Por que é tão especial o sangue que une mãe e filho?
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Correio do Pantanal

11 set 2019 às 05:09 hs
Por que é tão especial o sangue que une mãe e filho?

As células estaminais do sangue do cordão umbilical têm características únicas, podem ser congeladas depois do nascimento, e usadas no tratamento de mais de 80 doenças graves. É, portanto, um sangue muito especial. Que dura e perdura.10/09/2019

  • Há ainda o armazenamento. Após o processamento do sangue e do tecido do cordão umbilical, é adicionado um crioprotetor, que permite que as células permaneçam íntegras durante o seu congelamento e posterior armazenamento. Inicia-se assim o processo de criopreservação, com descida controlada da temperatura até cerca de -150ºC. (Foto: José Campos)
  • As células estaminais têm características únicas e a criopreservação trata da sua conservação a baixas temperaturas para que não percam viabilidade. (Foto: José Campos)
  • As células estaminais adultas da medula óssea, do sangue periférico e do sangue do cordão umbilical são muito relevantes. São ricas em células que dão origem a todas as células do sangue: glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. (Foto: José Campos)
  • A criopreservação consiste em conservar as células por um longo período, a baixas temperaturas (-196ºC), sem que percam a sua viabilidade. (Foto: José Campos)
  • Atualmente, as células estaminais do sangue e do tecido do cordão umbilical são armazenadas durante 25 anos, período em que, de acordo com estudos recentes, a viabilidade celular está assegurada.
  • Há várias fases na criopreservação. A primeira é a colheita, processo simples e totalmente indolor para a mãe e para o bebé. Após o nascimento do bebé e da sua separação do cordão umbilical, o cordão é desinfetado e faz-se uma punção na veia umbilical, permitindo que o sangue ainda presente no cordão umbilical flua, por gravidade, para dentro do saco de colheita.
  • Depois da colheita, corta-se um segmento de cerca de 30 centímetro de cordão umbilical que é colocado num frasco estéril. Depois a amostra é transportada para um laboratório. (Foto: José Campos)
  • Na criopreservação, as células estaminais do sangue do cordão umbilical são separadas da fração de glóbulos vermelhos e de plasma, de forma a concentrar a amostra final numa fração rica em células estaminais, diminuindo e normalizando o volume final para armazenamento.
  • Há ainda o armazenamento. Após o processamento do sangue e do tecido do cordão umbilical, é adicionado um crioprotetor, que permite que as células permaneçam íntegras durante o seu congelamento e posterior armazenamento. Inicia-se assim o processo de criopreservação, com descida controlada da temperatura até cerca de -150ºC. (Foto: José Campos)
  • As células estaminais têm características únicas e a criopreservação trata da sua conservação a baixas temperaturas para que não percam viabilidade. (Foto: José Campos)

Texto de Sara Dias Oliveira

O momento do parto. Um momento mágico. Um nascimento. Uma vida. E todo um mundo de possibilidades. O sangue do cordão umbilical, que une e depois separa mãe e filho, é único. Por várias razões. Clinicamente falando, as células estaminais do sangue do cordão umbilical são semelhantes às da medula óssea. Podem ser usadas no tratamento de mais de 80 doenças, na maioria doenças do sangue, como leucemias e alguns tipos de anemias, bem como do sistema imunitário e metabólicas.

“A sua utilização encontra-se em fase de ensaios clínicos em doenças como paralisia cerebral, autismo, perda auditiva, diabetes tipo 1, lesões da espinal medula, entre outras, o que poderá aumentar em muito o leque de aplicações clínicas do sangue do cordão umbilical”, adianta André Gomes, diretor-geral da Crioestaminal, que se dedica à conservação dessas células.

Até ao momento, em todo o mundo, já foram realizados mais de 40 mil transplantes com sangue do cordão umbilical.

As células estaminais do tecido do cordão umbilical têm, portanto, características especiais. E, por isso, podem ser congeladas logo após o nascimento, no momento do corte dessa ligação umbilical. É feita a colheita, a amostra é transportada para um laboratório, o tecido do cordão umbilical é processado – e há dois métodos possíveis -, e depois trata-se do armazenamento, a criopreservação com descida controlada da temperatura até cerca de -150ºC.

“Depois deste arrefecimento controlado, as amostras são mantidas em tanques de criopreservação abastecidos com azoto líquido, a temperaturas muito baixas (na ordem dos -196ºC), durante o tempo de duração do contrato ou até serem requisitadas para tratamento”, refere André Gomes.

As células estaminais têm a capacidade de se autorrenovarem e darem origem às células especializadas que constituem os tecidos e órgãos do nosso corpo. Por outro lado, permitem a reparação de tecidos danificados e a substituição das células que vão morrendo e, por isso, são tão importantes no tratamento de diversas patologias.

O tecido do cordão umbilical também é muito rico em células estaminais mesenquimais que têm capacidade de regular a resposta do sistema imunitário. O que significa, explica o responsável, que “podem ser usadas no tratamento de doenças como as doenças autoimunes”. “Além disso, quando utilizadas em conjunto com células estaminais hematopoiéticas, podem aumentar a probabilidade de sucesso dos transplantes. O potencial destas células encontra-se em estudo em ensaios clínicos em doenças como diabetes, colite ulcerosa, cirrose hepática, cardiomiopatias, esclerose múltipla, lúpus e doenças do enxerto contra hospedeiro, entre tantas outras”, acrescenta.

As células estaminais são também designadas por células precursoras ou células mãe. Têm particularidades e características únicas.

“Hoje sabemos que as células estaminais constituem um recurso terapêutico muito importante que pode ser utilizado no tratamento de mais de 80 doenças muito graves, e estima-se que, no futuro, esse número venha a aumentar. No que diz respeito à utilização de células estaminais do sangue do cordão umbilical, nos últimos anos, além das doenças hematológicas, tem-se assistido à sua utilização noutras doenças. A diabetes tipo 1 e a paralisia cerebral foram das primeiras áreas de interesse neste contexto e que têm registado evoluções muito positivas”, sublinha André Gomes.

Estão em curso vários ensaios clínicos para testar o potencial do sangue do cordão umbilical em lesões da espinal medula, perda da função auditiva, doença cardíaca congénita, acidente vascular cerebral, e autismo, entre outras patologias.

O primeiro transplante de sangue do cordão umbilical realizou-se em 1994 no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, para tratar uma criança de três anos que sofria de leucemia mieloide crónica. O transplante de células do sangue do cordão umbilical, do seu irmão, foi realizado após quimioterapia. Com células estaminais guardadas em bancos familiares em Portugal, o primeiro transplante teve lugar no IPO do Porto, em 2007, numa criança de 14 meses que sofria de imunodeficiência combinada severa, uma doença rara e fatal quando não tratada, tendo-se recorrido às células estaminais do irmão do doente. A criança ficou curada.

Há outras utilizações de células estaminais do sangue do cordão umbilical. Um caso de leucemia mieloide aguda no Hospital Niño Jesus, em Espanha, e oito utilizações no âmbito da paralisia cerebral, sete nos Estados Unidos e uma em Espanha. Segundo o diretor-geral da Cristoestaminal, nos “casos das crianças com paralisia cerebral, os pais e os prestadores de cuidados, identificaram melhorias após a infusão de sangue do cordão umbilical.”

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