Curdos anunciam aliança com a Síria para enfrentar ataques da Turquia

Correio do Pantanal

13 out 2019 às 19:36 hs
Curdos anunciam aliança com a Síria para enfrentar ataques da Turquia

Curdos anunciam aliança com a Síria para enfrentar ataques da Turquia

Turcos começaram a bombardear forças curdas no norte da Síria depois que os EUA decidiram retirar suas tropas da região.

Por G1

Lideranças curdas anunciaram neste domingo (13) um acordo com o governo sírio para somar forças e fazer frente aos ataques iniciados na última semana pela Turquia no norte da Síria.

“Para prevenir e enfrentar a agressão turca e impedir que prossiga, chegamos a um acordo com o governo sírio para que o exército se desloque ao longo da fronteira sírio-turca”, informaram os curdos em um comunicado.

O que acontece na região:

  • no dia 7, o presidente dos EUA, Donald Trump, mandou as tropas americanas saírem do norte da Síria, onde está a fronteira com a Turquia;
  • essa é uma das áreas onde vivem os curdos, um povo de cerca de 35 milhões de pessoas que não tem um país e se espalha por partes da Síria, do Irã, do Iraque e da Turquia;
  • os curdos querem formar uma nação independente, mas enfrentam a resistência dos governos da região;
  • nos últimos 6 anos, milícias formadas por curdos foram as principais aliadas dos EUA na luta para derrotar os terroristas do Estado Islâmico;
  • por outro lado, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, acusa os curdos que vivem na Síria de terrorismo. Segundo ele, esses grupos estariam por trás de ataques ocorridos na Turquia;
  • a saída das tropas americanas do norte da Síria abriu caminho para Erdogan atacar os curdos, e a ofensiva começou na última quarta (9);
  • o presidente turco alega que quer controlar militarmente aquela região para poder repatriar os milhares de sírios que fugiram para a Turquia por causa da guerra civil em seu país;
  • sem a proteção militar dos EUA, cerca de 2 milhões de curdos na Síria ficaram expostos;
  • a “traição” de Trump foi criticada até mesmo por aliados nos EUA, que temem que a instabilidade provocada por um novo confronto na Síria fortaleça o Estado Islâmico;
  • outro risco apontado por esses críticos é a possível aproximação dos curdos com os governos da Síria e da Rússia, adversários dos americanos.
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O acordo também prevê a libertação de outras cidades sírias ocupadas pelo exército turco, como Afrin, que está ocupada desde o ano passado.

A incursão, iniciada depois que Trump retirou tropas norte-americanas que vinham lutando ao lado de forças curdas contra militantes do Estado Islâmico, abriu uma nova frente na guerra civil síria de oito anos e atraiu grande repúdio internacional.

Neste domingo, o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH) informou que 10 pessoas que estavam em um comboio que transportava civis e jornalistas morreram no norte da Síria.

Ao todo, 26 civis morreram na região apenas neste domingo (13), quinto dia de ofensiva militar da Turquia contra as forças curdas na região.

Fumaça é vista na cidade síria de Tel Abyad, que fica na fronteira com Turquia, neste domingo (13)  — Foto: Lefteris Pitarakis/ AP

Fumaça é vista na cidade síria de Tel Abyad, que fica na fronteira com Turquia, neste domingo (13) — Foto: Lefteris Pitarakis/ AP

Fuga de pessoas ligadas ao Estado Islâmico

Autoridades curdas informaram que centenas de estrangeiros ligados ao Estado Islâmico fugiram do campo de refugiados de Ain Issa, que abriga cerca de 12 mil deslocados por causa do conflito. Entre eles, estão cerca de mil estrangeiros, como mulheres e crianças, com conexão com o grupo terrorista.

O número exato de fugitivos ainda não está claro: um grupo que monitora o conflito fala em 100, mas autoridades curdas dizem que esse número pode chegar a 800.

Preocupação europeia

O destino dos extremistas islâmicos que atualmente estão presos na Síria preocupa a comunidade internacional. Antes mesmo do início da ofensiva turca, as Forças Democráticas da Síria (FDS), integradas às principais milícias curdas da Síria, já tinham deixado claro que teriam que concentrar suas forças em se defender.

Tanque da Turquia perto da fronteira com a Síria, no dia 11 de outubro de 2019 — Foto: Murad Sezer/Reuters

Tanque da Turquia perto da fronteira com a Síria, no dia 11 de outubro de 2019 — Foto: Murad Sezer/Reuters

Neste domingo, a França manifestou sua “preocupação” depois que os familiares de extremistas fugiram do acampamento de refugiados e pediu à Turquia o fim de sua intervenção militar.

“Evidentemente, estamos preocupados com o que possa acontecer. É por isso que desejamos que a Turquia acabe o mais rápido possível com sua intervenção” militar no norte da Síria, declarou o porta-voz do governo, Sibeth Ndiaye, em entrevista à televisão pública francesa.

A chanceler alemã, Angela Merkel, também pediu ao presidente turco que pare “imediatamente” a ofensiva, advertindo que ela pode favorecer “a desestabilização da região e um ressurgimento do Estado Islâmico”.

130 mil pessoas em fuga

Mais de 130 mil pessoas deixaram suas casas nas cidades de Tell Abiad e Ras al Ain, no nordeste da Síria, desde o início da ofensiva.

Alguns deles foram recebidos por parentes em vários locais, mas muitos se refugiaram em escolas ou abrigos coletivos em cidades como Tal Amr, Hasakeh ou Raqa, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU).

A organização estima que cerca de 400 mil pessoas na região podem precisar de assistência e proteção nos próximos dias.

A ONU também alertou que os hospitais públicos e privados de Ras al Ain e Tell Abiad fecharam suas portas na sexta-feira (11), e que mais de 400 mil pessoas ficaram sem abastecimento de água na área de Hasakeh.

Autoridades de várias cidades perto do conflito decretaram o fechamento das escolas por pelo menos três dias, a partir da próxima segunda-feira (14).

‘Operação Fonte de Paz’

O governo turco chama a operação de “Fonte de Paz”. Segundo o presidente Erdogan, os alvos são a milícia curda Unidades de Proteção do Povo (YPG), acusada de ter vínculo com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), e o Estado Islâmico. Forças lideradas pela YPG foram aliadas dos Estados Unidos no combate ao grupo terrorista durante a guerra na Síria.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, determinou a retirada das tropas americanas de posições importantes, como Ras al Ain e Tal Abyad, e assumiu o compromisso de não se envolver no confronto, o que evidencia uma mudança da estratégia americana. Na prática, os Estados Unidos abandonaram os curdos, que foram os seus principais aliados na luta contra o grupo extremista. A ofensiva faz crescer o temor de que o Estado Islâmico volte a ganhar força na região.

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