Lula diz em livro que está “preparado para ser preso”

Correio do Pantanal

16 mar 2018 às 08:02 hs
Lula diz em livro que está “preparado para ser preso”

Presidente entre 2003 e 2010, Lula da Silva é o candidato do PT às presidenciais de outubro

  |  REUTERS/CRISTIANE MATTOS

A Verdade Vencerá – o Povo Sabe Por Que Me Condenam é lançado hoje no Brasil. Na obra, o antigo presidente recusa refugiar-se em embaixadas e critica Dilma Rousseff.

Às vésperas do fim de uma guerra jurídica que se prevê perdida para Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Brasil de 2003 a 2010 lança um livro onde se declara “pronto para ser preso”. A obra, com o título A Verdade Vencerá e o pós-título O Povo Sabe Por Que Me Condenam é lançado hoje à noite e serve como testemunho político do pré-candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) à presidência nas próximas eleições de outubro.

“Estou preparado para ser preso. O que eu não estou é preparado para a resistência armada, nem tenho mais idade. Como sou um democrata, nem aprender a atirar eu aprendi”, diz Lula num livro com tiragem inicial de 30 mil exemplares da editora Boitempo e 216 páginas, das quais 124 são o produto de entrevistas ao político ao longo do mês de fevereiro, feitas pelos jornalistas Juca Kfouri e Maria Inês Nassif, pelo professor de relações internacionais Gilberto Maringoni e pela editora Ivana Jinkings.

“Como eu preparo o espírito para isso? Eu não preparo o espírito, eu sou um homem de espírito leve, tudo isso faz parte da história (…) Há duas instâncias superiores a que a gente pode recorrer e vai recorrer. Eles vão tomar a decisão e eu estou pronto para ser preso. É decisão deles”, diz noutro trecho. Ainda sobre o mesmo tema, transforma os seus julgadores em réus: “O preço que vai ser pago historicamente é a mentira contada agora, eles querem prender? Prendam, paguem o preço.”

Questionado sobre a possibilidade de fuga, por um lado, ou de exílio numa embaixada amiga, por outro, Lula recusa os cenários. “Conheço companheiros que ficaram 15 anos exilados e não tiveram voz aqui no Brasil.” Para o jornalista do jornal O Estado de S. Paulo, que divulgou trechos da obra, Lula baseia-se no discurso de 1953 do líder da revolução cubana Fidel Castro “A História Me Absolverá”, proferido diante do tribunal que o julgou após o ataque fracassado ao quartel Moncada, três anos antes de derrubar o regime de Fulgêncio Batista.

Além da sua situação atual, Lula conta histórias de eleições antigas e dos adversários Leonel Brizzola ou Mário Covas, evita defender o seu antigo número dois José Dirceu e, embora chame Michel Temer de “traidor”, admite que perante a iminência de um impeachment no ano passado o atual presidente soube resistir melhor do que a sua correligionária e afilhada política Dilma Rousseff.

As críticas a Dilma são, aliás, uma das partes mais surpreendentes do livro: “Antes da campanha [de 2010] o [publicitário do PT] João Santana queria que eu dissesse à Dilma que ela seria uma candidata-tampão e eu recusei”, lembra Lula. Mais tarde, desabafa o antigo metalúrgico, Santana tentou afastá-la do antecessor e padrinho.

Noutro ponto, já sobre a campanha de 2014, regista a tristeza da ex-presidente após a vitória eleitoral sobre Aécio Neves: “Era a primeira vez que via uma pessoa ganhar triste, inquieta. A sensação que tive foi de que ela não tinha gostado de ganhar.” Nos últimos meses do governo Dilma, conta Lula que ouviu muitas queixas dos ministros. “Em todas as conversas que eu mantinha, as pessoas se queixavam 100% dele [do braço-direito da presidente Aloizio Mercadante] e 101% da Dilma, cheguei ao ponto de dizer para a Dilma “olha, você vai passar à história como a única presidente que nem os ministros defenderam”.”

Num tom mais pessoal, Lula recusa ter problemas com a bebida, uma teoria que chegou a ser matéria de um artigo do The New York Times durante o seu mandato. “Duvido que um jornalista tenha me visto bêbado. A última vez que bebi para valer foi para ver Brasil e Holanda na Copa de 1974. A gente ficou guardando a bebida para depois da vitória mas tomamos de dois a zero. Ficamos bebendo e xingando os jogadores.”

Além das entrevistas, o livro contém textos dos escritores Luiz Fernando Veríssimo e Eric Nepomuceno e do historiador Luiz Felipe de Alencastro, entre outros. O jornalista Camilo Vannuchi assina uma cronologia do ex-sindicalista e dois cadernos são compostos por fotografias de vida de Lula.

São Paulo

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