Novo pronome de género a caminho dos dicionários noruegueses

Correio do Pantanal

3 fev 2022 às 00:06 hs
Novo pronome de género a caminho dos dicionários noruegueses
Introdução de termos mais representativos na língua é uma das batalhas travadas pelas comunidades LGBTQIA+
Introdução de termos mais representativos na língua é uma das batalhas travadas pelas comunidades LGBTQIA+ em todo o mundoFoto: Amin Chaar / Global Imagens

JNOntem às 16:25

Um novo pronome de género neutro fará oficialmente parte da língua norueguesa, dentro de um ano. O objetivo é criar uma alternativa para as pessoas que não se identificam com nenhum dos géneros retratados pelos pronomes tradicionais e, assim, gerar representatividade.

“Hen” tornar-se-á uma alternativa aos pronomes singulares de terceira pessoa existentes nos dicionários noruegueses, o feminino “hun” (“ela”, em português) e o masculino “han” (“ele”). O Conselho de Línguas da Noruega, que confirmou que a alteração deve entrar em vigor dentro de um ano, justifica a introdução do novo pronome com o aumento e posterior estabilização do uso real do termo por parte de pessoas não-binárias (que não se identificam com nenhum dos géneros biologicamente definidos à nascença).

O género não-binário ou a não-binariedade é um termo guarda-chuva para identidades de género que não são estritamente masculinas ou femininas, estando fora do binário de gênero e da cisnormatividade (sistema da norma em que o género de uma pessoa corresponde ao que é percecionado pela sociedade).

De acordo com Daniel Ims, representante do conselho, embora os pronomes de género neutro tenham começado a ser debatidos no seio da comunidade linguística e gramatical da Noruega há já algum tempo, o processo de aceitação dos argumentos para a sua adoção foi moroso e só recentemente é que o paradigma começou a alterar-se, abrindo espaço para a integração das pessoas que – por não se identificaram nem como homens nem como mulheres, ou nem como apenas homens ou apenas mulheres – não se sentem representadas pelas opções que encontram na própria língua.

O debate desencadeado pelos planos de reconhecimento da palavra “hen” tem sido visto de forma positiva por quem defende a visibilidade e representatividade das pessoas não-binárias no espaço público. “Acho que uma pessoa normal na rua não conhece ninguém que se identifique como não-binário. Mas espero que, colocando ‘hen’ no dicionário, possamos espalhar essa ideia, porque há muitas pessoas que não se sentem à vontade com certos pronomes, mas também não têm a terminologia certa para as descrever”, explicou Carl-Oscar Vik, 18 anos, da cidade norueguesa de Skien, à imprensa norueguesa.

Debates em todo o mundo

A questão da representatividade da comunidade não-binária, com debates sobre a linguagem a adotar, vão ganhando espaço em todo o mundo, onde os defensores da integração de novos pronomes e do caráter mutável da linguagem como organismo vivo esbarram no tradicionalismo de quem defende a manutenção da língua com pouco ou nenhum espaço para mudanças.

Mais recentemente, o ministro da educação francêsJean-Michel Blanquer, acusou um dicionário de referência de “doutrina inspirada nos Estados Unidos da América” por incluir uma entrada para a palavra “iel”, usada por pessoas não-binárias em França como pronome de género neutro. Nos EUA, o conhecido dicionário Merriam-Webster incluiu, em 2019, uma definição singular de género neutro do pronome “they”, que originalmente significava apenas “eles” e “elas”.

Em Portugal, a necessidade de as pessoas encontrarem formas linguísticas mais integradoras também tem levado ao surgimento de novas palavras, que na sua maioria são versões alteradas de palavras já existentes. Um exemplo é a substituição, muito usada entre pessoas não-binárias, das letras “o” e “a” em adjetivos que não são neutros por um arroba (@) ou por um “x” – “bonit@s” e “bonitxs” em vez de “bonitos” e “bonitas”.

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