O futuro dos jornais

Correio do Pantanal

15 jan 2021 às 17:55 hs
O futuro dos jornais


MARCANDO A ASCENSÃO DA BURGUESIA, IMPRENSA TEVE PAPEL
DECISIVO AO ELEVAR AS MASSAS A PROTAGONISTAS DA
HISTÓRIA; HOJE, CRESCIMENTO DO SETOR NOS MERCADOS
EMERGENTES, EM CONTRASTE COM OS EUA, AJUDA A REDEFINIR A
DISCUSSÃO DE IDÉIAS EM PAÍSES COMO O BRASIL
ELEONORA DE LUCENA
Editora-executiva da Folha

A invenção de Gutenberg foi fruto da ascensão da burguesia, que começava a
disputar a liderança do processo histórico com a aristocracia. Em sua trajetória, a
imprensa pavimentou a incorporação das massas ao papel de protagonista, sempre
em compasso com as disputas pelo poder.
Se na Inglaterra e na França a liberdade de expressão foi por muito tempo contida
pelas forças do antigo regime, nos Estados Unidos a independência colocou a livre
manifestação como dado constitutivo do país e possibilitou a criação de periódicos
sem as amarras reais.
No Brasil, a Impressão Régia -que aportou no Rio de Janeiro com a fuga da corte
portuguesa de Napoleão- estabeleceu em seus primeiros atos “fiscalizar que nada se
imprimisse contra a religião, o governo e os bons costumes”. Não foi à toa,
portanto, que o primeiro jornal brasileiro -o “Correio Braziliense”- nasceu em
Londres. Foi há 200 anos, comemorados na semana passada.
De lá para cá, o jornalismo nacional marcou sua presença na história, destacando-
se nos momentos de polarização, como nas campanhas pela abolição da
escravatura, pela república, pela democracia, pelas eleições diretas.
Enfrentou períodos sombrios de censura e sufocamento econômico. Como no resto
do mundo, acompanhou a chegada das novas mídias que disputam o tempo e o
bolso do cidadão.
Nos últimos anos, a discussão sobre o futuro dos jornais passou a frequentar o
debate sobre comunicações. A internet -e suas infinitas possibilidades de
informação e interação- é colocada como rival dos meios impressos, tachados de
lerdos e opacos. Preocupados com a adesão avassaladora dos jovens à rede de
computadores, os jornais buscam a renovação e discutem sua função nesse
momento e seu espaço como negócio.
Tradicionais empresas jornalísticas já há muitos anos investem na internet e
aproximam suas plataformas de informação. Embora sejam âncoras importantes na
rede e ganhem audiências em crescimento exponencial, não encontram
contrapartidas em suas receitas que possam justificar uma eventual transição do
papel para a tela.
Ao mesmo tempo, a venda de jornais continua a crescer no mundo (2,6% em 2007),
muito impulsionada por países como China e Índia -e Brasil, que teve alta de 11,8%.
Bússola para o leitor
Por aqui, onde a televisão ainda reina quase absoluta como em nenhum outro lugar
do globo, a fatia dos jornais no bolo publicitário engordou. Foi de 19,4%, em março
último. A internet ficou com apenas 3,2%. Só no primeiro trimestre deste ano, a
publicidade em jornais brasileiros aumentou 24%.
Esse vigor mostra o interesse e a confiança de leitores e anunciantes nos diários
impressos e coloca em xeque previsões pessimistas. Os jornais condensam uma
credibilidade difícil de ser replicada em outros meios e funcionam como uma
bússola para o leitor imerso no caos informativo atual. Apresentam um resumo
organizado das notícias mais importantes das últimas 24 horas, selecionando e
hierarquizando fatos, análises e opiniões. Já foi dito que editores atuam como
curadores de notícias para seus leitores.

Os jornais também são os principais responsáveis pelos chamados furos de
informação, fatos inéditos e relevantes que são trazidos à luz contra interesses e em
benefício da democracia. Trazem um mosaico de opiniões único e se tornam
referência na discussão de idéias do país. Finalmente, são elogiados também por
serem práticos, portáteis.
Nem por isso deixam de enfrentar questionamentos variados. Nos Estados Unidos,
sempre referência nesse e em outros debates, os jornais registram vendas estáveis
ou declinantes e sofrem golpes -muitos advindos da internet- que atingem sua
imagem de credibilidade e independência. O oficialismo e o adesismo na cobertura
da Guerra no Iraque, por exemplo, deixaram cicatrizes incômodas.
Além disso, a pulverização do capital das empresas jornalísticas norte-americanas,
a partir dos anos 60, introduziu novas lógicas para avaliação dos resultados dos
produtos perante seus acionistas. Hoje, eles passam por mudanças sensíveis em
seus controles -e em suas linhas editoriais. Movimento que coincide com um dos
momentos mais ricos da história política recente nos EUA.
Há uma disputa de mercado e de poder. Os jornais estão nesse emaranhado
tratando de achar o seu rumo. É disso que trata o texto que a Folha publica a
seguir. O autor garimpa nos 300 anos de história da imprensa nos Estados Unidos
explicações para os desafios de hoje.
Lá e aqui não existem respostas definitivas sobre os caminhos para os jornais.
Como podem ampliar seu universo de leitores -especialmente em países, como o
Brasil, onde o analfabetismo ainda é uma vergonhosa realidade? Como conseguir
atrair as novas gerações bombardeadas pela multimídia? Como trabalhar com a
internet? Como, enfim, melhorar a qualidade do produto despachado diariamente
até a porta do consumidor antes do seu café da manhã?
No texto que segue, publicado originalmente na revista norte-americana “The New
Yorker”, o autor lembra que bons jornais devem ser como um país conversando
consigo mesmo. Numa sociedade extremamente desigual e cada vez mais
preocupada com o bem-estar em escala privada, os jornais colocam foco sobre o
interesse público. Têm a tarefa de fazer uma reflexão cotidiana sobre a realidade. É
o seu papel e o seu futuro.
O futuro dos jornais
Blog de política mais popular dos EUA, Huffington Post radicaliza a
noção de interatividade, mas ainda depende das reportagens dos
grandes diários; para sua fundadora, falar da morte dos jornais é
“ridículo”
ERIC ALTERMAN
O jornal norte-americano está na praça há mais ou menos 300 anos. A folha
veemente de Benjamin Harris “Publick Occurrences, Both Foreign and Domestick”
[Ocorrências Públicas Estrangeiras e Domésticas], só conseguiu tirar um número,
em 1690, antes de ser fechada pelas autoridades de Massachusetts.
Harris sugerira uma linha dura e politicamente incorreta quanto à remoção dos
indígenas e chocara as suscetibilidades locais ao informar que o rei da França
tomava liberdades com a mulher do príncipe.
Mas foi apenas em 1721, quando o impressor James Franklin lançou o “New
England Courant”, que as colônias britânicas na América do Norte viram surgir algo
semelhante aos jornais de hoje.
Irmão mais velho de Benjamin, Franklin se recusava a aderir às praticas
costumeiras de direitos autorais e atacava os poderes estabelecidos na Nova
Inglaterra, logrando assim tanto independência editorial como sucesso comercial.
Preenchia seu jornal com cruzadas (contra tudo, dos piratas ao poder dos pastores

puritanos Cotton e Increase Mather), ensaios literários, vinhetas e ruminações
filosóficas.
Três séculos depois do “Courant”, já não é preciso ter uma imaginação distópica
para cogitar quem terá a honra ambígua de publicar o último jornal de verdade nos
EUA.
Pouca gente acredita que os jornais, na forma impressa de hoje, tenham chance de
sobreviver. Eles estão perdendo anunciantes, leitores, valor de mercado e, em
alguns casos, o próprio senso de missão, num ritmo que teria sido difícil imaginar
meros quatro anos atrás.
Num discurso recente em Londres, Bill Keller, editor-executivo do “New York
Times”, declarou: “Onde quer que editores e publishers se encontrem, a atmosfera é
funérea. Os editores perguntam “como você está?” naquele tom que se usa com um
amigo que acaba de sair de uma desintoxicação ou um divórcio”.
Seu discurso foi publicado no site de seu anfitrião, o “Guardian”, sob a manchete
“Vivo ainda”. Ainda. Mas as tendências de circulação e publicidade, a ascensão da
web, que faz o jornal diário parecer lento e lerdo, e o advento da Craigslist, que está
extinguindo os classificados, criaram uma sensação palpável de fim iminente.
Nos últimos três anos, os jornais americanos independentes perderam 42% de seu
valor de mercado, segundo o empresário de mídia Alan Mutter.
Poucas companhias foram tão punidas em Wall Street quanto aquelas que ousaram
investir no ramo jornalístico. A McClatchy Company, a única a dar um lance pela
cadeia Knight Ridder quando ela foi a leilão em 2005, perdeu 80% de seu valor
acionário desde que concluiu a aquisição de US$ 6,5 bilhões. As ações da Lee
Enterprises caíram 75% desde que ela adquiriu a cadeia Pulitzer, naquele mesmo
ano.
As companhias jornalísticas mais prezadas começaram, de repente, a parecer um
fardo empresarial. Em vez de competir numa era de transformação, as famílias que
controlavam o “Los Angeles Times” e o “Wall Street Journal” venderam a maior
parte de suas ações.
A New York Times Company viu suas ações caírem 54% desde 2004, em especial no
último ano; em fevereiro, o Deutsche Bank recomendou que seus clientes
vendessem ações do “New Tork Times”. A Washington Post Company só evitou o
mesmo destino ao se apresentar como “empresa de educação e comunicação”; seu
braço didático, a Kaplan, agora responde por pelo menos metade do faturamento
total.
Máquina de dinheiro
Até pouco tempo atrás, os jornais estavam acostumados a operar como monopólios
de alta margem de lucro. Por muitas décadas, publicar o jornal dominante -ou
único- de uma cidade dos EUA de porte médio equivalia a deter uma licença para
imprimir dinheiro.
Mas na era da internet ainda não apareceu ninguém com uma solução para salvar o
jornal, nos EUA e no mundo. Os jornais criaram sites que se beneficiam da alta da
publicidade on-line, mas os valores vindos dessa fonte não cobrem, nem de longe, a
perda de faturamento com a queda da circulação e da publicidade impressa.
A maioria dos executivos reagiu ao colapso de seu modelo de negócios com uma
espiral de cortes orçamentários, sucursais fechadas, fusões, demissões e reduções
de formato e entrelinha. De 1990 para cá, um quarto dos empregos no ramo
jornalístico desapareceu.
A colunista Molly Ivins [1944-2007] reclamava, antes de morrer, da solução dada
pelas companhias aos problema: “Tornar o produto menor, inútil e
desinteressante”.
Talvez isso ajude a explicar por que o número decrescente de americanos que

compram e lêem jornais diários gasta cada vez menos tempo com eles: a média é
inferior a 15 horas por mês. E meros 19% dos americanos com idade entre 18 e 34
anos declaram consultar jornais diários. A idade média do leitor de jornais é de 55
anos -e a curva aponta para cima.
Artefato de museu?
Em “The Vanishing Newspaper” (2004), Philip Meyer arrisca a previsão de que o
último exemplar do último jornal aparecerá na porta de seu leitor em algum dia de

  1. Talvez não seja muito delicado lembrar que essas declarações coincidem com
    a inauguração, neste ano, do Newseum [museu de notícias] de Washington, D.C.,
    projeto de US$ 540 milhões.
    Mas o fato é que, cada vez mais, isso que Bill Keller chama de “adorável e antiquado
    feixe de tinta e celulose” começa a parecer um artefato digno de ser exposto num
    museu.
    Quem vai tomando o lugar, como se sabe, é a internet, que está a ponto de
    ultrapassar os jornais como fonte de informação política para os leitores
    americanos -coisa que já aconteceu entre os jovens e os politicamente engajados. Já
    em maio de 2004, os jornais ocupavam o último lugar entre as fontes de notícia
    preferidas pelos leitores mais jovens.
    Segundo o relatório “Abandoning the News” [Abandonando os Jornais], publicado
    pela Carnegie Corporation, 39% dos entrevistados com idade inferior a 35 anos
    acreditavam que, no futuro, usariam a internet como fonte de informação. Apenas
    8% disseram que recorreriam a um jornal.
    Há um elemento de injustiça irônica no fato de que o leitor que navega pela internet
    em busca de notícias políticas muitas vezes acaba dando num site que meramente
    reúne trabalho jornalístico proveniente de um jornal -embora esse fato não será
    capaz de salvar os empregos ou aumentar as cotações do ramo jornalístico.
    Um dos aspectos mais significativos na transição dos jornais de papel para o mundo
    da informação digital diz respeito à própria natureza da “notícia”.
    O jornal norte-americano (bem como os noticiários noturnos) dirige-se a um
    público vasto, de opiniões e valores conflitantes, fazendo apelo a um ideal de
    objetividade.
    Muitos jornais, no afã de demonstrar equilíbrio e imparcialidade, não permitem
    que seus jornalistas exprimam suas opiniões em público, participem de passeatas,
    trabalhem em campanhas políticas, usem broches políticos ou colem adesivos em
    seus carros.
    Numa conversa particular, jornalistas e editores podem até admitir que a
    objetividade é um ideal, mas, como membros de uma fraternidade suscetível,
    poucos dentre eles se permitiriam demonstrar em público o menor laivo de
    parcialidade.
    Os jornalistas preferem desdenhar a possibilidade de que suas crenças pessoais
    possam interferir em sua capacidade de cobrir uma história com perfeito equilíbrio.
    Nesse meio tempo, a confiança pública nos jornais vem caindo vertiginosamente.
    Um estudo recente da Universidade do Sagrado Coração revelou que menos de 20%
    dos americanos declararam acreditar “em todo ou quase todo” o noticiário
    jornalístico -número que despencou 27% em apenas cinco anos.
    “Menos de uma em cada cinco pessoas acredita no que lê na imprensa”, concluiu o
    relatório “O Estado da Mídia” de 2007, publicado pelo Projeto pela Excelência em
    Jornalismo. “A CNN não goza de mais confiança que a Fox, a ABC ou a NBC. O
    jornal local não é visto de modo muito diferente que o “New York Times”.”
    Quase 9 em cada 10 americanos
    declararam que a mídia tenta, de

caso pensado, influenciar políticas
públicas
Os americanos que acreditam em discos voadores ou em alguma teoria da
conspiração em torno do 11 de Setembro são muito mais numerosos do que aqueles
que acreditam na noção de uma imprensa imparcial, que dirá “objetiva”.
Quase 9 em cada 10 americanos declararam ao estudo da Universidade do Sagrado
Coração que a mídia tenta, de caso pensado, influenciar políticas públicas.
Não menos alarmante é a rápida transformação que se deu no entendimento e na
demanda do público por “notícias”.
Reinvenção
Em abril de 2005, numa palestra diante da Sociedade Americana de Editores de
Jornal, dois anos antes da aquisição, por US$ 5 bilhões, da Dow Jones & Co. e do
“Wall Street Journal”, Rupert Murdoch advertiu os principais editores e publishers
do ramo jornalístico: tinham chegado ao fim os dias em que “as notícias e a
informação eram firmemente controladas por uns poucos editores, que decidiam o
que podíamos e devíamos saber”. Ninguém mais aceitaria essa “figura divina”, que
apresentava as notícias como quem revela o Evangelho. Os consumidores de hoje
querem “notícias no calor da hora, atualizadas constantemente. Querem um ponto
de vista, não apenas sobre o que aconteceu, mas também sobre as razões pelas
quais aconteceu. Finalmente, querem poder usar essa informação em comunidades
mais vastas -querem discutir, debater, questionar e até mesmo encontrar pessoas
que pensam o mundo de modo semelhante ou diverso”.
Um mês depois da palestra de Murdoch, um mestre em computação, Jonah Peretti,
e um ex-executivo da AOL, Kenneth Lerer, se juntaram à ubíqua comentadora-
candidata-ativista Arianna Huffington para lançar um novo site, que batizaram de
Huffington Post.
Concebido inicialmente como alternativa liberal [nos EUA, sinônimo de esquerda]
ao Drudge Report, o Huffington Post começou reunindo noticiário e fofoca sobre
política, ao mesmo tempo em que organizava um blog com colunistas
arregimentados no rol preocupantemente vasto de amigos e conexões de
Huffington.
Quase por acaso, os proprietários do Huffington Post descobriram uma fórmula que
capitalizava sobre os problemas do jornalismo impresso na era da internet, e agora
estão convencidos de que estão prontos para reinventar o jornalismo norte-
americano.
“Logo vimos que a chave para a empresa consistia não em imitar o Drudge”,
rememora Lerer, “mas em tirar vantagem de nossa comunidade. A chave consistia
em pensar sobre o que estávamos fazendo do ponto de vista dessa comunidade”.
No Huffington Post, explica Peretti, a notícia não é uma coisa que se entrega de
cima para baixo, mas algo que é “compartilhado entre o produtor e o consumidor”.
Fazendo eco a Murdoch, ele diz que a internet oferece ao editor uma “informação
imediata” sobre quais matérias interessam ao leitores, suscitam comentários, são
enviadas a amigos e geram mais pesquisas nos sites de busca. Um site de notícias,
segundo Peretti, tem “uma vida que seria impossível à base de papel e tinta”.
O Huffington tem uma equipe de jornalismo (diminuta, mas há esperanças de
expandi-la no futuro), a maioria das matérias provêm de outras fontes, impressas,
televisivas ou particulares -a câmera ou o celular de alguém. Os editores criam links
para o que lhes parece ser a melhor matéria sobre um determinado tópico e lhes
dão uma manchete chamativa e de viés liberal, seguida de um espaço aberto para
comentários dos leitores.
Ao redor dos artigos noticiosos, encontram-se as postagens muito veementes de

uma hoste de blogueiros célebres (Nora Ephron, Larry David) ou nem tanto -mais
de 1.800. Os blogueiros não são remunerados.
O efeito final pode parecer caótico e confuso, mas, segundo Lerer, “esse modo de
pensar e apresentar a notícia é tão transformador quanto foi a CNN, 30 anos atrás”.
Arianna Huffington e seus sócios acreditam que esse modelo aponta para o futuro
da indústria jornalística. “Todo mundo fala da morte dos jornais, como se fosse um
caso encerrado. Eu acho isso ridículo”, diz ela. “A mídia tradicional só precisa
perceber que a palavra digital não é o inimigo. Na verdade, é a palavra digital que
vai salvar os jornais, contanto que eles a adotem de verdade.”
Tese discutível
Parece uma ambição quase risível, partindo de uma empresa com apenas 46
empregados em tempo integral, muitos dos quais mal têm idade para alugar um
carro. Mas, com US$ 11 milhões à sua disposição, o site chega a arrecadar entre
US$ 6 milhões e US$ 10 milhões por ano. O que mais impressiona os anunciantes –
e deprime os executivos de jornais- são os números da expansão do site.
Nos últimos 30 dias, graças, em parte, às primárias democratas, as visitas saltaram
para mais de 11 milhões, segundo a empresa. E, segundo as estimativas da Nielsen
NetRatings e da comScore, o Huffington Post só perde em popularidade para oito
sites de jornais, subindo da 16ª posição que ocupava em dezembro passado.
Mas a idéia de que o Huffington Post possa competir com (ou substituir) os
melhores jornais tradicionais é discutível sob outros aspectos ainda. As fontes de
reportagem original do site são minúsculas. Não há cobertura constante de esportes
ou livros, e a seção de entretenimento é um amontoado de fofoca virtual sem
nenhum trabalho de verificação.
E, por mais que o Huffington Post tenha conquistado espaço como lugar em que
políticos progressistas e vultos liberais de Hollywood publicam seus sentimentos
anti-Bush, muitas das postagens publicadas não merecem o esforço de um simples
clique com o mouse.
As esquisitices não param por aí. Enquanto um jornal tende a afiançar o que
publica por conta de um processo editorial em que jornalistas e editores devem
checar suas fontes antes de publicar uma matéria, a blogosfera depende de seus
leitores -de sua comunidade- exercerem algum controle de qualidade.
No Huffington Post, explica Peretti, os editores “assinam embaixo da primeira
página” e dão o melhor de si para assegurar que apenas blogueiros e fontes
confiáveis sejam postadas ali. Mas a maior parte das postagens é veiculada antes
que qualquer editor tenha tempo de vê-las. Os editores só intervêm se algum leitor
julgar que uma postagem qualquer é falsa, difamatória ou ofensiva.
Os processos editoriais do Huffington Post baseiam-se no que Peretti chama
“estratégia “mullet'” (“negócios na frente, festa nos fundos”, como quer seu site
BuzzFeed) (1).
“A onda é a do conteúdo gerado pelo próprio usuário, mas a maior parte desse
conteúdo não vale nada”, diz Peretti.
A “estratégia “mullet'” convida o usuário a “discutir e deblaterar nas páginas
secundárias, enquanto editores profissionais cuidam da primeira página. Essa
estratégia veio para ficar, porque o melhor meio de aumentar a visitação é deixar
que os usuários tenham controle, enquanto o melhor meio de aumentar a
publicidade é manter uma primeira página limpa e bonita, onde o anunciante pode
admirar a marca de sua empresa”.
Essa estratégia não é livre de problemas. Durante a crise do furacão Katrina, o
ativista Randall Robinson postou relatos de New Orleans segundo os quais havia
“pessoas comendo cadáveres para sobreviver”.
Quando Arianna Huffington ficou sabendo da postagem, entrou em contato com

Robinson e descobriu que ele não tinha como comprovar suas fantasias. Huffington
então pediu que Robinson postasse um pedido de desculpas. A rapidez com que a
correção foi feita foi admirável, mas não o suficiente para impedir que a informação
incorreta fosse repetida em outros lugares.
As tensões entre os líderes da mídia tradicional e os desafios da internet foram
prenunciados por um dos debates intelectuais mais instrutivos e acalorados nos
EUA do século 20.
Entre 1920 e 1925, o jovem Walter Lippmann publicou três livros que investigavam
a relação entre democracia e imprensa, entre eles “Public Opinion” [Opinião
Pública”, 1922], que está na origem da profissão de relações públicas e do campo
acadêmico de estudo da mídia. Lippmann identificou uma lacuna fundamental
entre o que naturalmente esperamos da democracia e o que sabemos sobre as
pessoas.
A teoria da democracia supõe cidadãos bem informados sobre as pautas públicas e
sobre os indivíduos que se candidatam a conduzi-las. E, por mais que esse fosse o
caso entre os cidadãos brancos e proprietários na Boston de Benjamin Franklin, a
sociedade capitalista contemporânea era grande e complexa demais, na visão de
Lippmann, para que eventos decisivos pudessem ser entendidos pelo cidadão
comum.
O jornalismo funciona bem, segundo Lippmann, quando se trata de “relatar o
resultado de um jogo ou o sucesso de um vôo transatlântico ou a morte de um
monarca”.
Mas, quando a situação se complica, “por exemplo, quando se trata do êxito de uma
dada política ou da situação social de um país estrangeiro, isto é, quando a resposta
não é apenas um sim ou um não, mas sutil e dependente de dados confiáveis”, o
jornalismo “se torna fonte de todo tipo de confusão, de mal-entendido ou de
simples distorção”.
Elitista confesso
Lippmann comparava o americano médio -o “outsider”, como ele o chamava- a um
“espectador surdo na última fileira” de um evento esportivo: “Não sabe o que está
acontecendo, por que está acontecendo, o que deveria acontecer” e vive “num
mundo que não tem como ver, entender ou dirigir”.
Numa descrição que só pode soar familiar a quem assiste canais de TV a cabo ou
escuta programas de debate no rádio, Lippmann julgava que o público “demora a se
excitar e não tarda em se distrair […] e só tem interesse por acontecimentos
dramatizados na forma de um conflito”.
Elitista confesso, Lippmann não via nada de chocante nessas conclusões. Não se
espera do cidadão médio que seja fluente em física de partículas ou em pós-
estruturalismo; então por que deveria entender a política do Congresso ou do
Oriente Médio?
Para Lippmann, a melhor solução consistia, essencialmente, em jogar a democracia
no lixo. Justificou suas opiniões afirmando que só os resultados interessavam.
Mesmo supondo que as pessoas viessem a ser bem informadas a ponto de poderem
se governar sabiamente, “é mais que duvidoso que a maioria se desse a esse
trabalho”.
Em sua primeira abordagem da questão, em “Liberty and the News” [Liberdade e
Notícia, 1920], Lippmann sugeriu que se elevasse o lugar do jornalismo entre as
profissões mais respeitadas.
Dois anos depois, em “Opinião Pública”, concluiu que o jornalismo jamais poderia
resolver o problema com “meros 30 minutos de ação num dia de 24 horas”. Numa
das fórmulas mais estranhas de sua longa carreira, Lippmann propôs que se
constituíssem “agências de inteligência” com livre acesso a toda informação

necessária a controlar as ações do governo, sem fazer muito caso de preferências
democráticas ou debates públicos.
Lippmann jamais chegou a explicar qual seria o papel do público nesse processo.
O filósofo John Dewey considerou “Opinião Pública” “um dos ataques mais
poderosos à democracia” e passou bons cinco anos tentando enfrentá-lo.
O resultado, publicado em 1927, foi um livro muito tendencioso, denso e
importante, “The Public and Its Problems” [O Público e Seus Problemas]. Dewey
não contestou as afirmações de Lippmann sobre as falhas do jornalismo ou sobre a
manipulação do público.
Mas Dewey achava que o remédio de Lippmann era pior que a doença. Para Dewey,
a opinião pública não era apenas uma soma de opiniões individuais, como numa
votação, mas um foro de discussões.
Para ele, o fundamento da democracia estava menos na informação do que na
conversação, e membros de uma sociedade democrática precisavam cultivar o que
James W. Carey, estudioso do debate, chamou de “hábitos vitais” da democracia -a
capacidade de deliberar e debater perspectivas rumo a um consenso.
Dewey criticou também a confiança de Lippmann em elites baseadas no acesso à
informação: “Uma classe de especialistas distante dos interesses comuns logo se
torna uma classe com interesses próprios e informação privilegiada. […] O dono do
sapato é quem sabe onde o sapato aperta, por mais que o sapateiro seja a pessoa
mais indicada para resolver o problema”.
Lippmann e Dewey dedicaram boa parte de suas vidas a tratar dos problemas que
diagnosticaram: Lippmann como o tecnocrata arquetípico e Dewey como o profeta
da educação democrática. Se é que se pode falar de um vencedor, o fato é que o
futuro foi se aproximando do ideal de Lippmann.
O jornalismo de verdade, em
especial o investigativo, é caro;
compilação e opinião são baratos
Interesse público
A história da imprensa americana rumou exatamente para o tipo de
profissionalização que Lippmann advogava. Nos anos em que Lippmann escrevia,
muitos jornais continuavam presos ao modelo partidário dos séculos 18 e 19 (basta
pensar em Thomas Jefferson e Alexander Hamilton duelando por meio de seus
respectivos jornais enquanto serviam no governo de George Washington).
O modelo do século 20, em que os jornais lutam por ter independência política e
tentam atuar como árbitros em prol do interesse público estava apenas nascendo.
À medida que a profissão ganhava sofisticação e respeito, em parte devido ao
exemplo de Lippmann, os melhores jornalistas, apresentadores e editores foram
assumindo lugares comparáveis socialmente aos de senadores, ministros e
executivos. Ao mesmo tempo, e conforme o que Dewey previra, esses mesmos
personagens vieram a se identificar mais com seus assuntos do que com seus
públicos.
Deixando de lado as eleições, a política veio a se parecer mais e mais com um
negócio para especialistas e um espetáculo para os ignaros -exatamente como
Lippmann queria e Dewey temia. Exceção feita às “cartas ao editor”, o papel do
leitor se tornou puramente passivo.
O primeiro desafio ao modelo de Lippmann veio da direita. Muitos conservadores
suspeitavam do esquerdismo da grande mídia, supostamente incapaz de cobrir com
imparcialidade assuntos como o movimento pelos direitos civis ou a campanha
presidencial de Barry Goldwater.

A reação veio na forma de “think tanks” e veículos de mídia destinados a desafiar e
contornar a grande mídia.
A vitória de Ronald Reagan não dependeu apenas do apelo pessoal do candidato,
mas de um longo trabalho ideológico conduzido em revistas como a “National
Review”, de William F. Buckley Jr., e a “Commentary”, de Norman Podhoretz, bem
como nas páginas editoriais do “Wall Street Journal”, editadas ao longo de três
décadas por Robert Bartley.
A ascensão do que seria conhecido como o contra-establishment conservador pode
ser entendido nos termos de uma comunidade deweyana tentando tomar as rédeas
da autoridade democrática das mãos de uma elite a la Lippmann.
A versão à esquerda dessa comunidade demorou mais tempo a se formar, em parte
porque a esquerda levou mais tempo para tomar distância da mídia.
Até o fim da década de 70, boa parte da grande mídia de fato dava mostras do “viés
de esquerda”, que ainda incomoda os conservadores.
Comunidades
Mas o esforço de recrutar pessoal do contra-establishment conservador, combinado
ao investimento financeiro da direita numa rede de “think tanks”, grupos de
pressão, revistas, estações de rádio e redes de TV exerceu sobre a grande mídia uma
espécie de atração gravitacional rumo à direita, que acabou criando um contexto
simpático a candidatos conservadores com que Goldwater jamais teria sonhado.
O nascimento da blogosfera mais à esquerda, com sua capacidade de contornar as
grandes instituições da mídia, representa um retorno do desafio deweyano a nossa
compreensão lippmanniana do que seja ou não seja “notícia” e pode parecer um
renascimento da noção de discurso democrático cultivada pelo filósofo.
A internet constitui uma plataforma que permite a criação de comunidades -a
distribuição é barata, rápida e eficiente. O velho modelo democrático supunha uma
nação de cidades ianques povoadas por fazendeiros de boa índole e boa informação.
Graças à internet, todos podemos participar de um debate deweyano sobre
presidentes, políticas e propostas. Basta ter uma conexão decente.
Sem investigação
O Huffington Post conquistou lugar ao sol no verão e no outono de 2005, quando
Arianna Huffington atacou as reportagens de política militar e estrangeira de
Judith Miller para o “New York Times”, valendo-se de todo tipo de fontes.
O Huffington Post certamente não foi o primeiro site a se valer de informações dos
leitores para atacar a grande mídia.
Por exemplo, blogueiros conservadores em sites como Little Green Footballs
deleitaram-se em derrubar Dan Rather depois que este veiculou documentos
dúbios, que supostamente provavam o tratamento especial oferecido a George W.
Bush quando servia a Guarda Nacional no Texas.
Jornalistas mais tradicionais tendem a não se impressionar com o estilo de
reportagem praticados pelos blogs. O jornalismo de verdade, em especial o
investigativo, é caro, não cansam de lembrar; compilação e opinião são baratos.
E é verdade: não há nenhum site que gaste o que os melhores jornais gastam em
suas reportagens. Com todos os cortes, o “New York Times” conserva 1.200 pessoas
na Redação -50 vezes mais que o Huffington Post.
O “Washington Post” e o “Los Angeles Times” têm 800 e 900 empregados
editoriais, respectivamente. A sucursal do “New York Times” em Bagdá custa US$ 3
milhões anuais. O Huffington Post se beneficia desse investimento, mas não carrega
nenhum dos custos. É difícil imaginar blogueiros com a experiência, por exemplo,
de Barton Gellman e Dana Priest, do “Post”, ou de Dexter Filkins e Alissa Rubin, do
“Times”.

Em outubro de 2005, numa conferência em Phoenix, Bill Keller reclamou dos
blogueiros que apenas “mastigam e reciclam notícias”, em contraste com o
“jornalismo de verificação” do “Times”.
“Os blogueiros não mastigam notícias, eles cospem notícias”, protestou Arianna
Huffington numa postagem em seu blog.
Como muitos blogueiros de esquerda, ela se irrita com a idéia de que a imprensa
tradicional é superior à blogosfera quando se trata de publicar a verdade mais
dolorida.
Nos momentos finais rumo à Guerra do Iraque, por exemplo, “toda a grande
imprensa, incluindo o “Times”, perdeu todo o seu verniz de confiabilidade absoluta,
ao mesmo tempo em que se tornava claro que as novas mídias mereciam confiança
dos leitores e espectadores -na medida em que se corrigem com muito mais rapidez
que os velhos veículos”.
Mas Huffington não tem o que dizer sobre a relação parasitária que quase todos os
sites mantêm com o jornalismo impresso.
Há um ano, o Huffington Post fez um gesto na direção de um trabalho de
reportagem mais original e profissional ao contratar Thomas Edsall, veterano de 40
anos no “Washington Post” e em outros jornais. Quando recebeu a proposta do
Huffington Post, Edsall sentiu que o “Washington Post” se deixava mais e mais
“mover pelo medo -da queda da circulação, da perda de anunciantes, dos lucros em
queda, da ameaça da internet, da irrelevância”.
“O medo levou o jornal a corromper o trabalho de reportagem.” Mas exemplos
como o de Edsall ainda são raros.
Assim, por mais que se simpatize com os ataques de Huffington ao “Times” e com
as críticas de Edsall ao “Post”, é impossível não se preocupar com o que será feito
das notícias e da democracia quando não houver mais jornais que invistam seus
recursos e seu orgulho profissional na tarefa de trazer a nós, mesmo que
imperfeitamente, a informação que precisamos ter.
Num episódio recente dos “Simpsons”, uma versão cartunizada do jornalista Dan
Rather abria um debate com “Ron Lehar, jornalista do “Washington Post'”, ao que
Nelson, antípoda de Bart, gritava: “Haha! A sua mídia está morrendo!”. “Nelson!”,
advertia Skinner. “Mas está mesmo!”, replicava o rapaz. Nelson está certo. Os
jornais estão morrendo, e o futuro que se anuncia assim é complicado. Há três
anos, Rupert Murdoch advertia: “Fomos incrivelmente complacentes, esperando
que a tal da revolução digital fosse passar ao largo”. 
Hoje, todos os jornais sérios estão fazendo o que podem para se adaptar. Alguns,
como o “Times” e o “Post”, provavelmente sobreviverão a esse momento de
transformação tecnológica, cortando pessoal e aumentando sua presença on-line.
Outros vão tentar nichos locais. Os editores dizem que agora “sacaram a coisa”. 
Mas os jornalistas tradicionais, à maneira de Lippmann, tendem a desdenhar tanto
as críticas dos blogueiros como também o fermento democrático de que essas
críticas provêm. 
Há pouco, o “Chicago Tribune” decidiu fechar os canais de comentário on-line nas
matérias de cunho político. Seu editor, Timothy J. McNulty, queixou-se, não sem
razão, de que os canais de comentário começavam a parecer “uma comunidade de
extremistas destemperados”. 
Arianna Huffington, por sua vez, acredita que os modelos vão acabar por convergir,
à medida que os dólares da publicidade continuem a migrar para a esfera on-line:
“O HuffPost vai gerar mais e mais reportagem original, enquanto o “Times” e o
“Post” vão continuar a seguir o modelo de hoje, mas cada vez mais on-line”. 
Por sua vez, os grandes jornais que sobreviverem não poderão desdenhar o apoio
do terceiro setor. O Instituto ProPublica, financiado pelos bilionários liberais Herb
e Marion Sandler e dirigido pelo ex-editor do “Wall Street Journal” Paul Steiger,

quer propiciar à grande mídia o tipo de jornalismo investigativo que hoje parece em
via de abandono por muitos jornais. 
O Centro para a Mídia Independente, liderado por David Bennahum, ex-
colaborador da “Wired”, há pouco contratou Jefferson Morley, do “Washington
Post”, e Allison Silver, do “Los Angeles Times” e do “New York Times”, para dirigir
o site “The Washington Independent”. Mas imaginar que a filantropia poderá
preencher todas as lacunas geradas pelos cortes de pessoal é puro “pensamento
positivo”. 
Estamos no umbral de um mundo de notícias caótico e fraturado, caracterizado por
mais diálogo e menos jornalismo de primeira qualidade. A transformação dos
jornais -de empresas dedicadas à reportagem objetiva em feixes de comunidades
engajadas com suas próprias “notícias”- significará a perda de uma narrativa
nacional em torno de “fatos” consensuais. 
As notícias irão inevitavelmente adquirir coloração “azul” ou “vermelha”. Antes de
Adolph Ochs assumir o “New York Times” e publicar seu famoso mote “sem medo
nem favor”, a cena americana era dominada por jornais partidários. E a cultura
jornalística de muitas nações européias há tempos aceitou a noção de narrativas em
competição, com jornais específicos assumindo as visões de cada facção. Talvez não
seja por acaso que muitos desses países têm um nível de participação política
superior ao dos EUA. 
Mas a transformação há de gerar sérias perdas. Os jornais ajudaram a definir o
sentido dos EUA para seus cidadãos. 
Para escolher uma data ao acaso, na manhã de 11 de fevereiro eu fui buscar a versão
impressa do “Times” na porta de casa e, além das notícias que eu poderia encontrar
em qualquer lugar -Obama vencendo Hillary de novo, e George W. Bush tentando
condenar à morte seis prisioneiros de Guantánamo-, a primeira página trazia uma
combinação única de artigos e matérias que, sem uma instituição que as gerasse e
publicasse, jamais fariam parte de nossa consciência coletiva: uma reportagem de
Nairóbi, por Jeffrey Gettleman, sobre o impacto da violência étnica no Quênia na
classe média local; uma nota de Doha, por Tamar Lewin, sobre o avanço das
universidades americanas no Qatar; e, num furo que o Huffington Post depois viria
a reproduzir, uma matéria de Michael R. Gordon sobre um estudo da Corporação
Rand que criticava a atuação de Bush no Iraque. 
Comunidade imaginada
A justaposição desses tópicos díspares forma um terreno comum a todos os leitores
do jornal e uma imagem do mundo que todos habitam. 
Em seu livro “Comunidades Imaginadas” [recém-lançado no Brasil pela Cia. das
Letras], de 1983, o cientista político Benedict Anderson recorda a comparação
hegeliana do ritual de leitura do jornal à prece matutina: “Cada qual sabe que a
mesma cerimônia é repetida simultaneamente por milhares ou milhões de outros,
em cuja existência confiamos, mas sobre cuja identidade não fazemos a menor
idéia”. 
Ao menos em parte, é a “comunidade imaginada” do jornal diário que forja as
nações em que vivemos. Por fim, vale pensar naquelas pessoas, aqui ou longe daqui,
que dependem do esforço jornalístico para escapar de várias formas de tortura,
opressão e injustiça. 
“As pessoas fazem coisas terríveis umas com as outras”, diz o veterano fotógrafo
George Guthrie na peça “Night and Day”, de Tom Stoppard. “Mas a coisa piora
quando todo mundo está no escuro.” Desde que o “New England Courant” de
Franklin começou a circular, o jornal diário fez mais do que qualquer outro veículo
para produzir a informação de que a nação tanto precisa para não “ficar no escuro”. 
A internet conseguirá lançar a mesma “luz” sem os exércitos de jornalistas e

fotógrafos que os jornais tradicionalmente empregaram? É uma questão que talvez
os democratas mais ardentes não queiram responder. 
Nota

  1. “Mullet” significa “tainha”, “salmonete”, mas também um estilo de corte de cabelo, curto e
    comportado na frente, em cima e nos lados, mas comprido atrás. De onde vem a explicação que
    está no texto, do próprio autor: “Negócio na frente, festa nos fundos”.
    ERIC ALTERMAN é jornalista norte-americano, colunista da “The Nation” e professor na
    Universidade da Cidade de Nova York. A íntegra deste texto foi publicada originalmente na
    “New Yorker”, em 31/3. Tradução de Samuel Titan Jr.
    Jornal mais antigo surgiu no ano de 1605
    DA REDAÇÃO
    O primeiro jornal da história -no sentido de “noticiário impresso de circulação
    pública e seriada”- foi o “Relation”, surgido em 1605, em Estrasburgo, então cidade
    germânica.
    Utilizando outros critérios, o jornal pode remontar aos periódicos manuscritos
    chineses do século 8º ou às “Acta Diurna”, a partir de 59 a.C., em que o imperador
    romano Júlio César tornou públicos atos governamentais, por meio de placas.
    A técnica de impressão com tipos móveis, criada por Johannes Gutenberg em
    meados do século 15, estimulou a circulação de panfletos noticiosos por toda a
    Europa. Na Veneza do século 16, essas folhas avulsas podiam ser compradas por
    uma gazeta -e o nome da moeda inspirou publicações em todo o mundo.
    Até 2007, quando se tornou on-line, o jornal mais antigo do mundo em circulação
    era sueco: o oficial “Post-och Inrikes Tidningar”, que publica registros e
    notificações desde 1645.
    A chegada ao Brasil
    No século 17, o jornal consolidou-se como fonte de análises e relatos do estrangeiro;
    via de regra, jornais regionais vieram depois dos jornais de vocação internacional.
    Antes dos primeiros jornais britânicos, as notícias em língua inglesa eram
    impressas em Amsterdã; do mesmo modo, e quase dois séculos depois, o “Correio
    Braziliense” foi lançado em 1º/6/1808 em Londres -e criado por um português,
    Hipólito da Costa.
    Na mesma época instalava-se no país a corte de d. João 6º, que editaria, a partir de
    10/9/1808, a “Gazeta do Rio de Janeiro” -que duraria até a Independência. Nessa
    época, já havia, como contrapartida da iniciativa privada, o “Diário do Rio de
    Janeiro”, de 1821.
    Quem é quem 
    Huffington Post 
    Site de notícias norte-americano de esquerda, é um dos mais acessados do mundo
    (é o primeiro na lista do Technorati, site que ranqueia os blogs com mais atalhos
    em outros blogs)
    Drudge Report
    Site mantido por Matt Drudge, pioneiro do jornalismo on-line -começou com uma
    lista de e-mails em 1994 e foi o primeiro a noticiar, em 1998, o caso entre o então
    presidente Bill Clinton e a estagiária Monica Lewinsky
    Rupert Murdoch 
    O australiano, 71, é o fundador da News Corporation, o maior grupo de mídia no
    mundo, que controla jornais como “The Wall Street Journal” e o britânico “The
    Times”, além de redes de TV como a Fox
    Barry Goldwater 
    Senador norte-americano por cinco mandatos, Goldwater (1909-98) foi o candidato

republicano à Presidência em 1964; militar de carreira e político linha-dura, perdeu
para Lyndon Johnson
Think tank 
Literalmente “tanque do pensar”, expressão define instituições de pesquisa
especializada e é geralmente associada às áreas econômica, política e militar
Robert Bartley 
Jornalista norte-americano, Bartley (1937-2003) começou a participar da seção de
editoriais do “Wall Street Journal” em 1964, liderando a equipe a partir de 1972. Foi
premiado com o Pulitzer de escrita editorial em 1980
Dan Rather 
O jornalista de 76 anos foi âncora da CBS, rede de TV dos EUA, de 1981 a 2005. O
influente apresentador foi afastado meses depois de revelar um escândalo sobre o
presidente George W. Bush -sem haver se certificado de que era uma fraude

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