Os Mamonas Assassinas deixaram de cantar e divertir há 25 anos

Correio do Pantanal

28 fev 2021 às 18:54 hs
Os Mamonas Assassinas deixaram de cantar e divertir há 25 anos

Avião que transportava banda brasileira de sucesso meteórico dos anos 90 caiu a 2 de março de 1996, na Serra da Cantareira, na véspera de visitar Portugal. Para o pai do vocalista e líder da banda “ainda parece que foi ontem”

Os Mamonas Assassinas deixaram de cantar e divertir há 25 anos

João Almeida Moreira, São Paulo28 Fevereiro 2021 — 07:00

“Para mim ainda parece que foi ontem que fui com a minha mulher e a namorada dele buscar o meu filho ao aeroporto de Guarulhos, continuo à espera que o avião aterre, hora a hora, minuto a minuto”, diz Hildebrando Alves, pai de Dinho, o líder, letrista e vocalista da banda de maior sucesso do Brasil nos anos 90 do século passado, os Mamonas Assassinas, 25 anos após a tragédia que matou os seus cinco integrantes.

Às 23h15 do dia 2 de março de 1996, uma falha de comunicação entre a torre de controlo do aeroporto de Guarulhos e o piloto do jato Learjet 25D, que transportava o grupo, levou à colisão da aeronave com uma montanha da Serra da Cantareira, ao norte de São Paulo. Os corpos começaram a ser resgatados apenas seis horas depois, dada a falta de visibilidade do local do acidente.

No aeroporto, vizinho às casas onde todos os membros da banda viviam, Hildebrando esperava e desesperava. Quando a trágica notícia da queda do avião e da morte de todos os seus nove tripulantes e passageiros se confirmou, a comoção abateu-se sobre o Brasil – afinal, os Mamonas Assassinas estavam no auge, com menos de dois anos de atividade, a gozar extraordinário sucesso nacional e a um dia apenas de realizarem a primeira viagem internacional, com destino a Portugal.

Em 1989, os irmãos Sérgio (bateria) e Samuel (baixo) Reis de Oliveira, cujo nome artístico se tornaria “Reoli”, conheceram Alberto Hinoto (guitarra), mais tarde chamado de Bento Hinoto, e formaram a banda Utopia. Um dia, durante um concerto em que foi pedido pela audiência o tema Sweet Child o” Mine da banda Guns N” Roses, o trio pediu a ajuda de alguém do público. Alecsander Alves, cuja alcunha era Dinho, ofereceu-se para cantar e subiu ao palco – de onde nunca mais sairia. Júlio César (teclados), amigo de Dinho, juntar-se-ia depois à banda sob o epíteto de Júlio Rasec.

Os Utopia revelaram-se um fracasso comercial, vendendo apenas 100 discos, e de palco, abusando de covers; no entanto, nos intervalos, quando parodiavam músicas e deixavam fluir a veia humorística, encantavam amigos e vizinhos.

Os produtores Rick Bonadio e Rodrigo Castanho estimularam esse lado, apostando num rock n” roll cómico, caminho até então inédito ou pouco trilhado. O primeiro passo foi a mudança de nome, do melancólico Utopia para o debochado Mamonas Assassinadas do Espaço, uma ideia de Samuel Reoli; o segundo, o guarda-roupa, dos cabelos e peças de vestuário da moda para uniformes de presidiário ou de palhaços.

Sob contrato com a EMI, os Mamonas Assassinas, já sem o “do Espaço”, explodiram nas rádios e depois nas lojas de discos: o álbum homónimo ainda é o disco de estreia mais vendido da história da música no Brasil. A participação em programas de televisão foi o passo seguinte – do Jô Soares Onze e Meia ao Domingão do Faustão, os Mamonas pareciam não sair dos ecrãs, até porque duplicavam, triplicavam audiências.https://www.youtube.com/embed/Ic448X5FEgI?enablejsapi=1&origin=https%3A%2F%2Fwww.dn.pt&widgetid=1

Incluindo em programas infantis, por se terem tornado ídolos das crianças, apesar do estilo politicamente incorreto para a época e politicamente incorretíssimo para os dias de hoje – as letras contêm alto teor sexual, palavrões, piadas homofóbicas, preconceito contra nordestinos… “Hoje seriam cancelados ao primeiro refrão”, disse Rick Bonadio, ao jornal Correio da Bahia. “Dinho sacaneava negros, gays e nordestinos, mas era tudo uma piada com bom senso e inocência, até. Mas a nossa sociedade vive uma situação de amadurecimento em que as pessoas estão, com toda a razão, defendendo que não se façam piadas dessa maneira… Como eles eram muito desbocados, ia ser difícil segurar. Então, acho que haveria muita resistência”.

Ao DN, Hildebrando recorda que o filho era “brincalhão desde criança”. “Acho que saiu ao meu pai, o avô, sempre a fazer piada de todo o mundo, e tudo o inspirava, se estivesse na fazenda fazia piada com animais, se estivesse na cidade com as pessoas”, diz.

Um dos visados, o cantor Roberto Leal, autor de “Arrebita”, canção parodiada pelos Mamonas em “Vira Vira”, tornou-se amigo da banda e de Hildebrando. “Todo o mundo achou que eu ia ficar chateado mas eles levaram-me para uma nova geração, deram-me outra dimensão”, afirmou o português, falecido em 2019.

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