Sábado de alto risco. Como é que a Austrália se tornou tão vulnerável aos fogos?

Correio do Pantanal

2 jan 2020 às 21:29 hs
Sábado de alto risco. Como é que a Austrália se tornou tão vulnerável aos fogos?

É uma época de incêndios como nunca se viu. Pelo menos 18 pessoas morreram e 1300 casas foram destruídas. Mas o pior pode estar para vir. Com o termómetro a bater recordes neste sábado, há milhares de pessoas em fuga da costa leste

Abraços com uma época anormalmente intensa de incêndios de grandes proporções que já devastaram mais de seis milhões de hectares de floresta, causando pelo menos 18 mortos e 17 desaparecidos, e destruindo cerca de 1300 habitações, a Austrália enfrenta agora mais um fim de semana de alto risco, com a possibilidade de fogos incontroláveis, devido às altas temperaturas, que poderão chegar aos 42 graus Celsius, e aos ventos fortes que são esperados.

Por isso mesmo está em marcha uma evacuação de grandes proporções que abrange dezenas de milhares de pessoas numa faixa de território de 250 quilómetros na costa leste do estado de Nova Gales do Sul. “Saiam antes de sábado”, avisaram as autoridades.

Habituada aos incêndios florestais, a Austrália está, no entanto, a viver uma inusitada época de fogos florestais, pela extrema violência que os tem caracterizado. Afinal, o que está a acontecer? E será já isto um sinal das alterações climáticas? A primeira pergunta tem uma resposta mais fácil – já lá vamos à outra, mas parece certo que elas já andam por aqui.

Subscreva as newsletters Diário de Notícias e receba as informações em primeira mão.SUBSCREVER

“A principal causa do que está a acontecer tem que ver com a seca extrema do território, que dura pelo menos desde março deste ano”, afirma ao DN o investigador australiano Owen Price, do Centro de Gestão e Risco Ambiental da Universidade de Wollongong, no estado de Nova Gales do Sul.

A seca, explica o especialista, “determina que os teores de humidade na vegetação e nos solos andem nos valores mínimos e, por outro lado, como as barreiras naturais à expansão das chamas não existem, porque os rios estão secos, os incêndios acabam por atingir grandes proporções”.

As altas temperaturas, que em dezembro bateram por duas vezes o recorde para a média da máxima no país, ultrapassando os 41 graus Celsius, e o vento, que tem soprado forte – a própria violência dos fogos desencadeia ventos fortes localizados -, também têm favorecido a propagação das chamas e estão a alimentar os grandes incêndios

“Já tivemos no passado outros fogos de grandes proporções, como o de 2009, em que num só dia morreram 173 pessoas e mais três mil casas foram destruídas, mas os deste ano têm duas características particulares: têm sido mais intensos e já duram há mais tempo”, sublinha Owen Price.

Essa é exatamente uma das “características anómalas” desta época de incêndios na Austrália, nota por seu turno José Cardoso Pereira, professor e investigador do Instituto Superior de Agronomia e especialista em cartografia e risco de incêndio, que tem colaborado com Owen Price no estudo dos fogos florestais australianos, e que está a seguir atentamente a situação. “O verão só agora se iniciou no hemisfério sul, mas os incêndios já começaram pelo menos no início de novembro, na primavera”, e isso, nota o investigador, faz antever um verão especialmente difícil. Ou seja, o pior ainda pode estar para vir. E existe a possibilidade de isso acontecer já neste sábado.

“A maior evacuação de sempre”

A prever a possibilidade de uma catástrofe, as autoridades ordenaram a evacuação de uma extensa região costeira de 250 quilómetros no estado de Nova Gales do Sul, entre a cidade de Batemans Bay, a norte, e a fronteira com o estado de Victoria, a sul, que abrange algumas dezenas de milhares de pessoas, entre residentes e veraneantes.

A operação, no entanto, não está a ser fácil. Os incêndios que persistem na região e obrigam a cortar estradas por questões de segurança, e o fumo espesso que se propaga a centenas de quilómetros de distância, com riscos para a saúde das populações, não ajuda.

“Esta é a maior evacuação de sempre na região”, comentou o ministro dos Transportes de Nova Gales do Sul, Andrew Constance, na mesma altura em que milhares de pessoas se puseram em marcha nos seus veículos para abandonar a região.

Sábado de alto risco. Como é que a Austrália se tornou tão vulnerável aos fogos?

A fuga em massa, porém, não está a ser fácil devido à escassez de combustível, ao elevado número de carros que se dirigem na mesma direção e também ao facto de algumas estradas estarem cortadas, restando as principais vias que conduzem a Camberra e a Sydney, onde o trânsito tem estado bloqueado, com longas filas a estenderem-se por vários quilómetros.

Em Batemans Bay, as notícias dão ainda conta de longas filas junto dos postos de abastecimento, onde o combustível praticamente se esgotou, e que têm estado a ser reabastecidos por camiões-cisterna.

Já em Mallacoota, uma pequena cidade do sul, na fronteira com o estado de Victoria, mais de quatro mil pessoas ficaram isoladas e tiveram de ser abastecidas de água, alimentos e medicamentos por helicóptero. A sua retirada por mar, num navio da marinha australiana, estava a ser preparada para esta sexta-feira.

Um verão anormalmente quente e seco

Os fogos são parte do ciclo natural das florestas na Austrália. Nos meses de verão, entre dezembro e março, nomeadamente nos estados agora mais atingidos, como Nova Gales do Sul e Victoria, que têm um clima mediterrânico, as florestas de espécies autóctones, que incluem os eucaliptos, as acácias e muitas outras que só existem por lá, são frequentemente atingidas pelo fogo e, por isso, estão hoje bem adaptadas a ele, moldadas por séculos desse regime anual.

Este ano, porém, está a ser diferente, algo que o governo australiano tardou em perceber. Isso está aliás a ter custos políticos para o primeiro-ministro Scott Morrison, que em plena crise dos incêndios foi de férias para o Havai e só no segundo dia do ano, já com vítimas mortais contabilizadas, surgiu em público a falar ao país.

O chefe do governo australiano teve, aliás, de interromper uma visita à cidade de Cobargo, na Nova Gales do Sul, onde duas pessoas morreram no início desta semana, e onde foi recebido com revolta. “Não é bem-vindo”, ouviu dos seus habitantes.

Também não ajuda a sua política que recentemente o governo tenha renovado o apoio à lucrativa e altamente poluente indústria de carvão australiana. Scott Morrison tem, por isso, sido muito criticado, numa altura em que se discute se estes incêndios já poderão ser uma consequência das alterações climáticas.

Sobre isso, o investigador da universidade australiana de Wollongong, Owen Price, não tem dúvidas: “Com certeza”, diz. “A temperatura média da Austrália é hoje um grau superior ao que era há 50 anos, as secas estão mais intensas e, neste contexto, as épocas de incêndios estendem-se e intensificam-se, como preveem os modelos.” E está bem acompanhado por muitos outros que veem nesta problemática época de incêndios na Austrália uma preocupante antevisão do mundo mais quente do futuro.

José Cardoso Pereira é também um deles.”Uma situação única não chega para falar de alterações climáticas, mas sabemos que à medida que a temperatura aumenta, as secas e as ondas de calor tornam-se mais intensas, tal como está a acontecer.”

E neste ano, além da seca, das altas temperaturas e do início muito precoce da época de incêndios, há uma outra novidade que é a de terem ardido também extensas áreas de floresta tropical e subtropical no estado mais a norte de Queensland e no de Victoria. Esse tipo de floresta, que se caracteriza por uma grande biodiversidade, não está tão adaptado ao fogo e por isso “é possível que tenha dificuldade em recuperar”, estima por seu lado Owen Price. “Esse é um estudo que estou interessado em fazer depois desta época de incêndios”, adianta.

Até lá, porém, ainda há os meses de verão pela frente: janeiro, fevereiro e parte de março, que se adivinham difíceis, a julgar pela primavera e início de verão com temperaturas acima do normal para época, e com um rasto de incêndios que está a ser devastador. A esperança agora é que venha a chuva. “Os serviços meteorológicos estimam que possa haver condições favoráveis dentro de duas semanas, nas na verdade, ninguém sabe”, conclui Owen Price.

ATENÇÃO: Comente com responsabilidade, os comentários não representam a opnião do Jornal Correio do Pantanal. Comentários ofensivos e que não tenham relação com a notícia, poderão ser retirados sem prévia notificação.

%d blogueiros gostam disto: