU para a Síria, Geir Pedersen (esq.).© EPA/Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia

“O sofrimento do povo sírio durante esta década trágica e terrível continua a desafiar a compreensão e a crença”, disse há um ano o enviado especial das Nações Unidas, o norueguês Geir Pedersen. Uma frase que então como hoje resumia a fortuna que se abateu sobre a Síria. O regime sobrevive graças ao poderio bélico russo, embora a população viva em condições muito piores do que em 2015.

A classe média deixou de existir: 90% dos sírios vivem abaixo da linha da pobreza. Ainda assim, se as eleições aprazadas para o verão se realizarem só há um vencedor possível. Qualquer perspetiva de futuro da Síria não passará por esse plebiscito a Assad, mas por uma mudança de política dos outros atores no terreno, a começar pelos Estados Unidos, cuja nova administração deu garantias de que não vai abandonar os curdos.

6,6 milhões. Pessoas que procuraram refúgio fora do país (cerca de 5,5 milhões nos países vizinhos). Além disso há que contar com mais seis milhões de deslocados internos numa população a rondar os 18 milhões.

Trégua e diálogo

Para Charles Lister, diretor do programa de combate ao terrorismo e extremismo do Middle East Institute, uma nova política de Washington “deve começar com uma verdadeira trégua a nível nacional e de um acesso humanitário sem restrições para aliviar o sofrimento civil em todas as áreas do país”. Depois, “investir mais fortemente num diálogo com a Rússia, procurando encontrar áreas de terreno intermédio a partir das quais se possa construir algum nível de confiança”, para lá da luta contra o terrorismo.

Por fim, Lister vê na Turquia de Erdogan um obstáculo, dada a hostilidade para com as forças curdas, pelo que os EUA devem dar “garantias de segurança no nordeste da Síria para acalmar as tensões” e facilitar negociações entre as forças políticas curdas sírias e as curdas ligados à Turquia.

“Isto não é um presente para o governo sírio, que é responsável por grande parte das mortes e destruição durante os últimos dez anos. É antes uma sugestão de que perpetuar o statu quo não produzirá subitamente resultados diferentes daqueles a que temos assistido desde 2011”

Já o diplomata Jeffrey Feltman e o diretor do programa de resolução de conflitos do Carter Center, Hrair Balian, delinearam uma estratégia que passa por conversações com Assad, o levantamento de sanções para aliviar a população e facilitar a reconstrução de infraestruturas, em troca da libertação de presos políticos e do acolhimento de refugiados, livre acesso humanitário a nível nacional, remoção das armas químicas remanescentes, e reformas políticas e das forças de segurança, descentralização e participação de boa-fé no processo de Genebra da ONU e uma maior descentralização.

“Isto não é um presente para o governo sírio, que é responsável por grande parte das mortes e destruição durante os últimos dez anos. É antes uma sugestão de que perpetuar o statu quo não produzirá subitamente resultados diferentes daqueles a que temos assistido desde 2011″, defendem.

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