Oposição a Maduro à espera do milionário da cerveja e das arepas

Correio do Pantanal

18 fev 2018 às 08:29 hs
Oposição a Maduro à espera do milionário da cerveja e das arepas

Lorenzo Mendoza no centro de distribuição do Grupo Polar em outubro de 2015, quando o governo o acusou de “traição”

  |  CARLOS GARCIA RAWLINS/ARQUIVO REUTERS

Lorenzo Mendoza, o empresário por detrás do Grupo Polar, diz que não está interessado numa candidatura presidencial, mas o seu nome gera consenso entre os venezuelanos

O império começou em 1941 com a cerveja e pelas mãos do avô. Em 1960, o tio foi um dos responsáveis por industrializar o processo de produção de farinha pré-cozida de milho, fundamental para a rápida preparação das arepas, que servem de base à alimentação venezuelana. Hoje, o Grupo Polar produz anualmente 1,6 milhões de toneladas de alimentos e o seu diretor executivo é a esperança de muitos para tirar o presidente Nicolás Maduro do poder. Só há um problema: Lorenzo Mendoza, de 52 anos, que assumiu o controlo da empresa em 1992, não parece interessado em lançar-se na política e arriscar a destruir o que a família construiu.

Recebido com gritos de “presidente” quando entra num estádio de basebol (a Polar apoia várias equipas daquele que é o desporto mais popular na Venezuela), o milionário é visto como o candidato perfeito para fazer face a Maduro nas eleições antecipadas de 22 de abril. É um nome conhecido de todos e está fora do campo político, numa altura de desânimo dos venezuelanos com Maduro, mas também com a divisão na oposição.

“É o outsider perfeito para o momento atual. O que as pessoas querem é comer, querem pôr a produzir o aparelho produtivo que está colapsado. E este é um homem que demonstrou que sabe produzir”, disse a analista Margarita López Maya à Teletrece chilena. A venezuelana apelida Mendoza de “o homem dos alimentos”, lembrando que “nestes momentos em que se está a passar tanta fome, uma pessoa que produz comida é um homem muito atrativo”. Vários pré–candidatos já indicaram que se Mendoza avançasse com uma candidatura se retirariam para o apoiar, especialmente numa altura de incerteza sobre primárias na oposição para escolher o candidato que irá defrontar o presidente – há até partidos que defendem o boicote às eleições por não haver garantias.

Mendoza nasceu a 5 de outubro de 1965 em Caracas e estudou na Universidade de Fordham, em Nova Iorque, tendo também tirado um mestrado em Administração de Empresas no Massachusetts. Ainda estudava nos EUA quando o pai morreu, tendo a sua mãe ficado à frente dos negócios até que acabasse os estudos e assumisse a direção do Grupo Polar, em 1992. Em 2016 era o terceiro venezuelano mais rico do mundo, segundo a lista da revista Forbes (atrás do banqueiro Juan Carlos Escotet, do Banesto, e do magnata dos media Gustavo Cisneros), mas já não aparece no ranking de 2017. Casado, tem sete filhos.

“Sempre na Venezuela, com a minha família. Não vou a lado nenhum”, disse publicamente o empresário que é um espinho no chavismo, símbolo de uma oligarquia que a revolução bolivariana não pode afastar pelo impacto que representa na mesa dos venezuelanos. Isso não significa que não tente: entre 2008 e 2014, segundo o El País, as fábricas do grupo foram inspecionadas mais de 1800 vezes. E em 2015 foi acusado pelo governo de Maduro de “traição à pátria” por ter feito consultas sobre o futuro económico da Venezuela. Também é acusado de reduzir a produção e acumular produtos para criar escassez, a “guerra económica” que o presidente diz estar por detrás dos problemas da Venezuela.

Esta não é a primeira vez que o nome de Lorenzo surge ligado a uma eventual candidatura política. O empresário tem sempre recusado – “se sabem contar, não contem comigo” -, mas no último encontro com os trabalhadores não foi tão direto. “Não o negou enfaticamente, o que me pareceu muito estranho”, disse um dos presentes à BBC. Uma candidatura de Mendoza iria colocar o milionário numa posição de maior confronto com o presidente, arriscando mais consequências para a empresa ou a família.

O encontro foi antes do anúncio da antecipação das eleições por parte de Maduro, que desta forma encurralou a oposição dividida não só com as eleições mas também com as negociações que decorrem na República Dominicana. Entre os opositores há os que defendem o boicote eleitoral, visto não estarem garantidos os direitos de eleições livres (escrutínio anteriores foram considerados fraudulentos), e os que dizem que é preciso participar com uma candidatura única (ver caixa). Alguns dos principais nomes estão proibidos por lei de se candidatar, como Henrique Capriles (que tentou duas vezes) ou Leopoldo López (em prisão domiciliária).

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