“Não, senhor primeiro-ministro”, disse-lhe o Parlamento
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Correio do Pantanal

4 set 2019 às 20:07 hs
“Não, senhor primeiro-ministro”, disse-lhe o Parlamento
Boris JohnsonFoto: UK Parliament/Jessica Taylor/REUTERS

Emanuel CarneiroOntem às 23:50

A crise política britânica, provocada pelas indefinições da saída do Reino Unido da União Europeia, conheceu um novo capítulo, com o Parlamento a aprovar um projeto de lei que impede um Brexit sem acordo a 31 de outubro. É mais um item – com 327 votos e 299 contra – na declaração de guerra que os deputados assinaram contra o primeiro-ministro, Boris Johnson, que defende a separação do bloco comunitário a todo o custo. Ainda no capítulo das derrotas, o sucessor de Theresa May (que votou contra a proposta legislativa) também não conseguiu impor as eleições antecipadas com que ameaçou após, anteontem, ter perdido a maioria absoluta parlamentar e ver-se obrigado a aceitar o escrutínio desta quarta-feira.

“O que nos une é a convicção de que não existe um mandato para uma saída sem acordo e que as consequências de um cenário desses para o nosso país e a nossa economia seriam muito pesadas”, afirmou o deputado trabalhista Hilary Benn, autor da proposta.

O atual primeiro-ministro assumiu o cargo em julho, prometendo que o Brexit aconteceria a 31 de outubro quaisquer que fossem as circunstâncias. Com a nova resolução, a saída poderá ser adiada para o próximo ano – 31 de janeiro tem sido uma data apontada com regularidade -, acentuando a incerteza que se respira no Reino Unido.DESPEDIDA “MUITO TRISTE” PARA NETO DE CHURCHILLVER MAIS

O texto agora aprovado estabelece que o Governo britânico tem até 19 de outubro para “fechar” um acordo com Bruxelas e aprová-lo no Parlamento. Caso tal não se verifique, Johnson deverá solicitar aos líderes europeus um adiamento do Brexit por 90 dias.

Para já, falta a aprovação da Câmara dos Lordes e a confirmação da rainha, Isabel II, para a proposta de Benn ganhar força de lei. Prevê-se que isso aconteça até à próxima segunda-feira, véspera da suspensão do Parlamento, imposta por Johnson, no que foi visto como manobra política para impedir medidas parlamentares sobre o Brexit. Ao que parece, não resultou…

Mas, mesmo assim, Johnson ainda ontem assumia que tenciona assinar um novo acordo de saída com a União Europeia na cimeira de líderes de Governo agendada para 17 e 18 de outubro, em Bruxelas, na Bélgica. E teima que o Brexit acontecerá mesmo a 31 do próximo mês.

No entanto, o grupo dos 27 está tudo menos otimista sobre a possibilidade de se atingir um acordo e refere que, até à data, Johnson não apresentou qualquer proposta.

ABSTENÇÃO TRABALHISTA

Mas sugeriu eleições antecipadas, para 15 de outubro, pretensão rejeitada pelo Parlamento. “Não seremos ludibriados por Johnson. Por isso, estamos a estudar todos os procedimentos de forma a evitar que ele não cumpra a nova legislação”, realçou John McDonnell, segunda figura do Partido Trabalhista, principal força da oposição.

O líder, Jeremy Corbyn, foi mais criativo. “A proposta de eleições feita hoje [ontem] é como quando a Rainha Malvada ofereceu uma maçã envenenada à Branca de Neve: o que dá não é nem uma maçã nem uma eleição, mas o veneno de um Brexit sem acordo.”

Durante a discussão da moção de Johnson para eleições antecipadas, Caroline Lucas, deputada dos Verdes, salientou o facto de, a certa altura, o primeiro-ministro ter abandonado a sala: “Nem sequer se dá ao trabalho de ouvir o debate sobre a proposta que ele próprio apresentou para algo tão importante como uma eleição”.

Para antecipar as legislativas, o primeiro-ministro precisava de 434 votos, ou seja, dois terços do Parlamento. Não chegou às três centenas (298). Houve 56 deputados que se deram ao “trabalho” de votar contra a moção de Johnson. Os trabalhistas abstiveram-se, cumprindo a promessa de apenas apoiarem eleições antecipadas quando a proposta de Benn passar a lei.

“Este é o primeiro líder da oposição na história democrática do Reino Unido a rejeitar o convite para uma eleição”, disse o primeiro-ministro, logo após a divulgação dos resultados.

“A conclusão óbvia da decisão de Jeremy Corbyn é que ele acha que não iria ganhar.”

No infortúnio, sobra espaço para o humor. “Isto significa que a oposição tem confiança no Governo de Sua Majestade.”

AGENDA

10 de setembro

Início da suspensão do Parlamento, pedido pelo primeiro-ministro, Boris Johnson, e aceite pela rainha, Isabel II.

14 de setembro a 2 de outubro

Congresso dos principais partidos: Liberal Democrata (14 a 17 deste mês), Trabalhista (21 a 25) e Conservador (29 de setembro a 2 de outubro).

14 de outubro

Discurso da rainha ao Parlamento, com o fim da suspensão dos trabalhos da Câmara.

15 de outubro

Ministros dos Negócios Estrangeiros dos países membros da União Europeia reúnem-se, no Luxemburgo, para discutir o Brexit.

17 e 18 outubro

Líderes de Governo dos países da União Europeia reúnem, em Bruxelas, com Johnson para tratar dos termos da saída do Reino Unido.

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