Vistoria no Hospital Federal de Bonsucesso encontrou profissionais sem qualificação fazendo triagem de pacientes na emergência, diz Cremerj

Correio do Pantanal

22 ago 2018 às 09:01 hs
Vistoria no Hospital Federal de Bonsucesso encontrou profissionais sem qualificação fazendo triagem de pacientes na emergência, diz Cremerj

Neta denuncia que avó morreu após ter intestino e útero perfurados em exame. Cremerj visitou instalações e encontrou vários problemas. Hospital alega que dados de relatório são questionáveis.


Por Cristina Boeckel, G1 Rio

Pacientes internados no corredor do Hospital Federal de Bonsucesso (Foto: Cremerj/ Divulgação)
Pacientes internados no corredor do Hospital Federal de Bonsucesso (Foto: Cremerj/ Divulgação)

“Uma situação lamentável”. É assim que o presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj) define a atual situação do Hospital Federal de Bonsucesso. A entidade realizou uma visita às instalações da unidade no dia 30 de julho e lá diz que encontrou problemas de superlotação, de desabastecimento, paredes mofadas e até funcionários administrativos fazendo triagem de pacientes na emergência.

A emergência da unidade funciona de maneira aberta a todos os pacientes. Por isso, existe a necessidade de que um profissional de saúde habilitado faça a classificação de risco dos pacientes. Com problemas para completar o quadro de funcionários, as recepcionistas fazem esse trabalho, de acordo com o Cremerj.

“A classificação de risco tem que ser feita por um enfermeiro. Perguntamos para as duas meninas da recepção quem fazia a classificação. Aparentemente eram funcionários terceirizados, sem formação na área de saúde, contratados para fazer ficha. Uma situação gravíssima”, destacou Nelson Nahon, presidente do Cremerj.

O relatório da visita mostrou que, em caso de dúvida, a funcionária questionava um médico por meio de telefonema ou enviando imagens.

“Esta Comissão de Fiscalização identificou que o acolhimento do paciente da emergência é realizado por um profissional administrativo, não habilitado para esta função. Segundo verificado, o acolhimento ocorre na própria recepção administrativa, localizada na entrada da Emergência, onde o profissional administrativo relatou que aciona o médico, telefonando ou encaminhando fotos. Segundo sua opinião, ‘o paciente está grave se estiver sangrando ou desmaiado’”, afirmou outro trecho do relatório.

Além dos especialistas, familiares dos pacientes também relatam problemas. A secretária Liziane Barros levou a avó, Tereza Barros, para fazer uma colonoscopia no dia sete de março deste ano. Ela conta que a idosa, de 80 anos, teve o intestino e o útero perfurados no exame. Segundo a neta, que chegou a tirar uma foto das duas na sala de espera, a morte foi fruto da imperícia e falta de condições da unidade.

“Minha avó entrou andando e saiu num caixão”, destacou Liziane.

Tereza e a neta, Liziane, na sala de espera da unidade no dia que a idosa foi fazer um exame (Foto: Liziane Barros/ Arquivo pessoal)
Tereza e a neta, Liziane, na sala de espera da unidade no dia que a idosa foi fazer um exame (Foto: Liziane Barros/ Arquivo pessoal)

Por causa da idade avançada, Tereza ficou em observação até o dia seguinte, quando piorou. No dia 9 ela chegou a passar por uma cirurgia e foi levada para o Centro de Tratamento Intensivo (CTI). Lá, ela ficou internada até o dia 4 de maio, quando faleceu.

Ela denunciou que as instalações do CTI, que abriga os pacientes em situação de saúde mais frágil, não têm ventilação adequada e insetos circulam pelo local. Ela chegou a flagrar um deles na testa da idosa. Liziane afirmou que vai processar o hospital com outras duas famílias que tiveram problemas semelhantes.

“A gente a levou para realizar um simples exame e saiu com o papel de óbito dela”, contou Liziane.

Questionado pelo G1, o Hospital Federal de Bonsucesso afirmou que Tereza deu entrada na unidade para retirar um pólipo do intestino e que, por meio do exame, foi contatada doença diverticular do cólon, além de tumor pólipo e problemas cardíacos. Na retirada do primeiro de três tumores, o tecido se rompeu e a paciente foi enviada para cirurgia e depois internada no CTI, onde veio a falecer por conta de uma pneumonia.

A família afirma que a idosa foi para a unidade fazer um exame de rotina e que ninguém chegou a mencionar que a idosa teria um tumor.

Inseto na cabeça de paciente que morreu no Hospital Federal de Bonsucesso (Foto: Liziane Barros/ Arquivo pessoal)
Inseto na cabeça de paciente que morreu no Hospital Federal de Bonsucesso (Foto: Liziane Barros/ Arquivo pessoal)

Nahon ressaltou a falta de recursos materiais e humanos no Hospital Federal de Bonsucesso. Segundo ele, não há condição para o trabalho dos profissionais. O laboratório da unidade estaria praticamente paralisado.

“O hospital tem maternidade e não tinha teste de gravidez e nem de sífilis”, completou Nahon.

A situação do almoxarifado também chamou a atenção. O local, segundo o conselho, possuía fungos nas paredes e temperatura alta. Chamou a atenção a falta de itens básicos para o funcionamento de um hospital desse porte. “Só tinha luva tamanho 7,5. Um médico com mão grande tem dificuldade de colocar a mão. Com a mão menor ficava com espaço sobrando. Seringa também só de 5ml”, destacou Nahon.

Cremerj denuncia em relatório o baixo estoque de medicamentos do Hospital Federal de Bonsucesso, no Rio (Foto: Cremerj/ Divulgação)
Cremerj denuncia em relatório o baixo estoque de medicamentos do Hospital Federal de Bonsucesso, no Rio (Foto: Cremerj/ Divulgação)

Emergência

Durante a visita, segundo o Cremerj, a Emergência contava com 54 pacientes internados. Destes, 20 possuíam diagnóstico de câncer. Eles estavam internados ao lado de pacientes com outros tipos de doenças, algumas delas infecciosas, que poderiam prejudicá-los, já que possuem a imunidade comprometida.

As salas amarela e vermelha da Emergência, destinadas a pacientes com maior gravidade, estavam trancadas. Na amarela havia dez leitos vagos, sendo um deles de isolamento respiratório. Além disso, havia oito respiradores sem uso.

Ao mesmo tempo, pacientes estavam internados de maneira improvisada nos corredores.

“A Emergência apresenta sinais de superlotação, com pacientes internados nos corredores, encostados nas paredes, acomodados em macas de transporte, inadequadas à permanência de pacientes, em função de elevado risco de quedas. Um desses pacientes estava acomodado, de forma absolutamente improvisada, em uma longarina com 03 assentos”, destacou um trecho do documento.

Sala amarela da emergência do Hospital Federal de Bonsucesso está fechada, afirma o Cremerj (Foto: Cremerj/ Reprodução)
Sala amarela da emergência do Hospital Federal de Bonsucesso está fechada, afirma o Cremerj (Foto: Cremerj/ Reprodução)

A emergência do Hospital Federal de Bonsucesso é alvo de diversas discussões. Inaugurada no fim de fevereiro após o investimento de R$ 21 milhões, foi alvo de protestos do próprio Cremerj e de outras entidades médicas, além da Defensoria Pública da União. Segundo eles, apesar do investimento no espaço, faltou a contratação de profissionais para que ela funcionasse a pleno vapor.

Antes disso, durante sete anos, a emergência da unidade de saúde funcionou em três contêineres improvisados, com capacidade para 30 leitos, desativados após a inauguração da nova emergência.

De acordo com Nahon, um paciente aguardava uma colonoscopia internado em um consultório de ortopedia. Segundo o relatório do Cremerj, enquanto ele estava no ambiente, outras consultas eram realizadas.

“Havia ainda paciente internado no interior do consultório médico, acomodado na maca de exame, com registro de 4 dias de permanência nessas condições de internação. Não fosse o bastante, o consultório médico também era utilizado para atendimentos, a despeito de paciente internado em seu interior”, destacou o documento.

Fachada do Hospital Federal de Bonsucesso, considerado o pior da rede federal do Rio de Janeiro por relatórios da Defensoria Pública da União e do Cremerj (Foto: Cristina Boeckel/ G1)
Fachada do Hospital Federal de Bonsucesso, considerado o pior da rede federal do Rio de Janeiro por relatórios da Defensoria Pública da União e do Cremerj (Foto: Cristina Boeckel/ G1)

As condições do Hospital Federal de Bonsucesso foram destaque em um relatório da Defensoria Pública da União sobre as condições da rede federal de saúde, que foi divulgado no dia 15 de agosto. Tendo como uma das fontes o relatório do Cremerj, o documento pedia uma série de medidas para melhorar o atendimento na unidade.

Outro lado

Em nota, o Hospital Federal de Bonsucesso afirmou que as deficiências apontadas pelo Cremerj na vistoria são questionáveis. O documento cercearia o direito de defesa e deveria ter sido apresentado, antes de mais nada, para a unidade de saúde com a determinação de prazos para as respostas sobre os problemas destacados.

O Hospital Federal de Bonsucesso afirma ainda que o documento conta com planilhas desatualizadas e informações incorretas e que protocolou um pedido de retratação pública, além de notificar o Cremerj e a Defensoria Pública da União.

O Departamento de Gestão Hospitalar (DGH) dos hospitais federais também informou que 1,2 mil profissionais de saúde e de apoio à assistência do processo seletivo deste ano já foram contratados e a previsão é de que mais 2.760 estejam atuando nos seis hospitais do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro até o próximo mês. O Hospital Federal de Bonsucesso está recebendo 750 profissionais, o que representa um aumento de 18% no quadro funcional.

As contratações do ministério priorizam as três emergências de porta aberta às população – hospitais federais de Bonsucesso, Andaraí e Cardoso Fontes – e o aumento de atendimentos em algumas áreas de alta complexidade, como a oncologia.

 

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