‘Fui traído e entregue à Stasi pelo meu próprio irmão’
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Correio do Pantanal

13 fev 2021 às 20:37 hs
‘Fui traído e entregue à Stasi pelo meu próprio irmão’

31 janeiro 2021Atualizado 1 fevereiro 2021

Peter Keup (à direita) e seu irmão mais velho, Ulrich, quando crianças
Legenda da foto,Peter Keup (à direita) e seu irmão mais velho, Ulrich, quando crianças

A família de Peter Keup foi profundamente marcada pela divisão da Alemanha após a Segunda Guerra Mundial.

Criado na comunista Alemanha Oriental, ele sofreu sanções quando sua família aplicou para um visto de saída — não só foi expulso da escola, como também do clube onde praticava esportes.

Mais tarde, acabou preso pela Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental, ao tentar atravessar ilegalmente a fronteira.

Mas o grande golpe viria décadas depois, quando ele descobriu que havia sido traído pelo próprio irmão, que entregou informações suas e da família à Stasi.ADVERTISEMENThttps://c0405f74ad39c240b3d3583063dfc8c7.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Línea

Peter Keup cresceu na década de 1960 na comunista República Democrática Alemã (RDA), a chamada Alemanha Oriental, um dos muitos estados-satélite da União Soviética durante a Guerra Fria.

Assim como a Alemanha havia sido dividida após a Segunda Guerra Mundial, sua família também estava fragmentada política e geograficamente.

Seu pai era comunista, mas sua mãe sonhava em voltar a viver na capitalista República Federal da Alemanha (RFA), a Alemanha Ocidental, onde os dois haviam se conhecido e se casado.

Era lá onde seus avós moravam e onde seu irmão mais velho, Ulrich, passou os primeiros anos de vida, enquanto seus pais se estabeleciam no leste. Quando chegou a hora de ir para a escola, no entanto, Ulrich se juntou ao resto da família.

“Eu tinha três anos nessa época. E o conheci quando ele tinha sete anos. Nunca havíamos nos visto antes ou tivemos um relacionamento próximo. Então, para mim, ele sempre foi como um estranho”, diz Peter.

“E isso não mudou depois de um tempo. Na verdade, até ele morrer, ele foi uma pessoa com quem eu não tinha muita intimidade.”

Foi nessa época também, em 13 de agosto de 1961, que o Muro de Berlim foi erguido, uma barreira de concreto que dividiu não só a capital alemã, mas duas ideologias antagônicas por quase 30 anos.

As autoridades comunistas determinaram a construção do muro para impedir a fuga de pessoas do leste para o oeste. Estima-se que de 1949 a 1961, mais de 2,5 milhões tenham escapado em busca de uma vida nova.

Uma vida que Peter só conhecia de relance por causa das visitas dos avós.

“Percebi que eles vinham de outro mundo. Quando abriam as malas, saía um cheiro muito especial, um cheiro muito gostoso, muito marcante, uma mistura de sabonete, café, chocolate, cacau, água de colônia, aromas que não existiam no leste”, relembra.

“Eles traziam também roupas, como jeans, camisetas… coisas que não víamos na Alemanha Oriental, que não tinham nas lojas.”

“Era sempre muito bom e muito especial.”

Quando ele tinha 16 anos, seus pais decidiram então ir em busca dessa nova vida — e solicitaram um visto de saída da Alemanha Oriental.

“Fiquei muito animado, me inscrevi com a convicção de que daria certo, eu queria muito. Meu irmão estava casado naquela época, e morava com a esposa em outro lugar, então o pedido era apenas para meus pais, minha irmã e eu”, recorda.

Represália

Mas as coisas não saíram como Peter esperava. Algumas semanas após darem entrada no visto, ele teve uma surpresa ao chegar na escola.

“Eu cheguei na sala de aula um dia, e a professora disse que sabia que eu e minha família queríamos sair do país e nos chamou de traidores. Ela falou: ‘Vocês não apreciam nosso sistema, não sabem o que está acontecendo em nosso país, são traidores. Você precisa deixar a escola’.”

“Fiquei muito chocado, e a reação dela foi dizer que poderia me ajudar se eu recusasse a ideia dos meus pais de ir embora, que ela poderia fazer com que eu fosse criado por outra família”, revela.

Peter recusou a proposta e foi expulso da escola. Mas não parou por aí. Ele também foi proibido de praticar atletismo, sua paixão, uma vez que os clubes esportivos também eram financiados pelo Estado. Os amigos se distanciaram dele. E as únicas carreiras que teria como opção seriam em fábricas ou na construção civil — não exatamente o que ele sonhava.

Dança de salão, nova paixão

Ele começou então a ter aula de dança de salão, uma atividade praticada em clubes privados, sem a ingerência do Estado.

“O que eu realmente gostava nessa época era que ninguém pedia minha opinião política, não éramos traidores, não éramos inimigos ou seja lá o que for.”

“Era outro mundo, muito além do mundo na Alemanha Oriental, baseado em medidas restritivas e fronteiras em todos os lugares, sem permissão para fazer isso e aquilo. Dançar era outra coisa”, diz ele.

Peter e a irmã em torneio de dança de salão
Legenda da foto,Peter e a irmã chegaram a competir internacionalmente

“Com a música e cercado de pessoas bacanas, eu me sentia livre. Toda vez que eu ia lá para praticar, era sempre como uma fuga. Depois de um tempo, eu estava meio viciado em fazer isso.”

Seu estilo favorito era samba. E, em dupla com a irmã, ele começou a ganhar vários torneios de dança.

“Acho que eu era aquele que praticava muito, e minha irmã era a única de fato talentosa. Ela era ótima, e essa mistura nos fez vitoriosos.”

“Participamos do campeonato de dança de salão da Alemanha Oriental, em danças latinas, e acabamos em terceiro lugar, o que foi um grande sucesso”, afirma.

O resultado abriu as portas para competirem internacionalmente — mas o fantasma da solicitação do visto de saída ainda pairava sobre eles.

“Depois da cerimônia de premiação, vieram falar com a gente que agora éramos membros da seleção nacional, que poderíamos representar a Alemanha Oriental internacionalmente. Mas, claro, teríamos que retirar o pedido de visto de saída. Do contrário, não nos permitiriam seguir em frente. Houve uma pressão”, recorda Peter.

“Então eu respondi assim: ‘Vamos pensar’. E sempre que voltávamos para casa após algum torneio, eles nos perguntavam: ‘E o pedido de visto de saída? Você está disposto a desistir ou não?’ E sempre ameaçavam: ‘Da próxima vez, vamos impedir vocês de dançar.'”

Eles nunca chegaram a cumprir a ameaça, mas Peter já estava decidido a fugir.

“Decidi fugir de qualquer maneira. Era muita pressão. Minha decisão estava clara, eu tinha que ir embora.”

O plano de fuga

A ideia de sair ilegalmente do país e se tornar um desertor da Alemanha Oriental era um plano arriscado —e potencialmente mortal. Peter contou apenas à mãe e à namorada — que, para sua surpresa, se ofereceu para ir junto com ele.

“Definitivamente, não, eu falei. É muito perigoso. E não quero ser responsável por outra pessoa quando tento atravessar a fronteira.”

“Ela veio então com a ideia da gente se casar, e quando eu chegasse no oeste, ela poderia solicitar o reagrupamento familiar (basicamente um visto, que permitiria a ela, como esposa, se juntar ao marido na Alemanha Ocidental).”

Peter concordou, e os dois se casaram em abril de 1981.

Poucos dias antes da data planejada para a fuga, ela anunciou que estava grávida. Mas a gestação não atrapalhou os planos do casal, que decidiu seguir adiante.

“O plano era pegar um trem para a Tchecoslováquia, que era um país que podíamos visitar sem visto, apenas com a carteira de identidade e a passagem de trem, por assim dizer. Em seguida, eu atravessaria a fronteira húngara legalmente e desceria para o sul da Hungria”, conta.

“Parte da fronteira entre a Hungria e a Áustria é cortada pelo Rio Danúbio, e a ideia era atravessar a nado. Do outro lado, estaria a Áustria, um país ocidental livre.”

A prisão

Mas a jornada não foi como ele esperava.

“Digamos que foi muito mais curta do que eu planejei” , diz ele.

Quando o trem parou no posto de controle da fronteira da Alemanha Oriental, um fiscal entrou no trem conferindo as passagens e os documentos de identidade dos passageiros.

“Não me lembro se esse cara perguntou para todo mundo, mas pelo menos para mim, ele falou: ‘Por favor, me mostre sua passagem de volta’. E eu não tinha. Tentei explicar, mas ele chamou a polícia.”

“A polícia entrou no trem perguntando o que eu queria fazer na Tchecoslováquia sem a passagem de volta, onde ia ficar, quem eu via visitar… Dei alguns nomes, mas depois eles pediram o endereço, e não consegui responder direito…”

A Polícia Militar foi então acionada — e Peter acabou sendo revistado.

“Eles me forçaram a tirar a roupa. E encontraram dinheiro, moeda ocidental, bússola, binóculo e outras coisas”, enumera.

Ele foi levado para fora do trem, onde foi interrogado por diferentes pessoas durante horas. E, apesar de não ter admitido que pretendia deixar o país ilegalmente, acabou indo parar atrás das grades.

Ele foi condenado a 10 meses de prisão, e chegou a passar três meses na solitária.

“Foi muito assustador, eu achei. Ninguém com quem conversar. Nenhuma informação. Nenhum contato com a minha família. Nenhum contato nem com os outros presos”, descreve.

E, enquanto ele estava na prisão, seu filho nasceu.

“Eles fizeram com que eu não recebesse a notícia. Estranhamente, não recebi nenhuma carta. Eu soube que ele tinha nascido quando já estava com dois meses.”

O ‘resgate’

O que Peter não sabia é que, desde que havia sido detido, seus avós estavam empenhados em libertá-lo por meio de um esquema clandestino armado pelo governo da Alemanha Ocidental, conhecido como programa de compra de liberdade.

Peter Keup
Legenda da foto,Peter diz que se sentiu como um ‘recém-nascido’ quando finalmente chegou à Alemanha Ocidental

Na prática, o governo da Alemanha Ocidental pagava pelo resgate de prisioneiros da Alemanha Oriental que haviam tentado escapar do país. Nunca se falou abertamente sobre o programa — que tampouco foi reconhecido por qualquer um dos lados.

“Recebi um pedaço de papel, que tinha meu nome escrito e constava apátrida. Alguns dias depois, eu tive que sair da cela, vestir novamente minhas roupas de civil e me juntar a um grupo. Todos tínhamos esse papel, todos éramos apátridas, cerca de 25 pessoas, homens, mulheres, jovens, idosos”, relembra.

“Nos guiaram até uma praça dentro da penitenciária, onde havia um ônibus à nossa espera. Um homem entrou nesse ônibus, se apresentou como nosso advogado e disse que o ônibus nos levaria para a Alemanha Ocidental.”

Peter estava prestes, finalmente, a alcançar seu objetivo.

“Mas ninguém falou nada. Ficamos todos quietos, duvidando que isso aconteceria. O ônibus saiu da prisão, pegou a rodovia em direção a oeste e depois de um tempo parou, e o motorista anunciou: ‘Senhoras e senhores, bem-vindos à Alemanha Ocidental’.”

“Foi tão fácil. O ônibus cruzou a cortina de ferro em segundos. Em pensar que tantas pessoas morreram nessa fronteira. Foi simplesmente incrível e inacreditável.”

Peter foi direto para a casa dos avós, e conta que se sentiu “como um recém-nascido”.

“Como adulto, eu poderia começar uma vida completamente nova no lugar onde queria estar. E essa sensação é tão maravilhosa, tão bonita.”

A liberdade

Logo depois, sua esposa e o filho, que ele ainda não conhecia, puderam se juntar a ele na Alemanha Ocidental.

“Foi incrível, claro. Eu já tinha visto fotos dele. Mas conhecê-lo pessoalmente foi simplesmente lindo. Ele já estava com dez meses”, recorda.

Peter conta que, como refugiado da Alemanha Oriental, ele imediatamente se tornou cidadão da Alemanha Ocidental, com todos os direitos garantidos. E decidiu dar aula de dança de salão.

A adaptação não foi um problema para ele, que logo conheceu outros membros da família e fez novos amigos. Foi lá, inclusive, que alguns anos depois ele se sentiu à vontade para assumir a homossexualidade.

Não demorou muito para o resto da sua família chegar — seus pais, sua irmã mais nova e, mais tarde, seu irmão mais velho, Ulrich.

Perdas

Mas a alegria dele não durou muito tempo.

“Meus pais e minha irmã se mudaram em 1984, e meu irmão na véspera do Natal de 1985. E meu pai cometeu suicídio dois anos depois. Foi um choque porque eu não consegui ver que iria acabar assim.”

Ele acredita que o pai não conseguiu se adaptar à mudança:

“Na Alemanha Oriental, ele era bem-sucedido, mas depois, na Alemanha Ocidental, com quase 60 anos, ele não conseguiu emprego. Ele realmente enfrentou dificuldades no sistema capitalista”, avalia.

Pouco depois dele ter tirado a própria vida, em 9 de novembro de 1989, aconteceu a queda do Muro de Berlim, abrindo caminho para o processo de reunificação da Alemanha.

E três anos após a reunificação, seu irmão Ulrich morreu vítima de um aneurisma cerebral.

A descoberta da traição

Vinte anos depois, nos anos 2010, Peter decidiu pedir acesso aos arquivos da Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental, sobre sua família. E, para sua surpresa, havia mais de 2 mil páginas sobre seu irmão.

“Recebi o arquivo do meu irmão, e então encontrei a página onde ele se alistou para ser espião da Stasi”, revela.

“Parecia um terremoto. Tudo estava se movendo. Eu tive que me apoiar na mesa. Era inimaginável.”

De acordo com os documentos, Ulrich se alistou em 1983, um ano depois de Peter ter deixado a Alemanha Oriental.

“Ele tinha que espionar meus pais, para ver se eles estavam pensando em tomar medidas ilegais para pressionar as autoridades a deixá-los sair; e a mim também, se eu estava na Alemanha Ocidental agindo contra a Alemanha Oriental.”

Ficha de Peter Keup na Stasi
Legenda da foto,Ficha de Peter Keup na Stasi

“Mas não consegui descobrir se ele tinha de fato dado informações”, acrescenta.

No entanto, em 2019, Peter teve acesso a novos documentos sobre o irmão — e a novas revelações.

“Uma página era sobre o relatório que meu irmão fez de um encontro entre eu, minha mãe e minha irmã, quando elas ainda moravam na Alemanha Oriental, e nos encontramos em Praga. E meu irmão informou à Stasi que trens pegaríamos, onde nos encontraríamos e os detalhes desse encontro.”

Ao deixar a Tchecoslováquia, Peter lembra que passou por uma revista rigorosa.

“Tive até que tirar minhas roupas de novo, todo aquele alvoroço que eu tinha muito medo que acontecesse.”

“E isso aconteceu porque meu irmão deu as informações para a Stasi.”

Descobrir tantos anos depois que havia sido traído pelo irmão foi um duro golpe para Peter. E até hoje ele tem muitas perguntas sem respostas.

“Eu daria tudo para encontrá-lo novamente, para perguntar a ele, para encorajá-lo a ser mais aberto e me dizer por que ele fez isso.”

“Eu queria ter uma explicação.”

Ele acredita, no entanto, que talvez seu irmão tenha sido pressionado pela Stasi.

“Eu sei que a Stasi exercia uma pressão tremenda sobre as pessoas, era assim que a Stasi conseguia seus espiões. E talvez seja isso que aconteceu, meu irmão simplesmente sucumbiu por causa desta tremenda pressão.”

Peter tentou compartilhar as descobertas com a mãe e a irmã, mas ambas se recusaram a ouvir.

Novos rumos

A descoberta da traição do irmão foi responsável, no entanto, por uma mudança de rumo na sua vida.

Peter Keup
Legenda da foto,Peter hoje é historiador e pesquisador

“Eu dirigia uma escola de dança nessa época, abri minha própria escola de dança em 1989, mas quando descobri que meu irmão era um espião, demorei um pouco até conseguir enxergar as coisas claramente de novo.”

“Vi que a minha história de família estava muito conectada à história da Alemanha. Entender minha situação familiar, minha história de família, provavelmente só seria possível se eu entendesse o todo: a divisão da Alemanha e o que aconteceu na Guerra Fria.”

Peter decidiu então cursar História da Alemanha na universidade. E acabou se tornando historiador e pesquisador.

“Fiz graduação, mestrado e, nesse meio tempo, decidi vender a minha escola de dança e começar uma vida completamente nova.”

Ao pesquisar sobre o que aconteceu na República Democrática Alemã, Peter passou a ver a história da sua família sob outra perspectiva.

“Nosso caso é, na verdade, um caso bem modesto. Ninguém morre, ninguém acaba preso por anos, nenhuma criança é entregue a outra família. E isso aconteceu com outras pessoas.”

“Descobrir o que realmente aconteceu na República Democrática Alemã, me faz sentir que tivemos até sorte porque as piores coisas não aconteceram com a gente”, avalia.

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