NÃO EXISTEM PESSOAS HETEROSSEXUAIS, DIZ A CIÊNCIA

Correio do Pantanal

27 set 2018 às 10:35 hs
NÃO EXISTEM PESSOAS HETEROSSEXUAIS, DIZ A CIÊNCIA
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    87% dos homens comprometidos e 45% das mulheres tiveram uma fantasia sexual que envolveu melhores amigos do mesmo sexo.

Quando muito, maioritariamente heterossexuais, segundo um estudo que garante que preto e branco é coisa que não se aplica à sexualidade humana. Isso e que somos todos mais fogosos na cama do que alguma vez pensámos.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

Romances cor-de-rosa e comédias românticas, com mais ou menos erotismo, têm todos a mesma fórmula. Um homem e uma mulher, uma atração irresistível, as mais variadas contrariedades, o clímax, e, enfim, felizes para sempre.

Tudo muito bonito, não fosse pelo facto de a ciência vir dizer que não há pessoas heterossexuais, o que pressupõe outros enredos bem mais interessantes. Para elas e para eles.

A sexualidade humana é complexa, fluida, impossível de conter nas típicas convenções sociais e culturais de género.

É pelo menos esta a conclusão de uma pesquisa publicada no Journal of Personality and Social Psychology (Jornal de Personalidade e Psicologia Social), segundo a qual a sexualidade humana é complexa, fluida, impossível de conter nas típicas convenções sociais e culturais de género que definem alguém como sendo heterossexual, gay, bissexual ou outro rótulo qualquer.

«Estamos a tentar chegar ao que as pessoas realmente são e não fiquei nada surpreendido», revela à revista canadiana Vice Ritch Savin-Williams, um dos autores do estudo que dirige também o Laboratório de Sexo e Género no Departamento de Desenvolvimento Humano da Universidade Cornell, em Nova Iorque. «Por vezes parece que vão num sentido, embora acreditem ter de mostrar que caminham noutro diferente, o que não é bom», diz.

Não é bom e não admira, à luz de uma sociedade ainda aferrada à ideia de que o indivíduo tem de poder encaixar numa ou noutra orientação, não há cá misturas. Isto quando, na prática, ao medir os efeitos fisiológicos da pornografia em mulheres e homens, a investigação de Savin-Williams apurou que os corpos delas – tal como os deles – reagem positivamente quer ao sexo heterossexual, quer ao homossexual.

«Tem tudo a ver com a pessoa sentir-se livre para ser ativada por um ou outro género, apreciando a consciência do prazer», diz Cristina Mira Santos.

«Tem tudo a ver com energia erótica, com a pessoa sentir-se livre para ser ativada por um ou outro género, apreciando a consciência do prazer», explica a psicóloga e sexóloga Cristina Mira Santos. Porque insistimos à força numa compartimentação, nós e os outros? «Se sou mulher e gostei do toque de outra mulher, porque não encarar essa experiência como qualquer outra com alguém do sexo oposto?»

E eles também, óbvio, sublinha Cristina Mira Santos. A lógica que impera é a de que o sexo serve para procriar, contudo ter prazer e fazer filhos são coisas diferentes: «Se concebermos a separação entre aparelho reprodutor e sexual, com órgãos comuns mas funções distintas, porque é que um homem também não há de poder sentir-se atraído por alguém do mesmo sexo só por prazer?»

Uma questão que cruza diretamente com os resultados, no mínimo inesperados, de uma sondagem levado a cabo pela Victoria Milan, a plataforma de encontros para casais que procuram casos discretos: a avaliar pelos números, obtidos numa amostra de 1300 entrevistados de ambos os sexos em vários países do mundo, 87 por cento dos homens admitem que algumas das fantasias sexuais mais comuns incluem os seus melhores amigos do sexo masculino (veja as outras conclusões na fotogaleria).

Homens retraem-se mais do que as mulheres por serem rotulados, julgados e tratados com especial dureza pela sociedade.

Para o professor de desenvolvimento humano de Cornell, o facto de os homens se retraírem tanto comparativamente às mulheres deve-se a uma inclinação geral da sociedade para rotulá-los, julgá-los e tratá-los com particular dureza, às vezes a raiar a repugnância. Daí continuar a trabalhar numa formulação a que chama de «maioritariamente heterossexual», no sentido de desbloquear mentalidades.

«Sempre reconhecemos a existência de mulheres maioritariamente heterossexuais, isto é, mulheres que são sobretudo hetero, mas caso a mulher certa surja talvez experimentem também com ela», traduz Savin-Williams. Não sendo um fenómeno exclusivamente feminino – a sua própria pesquisa encarregou-se de lho mostrar –, que sentido faria deixar os homens de fora?

Numa sociedade mais aberta, muitos de nós sentir-se-iam atraídos por pessoas de ambos os sexos.

«Também eu penso que, numa sociedade mais aberta, muitos de nós se sentirão atraídos por pessoas de ambos os sexos», admite o psiquiatra e sexólogo Júlio Machado Vaz ressalvando, desde logo, a diferença entre isso e dizer que somos necessariamente bissexuais, ou poderíamos andar todos a saltitar entre fases mais hetero, gay ou bi – não é verdade.

«Ao longo dos anos, ouvi inúmeros homossexuais lamentarem o fracasso de tentativas desesperadas para se manterem ao abrigo do preconceito», justifica o especialista, sabendo que nem no meio da maior homofobia social, por necessidade, conseguiam que essa alegada capacidade latente viesse ao de cima para lhes facilitar a vida.

A psicóloga Cristina Mira Santos explica a evidência com processos inconscientes de substituição: «Num casal de lésbicas, por exemplo, há muitas vezes um membro com uma energia mais yin, feminina, e outro mais yang, que por escolher o papel masculino se torna reativo a gostar de homens.»

Em matéria de prazer, os olhos são o espelho da alma, como crê a sabedoria popular.

O mesmo sucede num casal de dois homens, diz Mira Santos: à partida, o yang estará mais aberto ao erotismo com mulheres do que o parceiro yin, que se identifica com elas e, como tal, não se sente ativado por um corpo feminino.

E ao que parece os olhos são mesmo o espelho da alma em matéria de prazer, garantem os cientistas da Universidade Cornell. «Basicamente, o que fizemos neste estudo foi avaliar a orientação sexual de alguém vendo se os seus olhos dilatavam ou não, algo que não podemos controlar», conta Savin-Williams. É a derradeira missão do projeto: determinar a sexualidade sem se fiar no que cada um diz de si. Palavras só atrapalham.

«Outro modo de fazê-lo era analisar a resposta genital ao estímulo, mas seria um pouco invasivo», acrescenta o especialista norte-americano, dando razão a Shakespeare quando dizia que há mais coisas entre o céu e a terra – neste caso entre normas de género – do que sonha a nossa vã filosofia. Uma coisa é certa: a sexualidade humana acabou de se tornar muito menos aborrecida.

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