Suíça: o país que nunca quis fazer parte da UE. “Reflexo de país rico”

Correio do Pantanal

29 jan 2020 às 17:11 hs
Suíça: o país que nunca quis fazer parte da UE. “Reflexo de país rico”

Com o Brexit prestes a ditar a saída do primeiro membro da União Europeia, o DN foi falar com suíços para nos explicarem por que o seu país nunca quis aderir ao clube europeu. O sistema de governo de baixo para cima é uma das explicações. Mas há mais.Helena Tecedeiro27 Janeiro 2020 — 14:03

“Este foi um domingo negro.” Foi com esta frase que na noite de 6 de dezembro de 1992 o conselheiro federal Jean-Pascal Delamuraz anunciava na televisão o resultado do referendo sobre a adesão da Suíça ao Espaço Económico Europeu, que ditaria na prática o fim das fronteiras. Na altura, a larga maioria dos 26 cantões bem como 50,3% do povo suíço disseram “Não”, revelando as divisões internas, mas abrindo a porta para uma relação bilateral que ainda hoje vigora. Passadas quase três décadas e com o Reino Unido prestes a deixar o clube europeu – desta vez parece que o Brexit se vai mesmo consumar no próximo dia 31 -, a Suíça tem em cima da mesa um acordo-quadro com Bruxelas para reger os mais de 120 acordos bilaterais que hoje orientam a relação. Mas o resultado do referendo de 17 de maio sobre limitar a imigração da UE pode vir a dificultar tudo.

“A relação da Suíça com a UE não é fácil mesmo se estamos conscientes de que ficamos no meio do continente, que temos muitas coisas em comum – a cultura, vários idiomas. Economicamente, estamos muito ligados. E, ao contrário do Reino Unido, que quer sair, nós queremos nos aproximar da UE. Essa é uma mensagem muito importante”, explica ao DN o embaixador André Regli. O diplomata suíço em Lisboa admite que a rejeição da adesão ao Espaço Económico Europeu foi “uma surpresa” e que “hoje não teríamos alguns problemas se fizéssemos parte desse espaço comum. Como a Noruega ou o Lichtenstein. Seria muito mais fácil”.

Mas essa é mesmo uma preocupação para os suíços? Clément Puippe garante que não. O tradutor e jornalista freelance, que já trabalhou para a seguradora Zurich e nas últimas três décadas viveu por três períodos em Portugal, lembra-se bem daquela noite de 1992. “50,3 % recusaram. E Delamuraz foi à televisão quase a chorar dizer que a Suíça tinha recusado entrar.” A viver em Aveiro desde outubro do ano passado, Puippe admite que logo depois da votação essa ainda era uma questão divisiva para os suíços, mas hoje está muito fora da agenda política e mediática. “Com os partidos de direita a ganhar espaço, com a UE no estado que está, com tantos acordos bilaterais, entre a população Suíça a UE já não é um assunto”, explica. E não tem dúvidas de que se há vantagens em ter uma relação próxima com Bruxelas, a Suíça “tem de pagar muito. E o trabalho que dá fazer esses acordos bilaterais! O acordo-quadro vai ser muito complicado. É um processo que não interessa a ninguém”. Ele próprio, enquanto cidadão suíço e apesar de até ter sido casado e ter dois filhos com uma portuguesa, sente que “quase não estou interessado nisto, é um aspeto mais técnico, mais burocrático, financeiro”.

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“Muitas regras europeias mais rapidamente são transformadas em leis nacionais na Suíça do que noutros estados europeus”

Gregor Zemp não vai tão longe, mas o secretário-geral da Câmara de Comércio e Indústria Suíça em Portugal admite que “os suíços têm alguma dificuldade em serem dirigidos por alguém de muito longe. Uma pessoa que viva num pequeno vale da Suíça não tem nada que ver com Bruxelas e não quer que ela decida sobre as suas coisas”. Residente em Portugal desde 2001, Zemp explica que “os suíços estão habituados a gerir-se a si próprios, a decidir o que têm de decidir porque conhecem as suas circunstâncias e sabem o que é melhor para eles. Para uma cabeça suíça, é difícil imaginar estes regulamentos europeus”.

Mas a nível económico as coisas são muitas vezes diferentes: “Como a UE é o maior mercado exportador da Suíça, quando cria certos regulamentos, os suíços têm de fazer uma adaptação autónoma. Porque se a UE diz que os frigoríficos têm de ter umas determinadas medidas, os suíços que produzem frigoríficos têm de se adaptar, não têm outra hipótese. Muitas regras europeias mais rapidamente são transformadas em leis nacionais na Suíça do que noutros estados europeus”, admite a rir.

Gregor Zemp é secretário geral da Câmara de Comércio e Indústria Suíça em Portugal
Gregor Zemp é secretário geral da Câmara de Comércio e Indústria Suíça em Portugal© DR
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