Paraguai: Oposição tenta travar favoritismo do filho do ex-secretário de Stroessner

Correio do Pantanal

22 abr 2018 às 10:39 hs
Paraguai: Oposição tenta travar favoritismo do filho do ex-secretário de Stroessner

Preparativos para as eleições deste domingo

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Benítez Ado está 20 pontos à frente de Efraín Alegre nas sondagens. O Partido Colorado que, num golpe interno derrubou a ditadura em 1989, governa desde 1946. A única exceção foi Fernando Lugo, eleito em 2008.

Menos de 30 anos após o fim da ditadura no Paraguai, o facto de um dos candidatos às presidenciais ser filho do antigo secretário privado do ditador Alfredo Stroessner não parece ser motivo de problemas para os eleitores. Segundo as sondagens, o ex-senador Mario Benítez Ado, do Partido Colorado, está mais de 20 pontos à frente do adversário, Efraín Alegre, da aliança opositora GANAR (Grande Aliança Nacional Renovada). A decisão está hoje nas mãos de 4,2 milhões de paraguaios, 43% dos quais têm menos de 35 anos e pouca ou nenhuma memória da ditadura.

Marito, como é conhecido o favorito, chega às eleições após derrotar nas primárias o candidato do presidente Horacio Cartes, tendo sido um dos opositores à ideia da reeleição que este quis apresentar. Mas o Partido Colorado, que governa o país praticamente desde 1946, surge agora unido para continuar na senda das vitórias. A única exceção à hegemonia deste partido que, num golpe interno derrubou a ditadura de Stroessner em 1989 (responsável por mil a três mil mortos ou desaparecidos), foi Fernando Lugo. O ex-bispo foi eleito em 2008 mas destituído em 2012, a meses de acabar o mandato de cinco anos. Alegre é candidato da aliança opositora, que inclui o partido de Lugo, mas votou pela destituição do ex-presidente quando era então senador.

As sondagens colocam Marito com uma grande vantagem sobre Alegre, apesar de mostrarem que o Partido Colorado poderá perder a maioria no Congresso – além do presidente e do vice-presidente, são eleitos 45 senadores, 80 deputados e 17 governadores.

Luis Fretes Carreras, ex-embaixador do Paraguai em Portugal e atual investigador do Centro de Estudos Internacionais (CEI-IUL), não acredita nas sondagens, lembrando que Alegre tem o apoio de todos os partidos opositores. Na sua opinião, houve manipulação dos números, “para que os jovens não vão votar e para desmoralizar toda a oposição”.

A manipulação das sondagens é precisamente uma das denúncias da campanha da aliança GANAR, que critica também a parcialidade do sistema de Justiça para com o Partido Colorado ou a utilização de bens públicos na campanha, e fala até de um distrito, Nanawa, em que existem mais eleitores que habitantes. As denúncias foram apresentadas à missão da União Europeia (UE), assim como à da Organização de Estados Americanos (OEA).

As missões de ambas as organizações tiveram posições diferentes em relação às eleições de novembro nas Honduras, com a primeira a reconhecer os resultados do escrutínio que culminou na reeleição do presidente Juan Orlando Hernández e a segunda a expressar dúvidas. Nesse país houve denúncias de fraude, já que a primeira tendência apontava para a vitória da oposição, e nos protestos posteriores à votação houve 33 mortos. “Somos um país pacífico, não vai ser igual às Honduras”, indicou Fretes Carreras.

Propostas

Num país que é o quarto exportador mundial de soja e um importante produtor de agropecuária, Marito comprometeu-se a manter a atual estrutura de impostos para estimular o investimento externo e manter a economia a crescer. Mas também quer voltar ao serviço militar obrigatório, alegando, por exemplo, que muitas mães solteiras se veem assoberbadas com os filhos e que este pode ajudar. E defende que os cargos na administração pública sejam preenchidos com militantes do Partido Colorado. “Esta candidatura não é uma ditadura do século XX, é o modelo do século XXI”, diz Fretes Carreras.

Já o rival, sabendo que o grande problema do país é a pobreza (que afeta 26,4% da população), quer que o acesso à saúde seja gratuito. Propõe ainda reduzir as tarifas elétricas em 10%, aproveitando a produção das grandes centrais de Itaipú e Yacyreta, que partilha com Brasil e Argentina, renegociando os contratos com estes países.

No setor agropecuário, defende uma aposta numa agricultura familiar para lutar contra a maquinização que tirou as pessoas dos campos.

Os dois candidatos

Mario Benítez Ado e Efraín Alegre

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Mario Abdo Benítez

Candidato do Partido Colorado;

Nasceu a 10 de novembro de 1971, em Assunção;

Estudou Marketing nos EUA;

Foi presidente do Senado do Paraguai;

Casado em segundas núpcias, tem três filhos;

Filho do secretário privado do ex-ditador Alfredo Stroessner, tenta manter o Partido Colorado no poder. Viveu na juventude nos EUA, quando o pai foi detido e acusado de enriquecimento ilícito após o golpe que derrubou o regime em 1989. Deu os primeiros passos na política em 2005, no movimento Reconstrução Nacional Republicana e foi vice-presidente do partido.

Efraín Alegre

É o candidato da aliança GANAR;

Nasceu a 18 de janeiro de 1963 em San Juan Bautista;

Estudou Direito e Ciências Políticas em Assunção e Gestão em Buenos Aires;

Ex-senador, foi ministro das Obras Públicas;

É casado há 26 anos e tem quatro filhos;

Líder do Partido Liberal Radical Au-têntico (onde milita desde 1983), é o candidato da aliança opositora que tenta continuar a agenda liberal do ex-presidente Fernando Lugo. Eleito deputado em 1998, chegou a presidir ao Parlamento, sendo depois senador. É a segunda vez que concorre à presidência: perdeu para Horacio Cartes em 2013.

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