Um ano depois das eleições, no Brasil já só se pensa em 2022

Correio do Pantanal

9 out 2019 às 21:04 hs
Um ano depois das eleições, no Brasil já só se pensa em 2022

À direita, Bolsonaro movimenta-se mas os governadores de São Paulo e do Rio de Janeiro também. E ainda há Moro. Ao centro, o apresentador Luciano Huck prepara-se. À esquerda, dois grupos, o “Lula Livre” e o “Direitos Já”, têm agenda semelhante mas incompatível.

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João Almeida Moreira, São Paulo

Há um ano, os candidatos Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) apuravam-se para a segunda volta das eleições presidenciais no Brasil batendo 11 adversários no sufrágio mais concorrido do país desde 1989. Em 2022, a julgar pelos primeiros indicadores, a fragmentação, da extrema-esquerda à extrema-direita deve ser ainda maior. Já foi dado o tiro de partida. Aliás, muitos tiros de partida.

Bolsonaro, depois de se ter afirmado disposto a cumprir apenas um mandato, dá, desde maio, pistas de que pretende se recandidatar. “Se tiver uma boa reforma política eu posso até jogar fora a possibilidade de reeleição; agora, se não tiver uma boa reforma política e se o povo quiser, estamos aí para continuar mais quatro anos”, disse o presidente da República durante o evento evangélico Marcha por Jesus, enquanto imitava tiros de metralhadora com as mãos. Eis um dos tiros de partida.

Outro tiro foi dado por Paulo Marinho, o mecenas por trás da campanha do capitão do exército em 2018: “O João Doria era o meu candidato original em 2018, mas não era candidato na ocasião, por isso abracei a candidatura do capitão Jair Bolsonaro como atalho para derrotar o PT (…) Doria teve uma vida empresarial de grande sucesso, diferentemente do capitão (…) Doria presidente em 2022? Se dependesse de mim ele era presidente hoje”, afirmou ao jornal Folha de S. Paulo.

AS DIREITAS

Doria, do PSDB, é o atual governador do estado de São Paulo, eleito no mesmo dia do presidente sob o slogan “vota Bolsodoria” – sugerindo que quem escolhesse Bolsonaro para o Planalto, em Brasília, deveria votar nele para o Palácio dos Bandeirantes, a sede do governo paulista. Mas, passo a passo, foi criticando e reprovando atitudes e frases do presidente para, na última quarta-feira à noite em entrevista ao canal Globonews, aposentar de vez o “Bolsodoria”. “A extrema-direita é tão nociva quanto a extrema-esquerda, nunca fui bolsonarista”, disparou.

Presidente Jair Bolsonaro com o seu ministro da Justiça Sergio Moro© REUTERS/Adriano Machado

Calculista, o governador revela-se atento ao desmoronamento de Bolsonaro nas sondagens e afasta-se. Expedito, o presidente contra-ataca ao seu estilo: “Doria? Andou a mamar nas tetas do PT”.

A guerra entre as duas metades do “Bolsodoria” tem em Sergio Moro uma arma de arremesso. O antigo juiz da Lava-Jato, submetido às vontades de Bolsonaro enquanto apagado ministro da justiça, foi cortejado por Doria para fazer parte do governo paulista caso se decida a abandonar o executivo federal. Mas Moro, apesar de debilitado após a revelação pelo site The Intercept Brasil de que agiu com parcialidade na condenação de Lula da Silva, ainda é mais popular do que o próprio chefe do governo e pode pensar em concorrer a 2022 por conta própria. Para já, porém, vai negando.

Também juiz mas mais direto do que Moro, o governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel assume-se como candidato sem rodeios. Eleito na senda do discurso de justiceiro de Bolsonaro, com direito a frases como “a polícia tem de mirar a cabecinha do bandido e fogo”, é tão veemente na sua intenção de tentar o Planalto em 2022 que despertou irritação no ex-aliado Flávio Bolsonaro, filho do presidente. O senador suspeito de corrupção retirou o apoio do seu partido, o PSL, ao governador, militante do também ultraconservador PSC. Serviu como ponto de partida para Witzel tentar costurar alianças com outras forças.

O CENTRO

Outros nomes, mais ao centro, também se movimentam: Rodrigo Maia (DEM), o presidente da Câmara dos Deputados, que aproveita a falta de sentido de estado do presidente para se apresentar como voz mais ponderada e adulta de Brasília, vem somando apoios.

E Luciano Huck, o apresentador de um programa de entretenimento da TV Globo, está agora disposto a enfrentar a corrida eleitoral, depois de ter dado o tiro de partida ainda em 2018 mas desistido na reta final. O antigo presidente Fernando Henrique Cardoso, líder espiritual do PSDB que não gosta de Doria, é o seu apoiante de maior peso. Mas Huck tem ainda a colaboração do muito estimado ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, do bem-sucedido ex-governador do Espírito Santo Paulo Hartung e de grupos influentes de renovação política, como o Agora! e o Renova Br. Mais de um partido já se ofereceu para hospedar o comunicador nas suas listas.

AS ESQUERDAS

A fragmentação à esquerda não é menor do que aquelas à direita e ao centro. Mas podemos dividi-la, para simplificar, em dois grandes campos: o grupo “Lula Livre!” e o grupo “Direitos Já”.

O segundo grupo disparou o seu tiro de partida em manifesto lançado numa universidade de São Paulo, a PUC, no início de setembro e o seu nome remete ao célebre “Diretas Já”, movimento nos anos 80 que visava o fim da ditadura e a realização de eleições.

Heterogéneo, o “Direitos Já” juntou lideranças na ideia de que o Brasil, sob o governo de Bolsonaro, não discute hoje a divisão “esquerda-direita” mas sim a dicotomia “civilização-barbárie”. Compareceram dois presidenciáveis, o governador do Maranhão Flávio Dino (PC do B) e o terceiro classificado nas últimas eleições Ciro Gomes (PDT), além de lideranças como Márcio França (PSB), derrotado por Doria na corrida a São Paulo, ou Marta Suplicy, ex-prefeita da maior cidade brasileira.

Presidente Jair Bolsonaro e o seu vice-presidente Hamilton Mourão fotografados durante o Dia da Independência a 7 de setembro© EPA/Joedson Alves

Ou seja, toda a esquerda reunida. Toda? Não, claro: faltou a fatia mais representativa dela, o PT, acantonado no “Lula Livre!”, um lema que não reúne unanimidade entre os integrantes do “Direitos Já”.

Também o PSOL, partido de esquerda nascido de uma cisão do PT mas que se reaproximou do “partido mãe”, com nomes mediáticos nas suas fileiras, como o ex-candidato presidencial Guilherme Boulos, o “refugiado” em Espanha Jean Wyllys, o deputado Marcelo Freixo, mentor da falecida vereadora Marielle Franco, preferiu faltar ao encontro das esquerdas.

O que leva a crer que para 2022, surjam, pelo menos quatro candidaturas no campo progressista – a de Dino, o governador que dizimou a dinastia Sarney no seu estado, e a de Ciro, o terceiro classificado em 2018, caso não se unam, mais a do PSOL e, claro, a do PT.

Mantém-se, pois, a desunião que levou a que em 2018, Haddad e Ciro concorressem separados e abrissem caminho para a eleição de Bolsonaro.

“O PT prefere perder sendo protagonista do que ganhar como ator secundário”, escreve João Filho, colunista de The Intercept BrasilPara essa máxima “petista” contribuem três fatores: a estratégia de isolamento e confrontação em 2018, aparentemente errada na corrida presidencial, ajudou por outro lado o PT a formar a maior bancada do Congresso Nacional; àquela reunião compareceram líderes ou membros de partidos favoráveis ao ainda traumático impeachment de Dilma Rousseff, o que inviabilizaria qualquer diálogo; as revelações da Vaza-Jato sobre a parcialidade de Moro e as irregularidades dos procuradores, deram mais força à narrativa de que Lula pode não só pode sair da prisão antes do esperado como voltar a disputar o Planalto.

Do outro lado, o deputado Júlio Delgado, um dos mais importantes nomes do PSB, explica que a bandeira “Lula Livre” é, a seu ver, “uma coisa ultrapassada”. “Nós reconhecemos a liderança do Lula. Nós reconhecemos o papel que ele teve no pagamento da dívida social que tivemos por um período, mas também reconhecemos os seus equívocos no final de seu governo, os equívocos de ordem ética e moral no governo Lula que foram sequenciados no governo Dilma”, prosseguiu, em entrevista ao jornal Metrópoles.

E concluiu: “”Lula Livre” é uma bandeira do PT, nós não podemos querer participar de movimentos em que esta bandeira seja preponderante”.

Para a generalidade dos brasileiros 2022 parece longe. Para a classe política é logo ali.

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