Venezuela lança moeda virtual para contornar sanções dos EUA

Correio do Pantanal

21 fev 2018 às 07:19 hs
Venezuela lança moeda virtual para contornar sanções dos EUA

Nicolás Maduro exibe um lingote de ouro, mas a economia do país atravessa crise profunda

  |  EPA

Caracas garante que criptomoeda é sustentada pelo barril de petróleo venezuelano. Analistas duvidam do sucesso da iniciativa que surge pouco antes das presidenciais de abril.

Começou ontem a ser vendida a moeda virtual venezuelana, o petro, tentativa do regime de Nicolás Maduro para ultrapassar os problemas de liquidez do país, que se tem mostrado incapaz de cumprir com as suas obrigações financeiras internacionais.

“Demos início formal, e com sucesso, à concretização do processo de pré-venda do nosso criptoativo, o petro”, anunciou o vice-presidente Tareck el Aissami, numa intervenção realizada na sede da presidência, o palácio de Miraflores, em Caracas.

Terão sido transacionados em venda privada 38,4 milhões de petros, de uma emissão total de cem milhões, e colocados outros 44 milhões em oferta pública. O remanescente ficou reservado pelo governo.

O valor de cada petro é equivalente ao valor de um barril de petróleo venezuelano, atualmente cotado a 60 dólares.

O lançamento do petro fora inicialmente anunciado pelo presidente Nicolás Maduro em finais de 2017, com o objetivo “de realizar transações financeiras e obter novas formas de financiamento”, disse então o dirigente venezuelano. Para Maduro, a Venezuela é alvo de uma “guerra económica” dirigida pelos Estados Unidos e apoiada pela oposição interna. Washington decretou sanções económicas em 2017 e proibiu a banca e os investidores privados americanos de adquirirem títulos de dívida pública da Venezuela. Desde então, o país tem tido grande dificuldade em obter divisas e em refinanciar a sua dívida. O Departamento de Estado americano já advertiu que qualquer aquisição da moeda virtual venezuelana será equivalente à violação das sanções em vigor contra este país.

Em geral, os analistas de mercados exibiram claro ceticismo perante a operação, considerando que o nível de investimento a ser alcançado será insuficiente para as necessidades de financiamento da Venezuela. Alguns referiram que a conjuntura económica do país, caracterizada pela hiperinflação e o peso desmesurado da despesa pública, manterá afastada os investidores. Foi ainda notado que, ao contrário de outras moedas virtuais (ou criptomoedas), que são criadas de forma descentralizada, o petro é emitido de forma centralizada pelo governo de Caracas. Finalmente, foi sugerido que o surgimento do petro irá contribuir ainda mais para a desvalorização da moeda oficial, o bolívar.

A Reuters referia ontem que a página oficial do petro, elpetro.gob.ve, indicava como proceder para a criação de uma carteira virtual da divisa, mas não disponibilizava o link para o efeito, como o DN constatou ao final do dia, só estando disponível o link para a pré-compra da moeda. Está previsto que a venda do petro se prolongue até 19 de março.

Com cerca de 30 milhões de habitantes, a Venezuela encontra-se em colapso económico, com a inflação a atingir valores na ordem dos 2000% e com quase 90% da população a não conseguir o nível de rendimento necessário para a aquisição de bens básicos, segundo um estudo divulgado no final da semana passada pela consultora Hercon. O estudo refere que “mais de 70% das famílias” vivem em situação de pobreza ou extrema pobreza. A situação económica tem vindo a deteriorar-se significativamente desde a chegada ao poder de Maduro, em 2013, prevendo o FMI que o valor da inflação seja de 13000% no ano corrente.

O lançamento do petro coincide com um período de pré-campanha eleitoral para as presidenciais que irão decorrer a 22 de abril, e em que a oposição não participará. Isso mesmo confirmou ontem o antigo presidente da Câmara de Caracas António Ledezma, uma das principais figuras da oposição e hoje exilado na Suíça. Para Ledezma, o voto de abril “é uma armadilha” em que está, à partida, determinado o vencedor, que será o atual presidente. A União Europeia e vários países na região já anunciaram que não reconhecerão como legítimo o resultado da votação.

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