O Brasil está de volta e com muitas ambições

Correio do Pantanal

7 jan 2023 às 23:29 hs
O Brasil está de volta e com muitas ambições
Leonídio Paulo Ferreira

Leonídio Paulo Ferreira

08 Janeiro 2023 — 00:00

Lula da Silva foi buscar para a chefia da diplomacia brasileira Mauro Vieira, que já tinha sido ministro dos Negócios Estrangeiros durante a presidência de Dilma Rousseff, depois embaixador nas Nações Unidas, tendo passado os últimos anos a representar o Brasil na Croácia, uma clara despromoção que mostra como o anterior presidente Jair Bolsonaro o associava ao campo político rival. Ora, não admira pois que, numa recente entrevista ao Le Monde, e mesmo afirmando preferir falar do futuro, boa parte das respostas do diplomata tenham sido a prometer fazer quase tudo ao contrário de antes, como a reabertura da embaixada em Caracas, que Bolsonaro mandara fechar quando cortou relações com Nicolás Maduro, reconhecendo antes Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela.

“O Brasil está de volta” é, pois, uma expressão de Lula que Vieira assume, e isto significa que a diplomacia brasileira ambiciona tornar-se verdadeiramente relevante e a nível global. “Trata-se de restaurar nossas relações com o resto do mundo, no nível em que estavam anteriormente. Com a América Latina, o Caribe, a União Europeia, a China, os Estados Unidos, é claro, mas também a África, que foi totalmente esquecida nos últimos quatro anos. Trata-se de recuperar nosso papel, mas também nossa imagem”, declarou o ministro ao diário francês, que anunciou a entrevista como a primeira a um jornal estrangeiro desde que o novo executivo brasileiro tomou posse no início do ano.

Com Lula à frente, num cargo que já desempenhou entre 2003 e 2010, o Brasil pode mesmo surpreender tentando algum tipo de mediação entre o Ocidente e a Rússia em busca de uma solução para a guerra na Ucrânia. Para já, Vieira faz a apologia da necessidade de diálogo e recorda que na tomada de posse, em Brasília, o novo presidente recebeu as governantes enviadas em representação de Vladimir Putin e de Volodymyr Zelensky. E se a condenação da invasão da Ucrânia é clara, já em termos de sanções à Rússia, o Brasil diz que, seguindo o Direito Internacional, só aplicará as que forem aprovadas no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Lula, que na sua primeira passagem pela presidência brasileira coincidiu com Putin já presidente, também não deixará – segundo Vieira – de convidar o homólogo russo caso o Brasil organize, por exemplo, uma cimeira dos BRICS, organismo que integra ainda China, Índia e África do Sul e funciona como uma espécie de bloco alternativo ao predomínio do Ocidente na cena internacional.

Interessante será ver como este novo Brasil, com vontade de estar presente no mundo e de influenciar positivamente o que é esse mundo, vai gerir a relação com os Estados Unidos, ainda a única verdadeira superpotência e líder do campo democrático de que o gigante lusófono também faz parte. No discurso em que assumiu a pasta, a 2 de janeiro, o ministro deu algumas pistas sobre como Brasília quer relacionar-se com Washington, onde chegou a ser embaixador: “Com os Estados Unidos queremos relações em pé de igualdade, baseadas em valores e interesses comuns, sem qualquer tipo de preconceito sobre temas e assuntos, e isentas de alinhamentos automáticos.”

Se na entrevista ao Le Monde Vieira falou naturalmente da necessidade de analisar o acordo UE-Mercosul (que quer “equilibrado e com ganhos reais para a economia brasileira, tanto em comércio, como em investimentos, e evitando que o meio-ambiente, tema muito caro ao Brasil, seja utilizado como pretexto para o protecionismo”) e das relações com França, que quer aprofundar, no tal discurso inicial praticamente percorreu cada região do mundo, da América do Sul à ASEAN, passando pelo Médio Oriente, mas entre as siglas referidas de organizações internacionais ou de associações de países não esteve a CPLP. Mas, justiça seja feita, não foi esquecida a língua portuguesa, da qual mais de dois terços dos falantes são brasileiros: “O Instituto Guimarães Rosa, por sua vez, nasce como articulador institucional da diplomacia cultural e educacional, bem como da difusão da língua portuguesa, e será parceiro de primeira hora do relançamento da política cultural brasileira.”

De Portugal, o ministro brasileiro não falou. Nem no Le Monde, nem no discurso de posse, a não ser diluído na sigla UE. Mas o mais importante para uma avaliação das perspetivas de evolução das relações é saber que Lula virá em visita de Estado a Portugal em abril, e também para uma cimeira bilateral, tudo combinado com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que foi um dos chefes de Estado que assistiu à tomada de posse em Brasília do antigo metalúrgico. Já em novembro, ainda na qualidade de presidente eleito, Lula passou por Lisboa de regresso da 27.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP27), no Egito, e reuniu-se com Marcelo Rebelo de Sousa e com o primeiro-ministro António Costa. Aguardemos.

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