Fança-EUA – Uma aliança que vai da espada de Lafayette aos mísseis contra Assad

Correio do Pantanal

24 abr 2018 às 08:10 hs
Fança-EUA – Uma aliança que vai da espada de Lafayette aos mísseis contra Assad

 

Diário de Noticias,

 

 

Síria, Irã, terrorismo, comércio. Serão muitos os assuntos em cima da mesa no encontro entre Emmanuel Macron. Mas, no jantar em Mount Vernon ou no banquete na Casa Branca, os dois líderes terão de ter em mente os mais de 240 anos de uma aliança que começou na guerra da independência dos EUA e vai hoje até à guerra da Síria.

Herói dos dois Mundos ofereceu a chave da Bastilha a Washington.

 

Quem hoje visita Mount Vernon, a propriedade de George Washington na Virgínia, pode ver, pendurada na parede do hall de entrada, uma chave grande e escura. É a chave da Bastilha, que o marquês de Lafayette enviou ao primeiro presidente dos Estados Unidos. A chave do forte tornado prisão e libertado durante a Revolução Francesa era um símbolo da liberdade e de confiança na revolução americana. Lafayette, um jovem militar francês, desde cedo apoiou a causa da revolução americana e após a declaração de independência dos Estados Unidos, em 1776, combateu ao lado dos americanos contra os britânicos. Muitas vezes descrito como Herói dos Dois Mundos, Lafayette é o expoente de uma aliança militar que culminaria com Paris a ser palco das negociações de paz entre americanos e britânicos.

Uma estátua pela liberdade presente do povo francês

Depois de uma quase-guerra entre os dois países no final do século XVIII, os EUA comprometeram-se a manter a neutralidade nas guerras de Napoleão. Num período em que as trocas culturais voltaram a ganhar fôlego, em 1835, o diplomata francês Alexis de Tocqueville publicava Da Democracia na América, um livro que ajuda até hoje a moldar o entendimento do que é ser americano.

Pouco depois, a França optava por ser neutra durante a Guerra Civil Americana, mesmo se Napoleão III teria preferido ver o sul esclavagista vencer, esperando enfraquecer os EUA e ganhar um novo aliado no continente americano. Foi preciso o derrube de Napoleão III em 1870 para melhorar as relações entre França e EUA e para se recuperar um projeto antigo: o da oferta pela França de uma estátua aos EUA em agradecimento ao povo americano, para celebrar o centenário da independência. Construída em França – onde a sua cabeça esteve em exibição na Exposição Universal de 1878 e onde as peças chegaram a ser montadas antes de voltarem a ser separadas -, a estátua criada pelo escultor Auguste Bartholdi e pelo engenheiro Gustave Eiffel foi enviada de barco para a América. Erguida na Liberty Island, no porto de Nova Iorque, a Estátua da Liberdade foi inaugurada em 1886, tendo-se tornado um símbolo da própria América e da celebração da liberdade. Com os seus 46 metros de altura, a Estátua da Liberdade recebeu em 2017 mais de 4,4, milhões de visitantes.

Do mesmo lado nas duas guerras mundiais

Em ambas as guerras mundiais, França e Estados Unidos combateram do mesmo lado. Na Primeira, uma América inicialmente neutral acabou por se envolver no conflito em 1917, tendo contribuído com dinheiro que permitiu comprar alimentos, petróleo e químicos. Enviadas para a Europa sem o material pesado, as tropas americanas usaram artilharia, aviões e tanques franceses e ajudaram os Aliados a dar o golpe final na Alemanha. Mas, nos anos que se seguiram, França e EUA optaram por caminhos diferentes, com o presidente francês George Clémenceau a insistir numa linha dura em relação à Alemanha, enquanto o presidente americano Woodrow Wilson defendia uma “paz sem vitória”. EUA e Reino Unido comprometeram-se por tratado a defender a França em caso de agressão alemã. E, depois de um período de intensa troca cultura entre as duas guerras – com artistas americanos, de Josephine Baker a Ernest Hemingway, passando por F. Scott Fitzgerald, a passarem longos períodos e a alcançar o sucesso em França, enquanto, por contraste, surgia um certo antiamericanismo e a defesa dos valores franceses perante a influência crescente de Hollywood -, a II Guerra Mundial voltaria a colocar franceses e americanos de novo do mesmo lado. Os EUA voltaram a optar pela neutralidade até ao ataque japonês a Pearl Harbor em dezembro de 1941. Entrados na guerra, os americanos ajudaram a libertar a França, tendo desembarcado na Normandia ao lado dos britânicos e canadianos a 6 de junho de 1944. A 19 de agosto do mesmo ano, Paris era libertada. E, apesar de as relações entre os dois homens não ser fácil, o presidente Dwight Eisenhower acabou mesmo por dar a sua bênção em 1958 ao novo presidente francês, o general Charles De Gaulle.

De Gaulle tira a França da NATO em protesto contra os EUA

A difícil relação de De Gaulle com a América acabou por se refletir numa crise na NATO. Criada a 4 de abril de 1949, a Aliança Atlântica nasceu como reação à ameaça soviética. Logo em 1958, o presidente francês enviou um relatório ao americano Eisenhower e ao britânico Harold Macmillan a recomendar a criação de uma liderança tripartida que colocasse a França em pé de igualdade com EUA e Reino Unido. Insatisfeito com a resposta, De Gaulle começa por retirar a frota francesa no Mediterrâneo do controlo da NATO, procurando garantir ao seu país uma defesa independente. Em 1966, a França tinha retirado todas as suas tropas do comando da Aliança e todas as tropas da NATO não francesas tinham saído da França. Apesar de Paris ter continuado a colaborar com a Aliança, seria preciso esperar ate 2009 para que o presidente Nicolas Sarkozy decidisse reintegrar todas as estruturas da NATO. Não sem ser alvo de críticas em Paris.

A guerra que transformou as french fries em freedom fries

No editorial da sua edição de 13 de setembro de 2001, dois dias depois dos atentados que fizeram quase três mil mortos nos EUA, o diário francês Le Monde escrevia “Somos todos americanos”. E Paris esteve ao lado de Washington quando George W. Bush declarou guerra ao terror e invadiu o Afeganistão para derrubar o regime dos talibãs, depois de este recusar entregar Osama bin Laden, o cérebro dos ataques e líder da Al-Qaeda. Passados menos de dois anos, o clima era bem diferente. Alegando que Saddam Hussein apoiava o terrorismo e estava a desenvolver armas de destruição maciça, os EUA de Bush, apoiados pelo Reino Unido, invadiram o Iraque a 20 de março de 2003, sem mandato da ONU. O presidente francês Jacques Chirac foi um dos líderes mais críticos, tendo-se juntado à Rússia e à China para vetar uma resolução que apoiava a guerra. A retaliação nos Estados Unidos não se fez esperar, com um apelo ao boicote aos produtos franceses. Até as french fries (as batatas fritas) foram rebatizadas freedom fries. Este sentimento antifrancês teve reflexo deste lado do Atlântico, com protestos em França contra a guerra e até algumas atitudes de hostilidade em relação a turistas americanos. Mas, à medida que o conflito se prolongava, a relação entre os dois países melhorou, mas seria preciso esperar até à chegada ao poder de Nicolas Sarkozy em 2007 para uma verdadeira aproximação.

De tal forma que o presidente francês até ganhou a alcunha de “Sarkozy, o Americano”.

Líbia, o conflito de Sarkozy com o apoio dos EUA de Obama

Se a guerra do Iraque dividiu Bush e Chirac, o conflito na Líbia aproximou Sarkozy de Barack Obama. Sob a égide do filósofo Bernard-Henri Lévy, os franceses conseguiram convencer americanos e britânicos a atacar a Líbia, a 19 de março de 2011, numa coligação que juntava ainda outros aliados da NATO, e ajudar os rebeldes a derrubar o regime de Muammar Kadhafi. Em 2016, o presidente americana confessaria ter sido o “pior erro” dos seus dois mandatos. Acusado por Obama de ter querido pôr-se em bicos de pés na Líbia, Sarkozy também não poupou críticas ao homólogo americano, lembrando que “toda a gente sabe que a ação não é o seu forte”.

Emmanuel, o “tipo porreiro”, apoiou Trump na Síria

A relação entre Emmanuel Macron e Donald Trump até começou mal, com o presidente francês a dar um aperto de mão tão vigoroso ao homólogo americano em maio passado, à margem da cimeira da NATO em Bruxelas, que foi notícia em todo o mundo. Mas, se isso incomodou Trump, este depressa pareceu esquecê-lo. Dois meses depois o presidente americano era o convidado de honra das celebrações do 14 de Julho em Paris, tendo ficado perplexo quando a banda começou a tocar uma música dos Daft Punk, mas não poupando elogios ao anfitrião. Tanto gostou do desfile militar dos franceses que o americano até exigiu aos chefes das suas forças armadas que organizassem uma parada semelhante. “Gosto dele, é um amigo. Emmanuel! É um tipo porreiro, a mulher é fantástica. Gosto muito dele. Sabe, jantámos no topo da Torre Eiffel”, disse Trump. Juntos, franceses e americanos (com apoio dos britânicos) atacaram a Síria a 13 de abril, lançando mísseis contra instalações químicas do regime de Bashar al-Assad, após um ataque contra Douma uma semana antes.

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