65 mil nerds invadem Las Vegas para ‘Lollapalooza’ tecnológico

Correio do Pantanal

11 dez 2019 às 09:09 hs
65 mil nerds invadem Las Vegas para ‘Lollapalooza’ tecnológico

NOTICIAS AO MINUTO

© Divulgação / AWS

LAS VEGAS, EUA (FOLHAPRES) – São 7h da manhã em Las Vegas. Uma DJ começa a tocar e a dançar com toda a energia em frente a um público de milhares de pessoas sem empolgação. Quarenta e cinco minutos mais tarde, um homem careca de meia idade assume os pickups. O público continua apático, sentado.

De repente, aplausos e alvoroço, ao ser anunciada a estrela da festa: Andy Jassy. Desconhecido da maioria dos mortais, ele seria um headliner do festival musical, espécie de Strokes da tecnologia. Jassy é executivo-chefe da AWS, uma empresa de computação de nuvem, interrompido por palmas a cada anúncio que faz. 

Essa foi uma manhã do re:Invent, evento sobre computação que chega à oitava edição em 2019. A AWS, responsável pelo evento, pertence à Amazon, que briga com Apple, Google e Microsoft pelo posto de mais valiosa do planeta.

Por uma semana (entre 1º e 5 de dezembro), mais de 65 mil tecnologistas do mundo ocuparam seis hotéis em Las Vegas numa espécie de “Lollapalooza nerd”, mantendo com os palestrantes essa relação de ídolo em um show.

Erra, no entanto, quem pensa na imagem daquele nerd acanhado, comum nas últimas décadas. Esse grupo, hoje, aparece muito mais confortável na situação de poder: vivem em hordas e alternam seriedade, brincadeiras e bizarrices no ambiente de trabalho (e de convenções).

Na prática, isso significa ver pessoas sentadas no chão trabalhando, participando de treinamentos, provas, reuniões de negócios e palestras. Lembra o DJ careca do início? Era David Solomon, executivo-chefe do Goldman Sachs, para falar de soluções em nuvem. Junto de tudo isso, pebolim, campeonatos de quem come mais frango, música ao vivo, meias maratonas -e, claro, jogatina e bebedeira. 

Nem sempre o que acontece parece fazer muito sentido -para um evento de tecnologia, ao menos. Em dado momento, aparecem duas pessoas com trajes de led junto a outras vestidas de dinossauro, hipopótamo e gorila dançando de forma desengonçada com batuques altos. 

Parte desse lado mais leve, no entanto, tem propósitos além do entretenimento. Ao colocar visitantes para disputar air hockey (aquele jogo em que as pessoas batem um disco de um lado para o outro de uma mesa tentando marcar gols) contra um robô, pesquisadores conseguem demonstrar sistemas de inteligência artificial, por exemplo.

Noutro espaço, em um hotel a cerca de 2 km dali, 700 pessoas participam de uma maratona de programação. Nela, grupos de quatro ou cinco membros são desafiados a manter em funcionamento uma loja online fictícia durante uma espécie de black friday. 

Algo que surgiu como uma brincadeira na edição do ano passado virou campeonato mundial: o DeepRacer. Carros autônomos de escala 1:18 (mais ou menos o tamanho de uma bola de futebol) são colocados para correr por pistas usando sistemas de inteligência artificial.

Ela foi criada para ensinar técnicas de “reinforcement learning”, tipo de inteligência artificial que ensina robôs com uma lógica parecida com a usada para adestrar animais: dar prêmios quando ele faz algo certo, punir quando faz algo errado (o triste aqui é que isso tudo é feito com programação, ninguém dá um biscoito para o robô). A grande final do DeepRacer foi no re:Invent, aliás. 

O evento acaba na re:Play. A festa, com comida e bebida liberadas, ocupa dois galpões com rock e eletrônica. Nos espaços que parecem mais infantis, um galpão com videogames, brinquedos infláveis e grupos jogando algo que lembra hóquei, mas com vassouras em vez de tacos.

Do lado de fora, partidas de queimada embaladas pelo som de tambores japoneses, e a uma exibição de drones luminosos que fazem movimentos para imitar fogos de artifício e exibir mensagens promovendo mais mulheres na tecnologia.

O novo trabalho Apesar do dinheiro de sobra e do clima de festa, há uma tensão permanente das empresas: falta de trabalhadores no setor. A Folha acompanhou o evento durante os seus quatro dias e falou com diversos participantes. 

Nessas conversas, a maioria sob condição de anonimato, foi constatado o desespero por profissionais. Ao ouvirem que o repórter tinha alguma familiaridade com programação, o assunto logo ia para as vagas disponíveis nas respectivas equipes, vantagens oferecidas.

Pesquisa da Snaplogic divulgada no início do ano mostra que 51% das empresas com mais de mil funcionários nos EUA e no Reino Unido apontam a falta de mão de obra como o principal desafio para evoluir em inteligência artificial, uma de muitas áreas da tecnologia com falta de gente especializada.

Outro ponto de tensão estava ligado a uma diferença geracional. Os mais velhos reclamam de falta de profissionalismo dos mais jovens. Já os mais novos, relataram como valorizam o bem-estar no trabalho, o apreço pela diversão enquanto produzem. 

E a contar pelo clima do evento, pode-se concluir quem é o foco dessa poderosa nova indústria.

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