“O DESEJO SEXUAL É O COMBUSTÍVEL PARA QUE A RELAÇÃO ACONTEÇA”
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Correio do Pantanal

8 jan 2020 às 16:04 hs
“O DESEJO SEXUAL É O COMBUSTÍVEL PARA QUE A RELAÇÃO ACONTEÇA”

Por Cláudia Pinto –07/01/2020

Vera Ribeiro autora do livro Manual de Sedução falta de desejo sexual
Vera Ribeiro é psicóloga clínica, sexóloga e autora do livro Manual de Sedução (ed. Manuscrito). Foto de Gerardo Santos/Global Imagens

Quando a ausência de desejo sexual persiste, a relação de um casal pode estar comprometida. Para Vera Ribeiro, autora do livro Manual de Sedução (Ed. Manuscrito), é essencial procurar ajuda especializada quando alguém assume a falta de desejo sexual e a vontade de a ultrapassar.

Texto de Cláudia Pinto

Porque é que o desejo sexual é tão importante?
O desejo sexual é o combustível para que a relação aconteça. Sem ele, torna-se tudo muito mais difícil. Costumo dizer que o desejo sexual é de razão cognitiva porque é o nosso cérebro que comanda e nos propõe a existência, ou não, de desejo. Muitas vezes também é ele que faz pensar de mais sobre o assunto, impedindo que o desejo se manifeste. Sem o desejo, no caso da mulher, a resposta sexual inicial fica condicionada, ou seja, a lubrificação e todo um conjunto de mecanismos que são ativados [ao que chamamos de excitação sexual]. No caso do homem, a ausência do desejo impede o aparecimento da ereção. Mas não podemos abordar apenas o desejo pela sua ausência ou défice. O desejo sexual permite uma relação saudável, em que reina a novidade, a surpresa, o erotismo… A química que muitos casais referem ter pode existir mesmo em relacionamentos mais longos, mas, como em tudo na relação, o desejo tem de ser cultivado. Uma relação erotizada é mais saudável e fortalecida do que uma relação de companheirismo.

Quais as diferenças e características específicas do desejo sexual consoante as idades e o género?
Consoante a idade e o género, o desejo pode efetivamente variar, mas não existem medidas estabelecidas. Sabemos apenas que as oscilações e decréscimos hormonais afetam a libido sexual. Homens e mulheres diferem na forma de lidar com a sexualidade. Preocupações diferentes e ciclos hormonais distintos convergem numa dissonância de géneros no que respeita à libido sexual. É uma falácia afirmar que o homem tem mais desejo do que a mulher. Social e culturalmente, a mulher tem vindo a ser rotulada de ter menor desejo, o que não corresponde à verdade. É algo que não podemos classificar nem quantificar.

Quando é que a falta de desejo sexual começa a ser um problema?
O desejo sexual hipoativo define-se pela ausência ou diminuição do desejo/interesse sexual e fantasias sexuais, de forma persistente e recorrente. Nem homens nem mulheres são máquinas e, por isso, o desejo é tão importante como todo o nosso processo de relação, mas de forma espontânea e sem pensar muito sobre sexo. Atualmente é esta a palavra mais pesquisada e falada. É um tema que não escolhe momento nem lugar para ser falado e esta banalização impulsiona uma pressão social tremenda para que se sinta desejo e que este seja sempre constante. Mas as coisas não se processam dessa forma, cada um de nós pensa de maneira diferente e tem uma história de vida própria, e aquilo que é mais importante é saber identificar quando algo não está bem. Mas nada de alarmismos. Basta parar um pouco, olhar em redor, para si e para quem o rodeia, analisar o contexto e perceber quando precisa de procurar informações junto de um especialista.

“Uma relação erotizada é mais saudável e fortalecida do que uma relação de companheirismo”, explica a sexóloga Vera Ribeiro

Quais as causas possíveis para a falta de desejo sexual?
A causa de hoje não é a mesma de há uns anos. Antigamente podíamos apenas falar de questões hormonais, farmacológicas, existência de algum problema de saúde, estados emocionais negativos, aspetos individuais (estados ansiosos, baixa autoestima, perturbação da imagem corporal, etc.), cansaço, questões culturais, educacionais, não esquecendo a temperatura e a qualidade da conjugalidade. Atualmente, existem fatores que não podemos desprezar, tais como o stress profissional e o tempo dedicado às novas tecnologias. Em suma, tudo pode interferir com o desejo sexual, mas somos nós que temos o poder de decidir se nos vai afetar, ou não, de determinada maneira.

“Um homem e uma mulher podem ser amigos e verdadeiros companheiros, mas se forem eternos namorados serão bem mais felizes e inseparáveis.”

Este é um motivo de recorrência a consulta? E de que forma é que a terapia pode ajudar a devolver o desejo sexual?
A terapia ajuda quando estamos a falar de uma cognição excessiva do nosso cérebro sobre o nosso corpo, ou quando estamos perante decréscimos hormonais, bem como todos os aspetos de que falámos anteriormente. Não conseguimos ajudar quando o utente apresenta um problema de desejo sexual e não está colaborante para atingir a meta de regularizar a sua libido sexual. Ou seja, muitas mulheres procuram a especialidade de sexologia, mas não vão à consulta por elas mas sim pelos parceiros, que se queixam e que, em muitos casos, ponderam pôr um final à relação caso elas se mantenham “ausentes na sexualidade”. E é desta forma que as mulheres assumem que têm um problema. Existem muitas afirmações e questões típicas em consulta, como por exemplo: “Ele está sempre disponível e eu nunca tenho vontade”; “Se me dissessem que iria estar dez anos sem ter relações sexuais seria um alívio”, ou ainda “tem algo que possa tomar para ter desejo sexual pelo meu marido?”. No entanto, a questão mais indicativa de que a terapia irá ter sucesso é quando alguém chega a uma consulta, assume que tem um problema de desejo sexual e quer saber como pode ultrapassá-lo. Neste caso, a ajuda especializada vai ajudar muito.

Qual o tipo de tratamento adequado à falta de desejo sexual?
Varia de pessoa para pessoa, de casal para casal, consoante a idade, há quanto tempo é que existe esta queixa, se é orgânico/fisiológico ou psicológico. Determinar a origem e as suas implicações é essencial para podermos traçar uma terapia adequada. Algumas situações são muito simples de corrigir, por isso, a história clínica e a avaliação são muito importantes para decidirmos acerca da terapêutica e dos caminhos a seguir.

O facto de uma determinada pessoa estar no começo de uma relação ou num relacionamento de vários anos tem implicações diretas com o desejo sexual ou a falta dele?
A problemática inerente a uma ausência de desejo sexual no início de uma relação difere totalmente da ausência de desejo numa relação que exista há anos. São razões e tempos diferentes. É suposto que no início de uma relação o desejo sexual esteja presente, mas que possa vir a diminuir ou até mesmo desaparecer, e é quando começa a diminuir que se deve procurar ajuda especializada com um psicólogo, sexólogo ou psiquiatra, facilitando o processo de recuperação desse desejo de uma forma rápida e permanente.

No seu livro Manual de Sedução aborda este tema e dá conselhos aos leitores. Quer referir alguns?
A comunicação num relacionamento é essencial. Quebrar a rotina de uma relação é importante e qualquer alteração no dia-a-dia é bem-vinda. A prática de ioga melhora a capacidade de autorregulação, aumenta a lubrificação da mulher e, consequentemente, o desejo sexual. Fazer desporto vai melhorar o estado de humor e qualquer modalidade ativa a performance física, aumenta a sensação de bem-estar e melhora a autoimagem. Beber um copo de vinho por dia é outra das recomendações, uma vez que os antioxidantes presentes no vinho melhoram o estímulo e o ímpeto sexual (vasodilatação e circulação sanguínea), mas só faz sentido se o consumo for moderado. É fundamental lembrarmo-nos de que nos apaixonamos porque nos surpreendem, porque é novidade, pelo que não há que ter receio de fazer algo que nunca fez. Não se deve menosprezar quem divide a assoalhada connosco, porque aquele desejo que uniu um determinado casal ainda pode ser estimulado. Basta querer mudar e erotizar uma relação. Um homem e uma mulher podem ser amigos e verdadeiros companheiros, mas se forem eternos namorados serão bem mais felizes e inseparáveis. Por último, recomendo a leitura do livro na íntegra, pois é uma viagem interessante para se conhecer enquanto ser sexual.

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