‘Os mísseis estão caindo como chuva’: o drama dos civis em Ghouta, enclave rebelde na Síria

Correio do Pantanal

21 fev 2018 às 10:30 hs
‘Os mísseis estão caindo como chuva’: o drama dos civis em Ghouta, enclave rebelde na Síria
home carregando criança feridaDireito de imagemAFP
Image captionMédico que conversou com a BBC disse que mais de 100 pessoas estão morrendo a cada dia no leste de Ghouta

“Os mísseis e morteiros estão caindo sobre nós como chuva. Não há onde se esconder, e o pesadelo não acabou.”

É assim que Firas Abdullah, morador do leste de Ghouta, descreve a situação da população desde que as forças do governo sírio intensificaram o bombardeio à região, que fica nos arredores de Damasco.

Ghouta é o único grande reduto próximo à capital síria ainda sob controle dos rebeldes, e o governo de Bashar al-Assad tenta retomar o território.

Mas as consequências do ataque têm sido dramáticas para os moradores. O número de mortos em dois dias de bombardeios já chega a 250, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos (SOHR, na sigla em inglês), instituição baseada em Londres. Pelo menos 50 crianças estariam entre as vítimas.

Image captionAlém de centenas de mortos e feridos, hospitais em Ghouta também tiveram funcionamento afetado por danos estruturais após bombardeios

É o número mais alto de mortes em 48 horas desde o ataque químico em 2013 que deixou mais de mil mortos também em Ghouta, de acordo com o SOHR.

“É possível ouvir o grito e choro das mulheres e crianças pelas janelas das casas”, contou Abdullah à BBC.

As Nações Unidas advertiram que a situação está “fugindo do controle” e, segundo um porta-voz, pelo menos seis hospitais da região foram atingidos entre segunda e terça-feira.

O exército sírio não comentou os registros de mortes no leste de Ghouta, mas confirmou ter feito “ataques de precisão”.

Image captionPelo menos seis hospitais teriam sido atingidos nos bombardeios, segundo porta-voz da ONU

O que está acontecendo em Ghouta?

Forças pró-governo, apoiadas pela Rússia, intensificaram os esforços para retomar o último grande reduto dos rebeldes próximo à capital síria na noite de domingo.

O leste de Ghouta é dominado pela facção islâmica Jaysh al-Islam. Mas a Hayat Tahrir al-Sham, uma aliança jihadista com origens ligadas à al-Qaeda, também ocupa a região.

Segundo organizações que atuam no local, pelo menos dez cidades e aldeias da região foram alvo de um novo bombardeio nesta terça-feira.

A ONU pediu um cessar-fogo para a chegada de ajuda humanitária e evacuação de feridos.

Quão ruim é a situação?

Um médico local disse à União das Organizações de Cuidados Médicos (UOSSM, na sigla em inglês) que a situação em Ghouta é “catastrófica”.

“As pessoas não têm para onde se voltar”, disse ele. “Elas estão tentando sobreviver, mas a fome decorrente do cerco as enfraqueceu.”

Outro médico ouvido pela BBC disse que cerca de 100 pessoas estão morrendo a cada dia e que hospitais, escolas, mesquitas e lojas viraram alvos de mísseis.

Crianças são resgatadas de escombros após bombardeio que matou mais de cem na Síria

O coordenador da ONU na Síria, Panos Moumtzis, disse à BBC que ficou “consternado” ao saber de relatos de que hospitais teriam sido atacados deliberadamente e alertou que tais ataques podem configurar crimes de guerra.

Desde novembro, o governo permitiu a entrada de apenas um comboio de ajuda humanitária no leste de Ghouta – o que agrava a escassez de alimentos por ali.

Um pedaço de pão agora é 22 vezes mais caro do que em todo o país e 12% das crianças com menos de cinco anos estão com desnutrição aguda.

Image captionCriança caminha perto de construções destruídas por ataques na cidade de Douma; ONU pediu cessar-fogo para ajuda humanitária

O que mais está acontecendo na Síria?

Nesta terça-feira, forças pró-governo entraram no enclave curdo de Afrin, ao sul da fronteira turca.

A Turquia está tentando expulsar as milícias curdas, que têm autonomia parcial na área e pediram ajuda às força militares sírias.

A Síria classificou a ofensiva turca como um “ataque flagrante” à sua soberania – mas a Turquia insistiu que não vai recuar.

As forças do governo sírio também estão realizando ofensivas na província de Idlib, no noroeste do país.

Segundo a ONU, mais de 300 mil pessoas foram deslocadas pelos combates em Idlib desde dezembro.

Image captionMoradores dizem que hospitais, lojas, mesquitas e casas foram bombardeados deliberadamente

Como a guerra começou?

Os conflitos na Síria tiveram início em 2011, com a resposta violenta do governo aos protestos pedindo mais liberdade no país, inspirados na Primavera Árabe.

Simpatizantes do grupo antigoverno começaram a pegar em armas – primeiro para se defender e depois para expulsar as forças de segurança de suas regiões.

Ao longo dos meses, o conflito adquiriu contornos de guerra sectária entre a maioria sunita do país e xiitas alauítas, o braço do Islamismo a que pertence o presidente.

Diante do caos, grupos extremistas, como o autodenominado Estado Islâmico (EI), dominaram partes do país e passaram a ser combatidos por forças internacionais, principalmente dos Estados Unidos.

Os últimos redutos urbanos do EI foram retomados no fim do ano passado. A guerra entre rebeldes e as forças de Assad, porém, continua.

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