Dilma Roussef e um telemóvel no manicómio

Correio do Pantanal

23 fev 2018 às 07:13 hs
Dilma Roussef e um telemóvel no manicómio

Documento intensivo da história do Brasil é um dos filmes de Berlim

  |  DR

Um documentário histórico brasileiro, O Processo, documenta factualmente o golpe contra Dilma Roussef. Na competição, sustos experimentais de Steven Soderbergh.

Começam a ser divertidos os contrastes deste festival. Enquanto num dia temos uma gala toda pimpona para homenagear Willem Dafoe, Urso de Ouro de honra, ao lado, no dia seguinte, no CineStar, o Panorama tem uma das sessões mais concorridas, O Processo, de Maria Augusta Ramos, onde há gente com cartazes de “Fora Temer!” e um ambiente de manifestação política. No final, há uma ovação estrondosa depois de vaias pelo meio quando a acusação no processo de destituição de Dilma Roussef surge na argumentação.

Obviamente, O Processo é o atestado de óbito pela democracia brasileira e está do lado do Partido Trabalhista – a realizadora opta por nem disfarçar, mesmo quando não abdica de “mea culpa” quando os próprios membros do partido fazem um ato de contrição, deixando algo mal visto Lula.

Filmado a partir de 400 horas de filmagem com acesso exclusivo às salas onde o processo da comissão do Impeachment se reuniu e nas reuniões do PT, O Processo funciona como um documentário thriller, com vilões (por exemplo a advogada Janaína Paschoal e o traidor Eduardo Cunha) e heróis (o advogado Lindbergh Farias). Tem pontos de vista, muitos e fortes, mas sempre do lado do cinema, mostrando aqueles tempos (que na televisão se dizem mortos) que não ficam captados pela imprensa televisiva e interlúdios distintivos onde surge uma intuição de tragédia grega (e aí a maneira como é filmada a arquitetura de Niemayer em Brasília é só por si um “tour de force”).

Aconteça o que acontecer, este é o filme que documenta o momento onde o Brasil moderno mudou. Este novelo sem telenovela teve dire(i)to a “bravos” emocionados.

Na seleção oficial, chegou finalmente Unsane, de Steven Soderbergh, experiência de radicalismo extremo rodada com um Iphone 7 e paga pelo bolso do próprio realizador (a Fox adquiriu-o e há possibilidades de estreia em Portugal). Um conto demente sobre uma mulher que é internada num hospital psiquiátrico de forma involuntária e entra num pesadelo, sobretudo quando descobre que o novo enfermeiro é o “stalker” que a fez mudar de cidade.

Uma experiência revolucionária (tecnicamente é mil vezes superior a Tangerine, de Sean Baker, também filmado com um telefone esperto) que pode mudar o panorama de produção “low cost” no cinema americano e que serve para Soderbergh refletir sobre os limites do espaço e do tempo. Simultaneamente é um filme que subtrai as regras do clássico conto de terror e aposta cruamente num retrato de uma mulher acossada pela sociedade (a interpretação que vai fazer muito pela carreira de Claire Foy). Trata-se do Soderbergh das experiências como Bubble (2005) e Schizopolis (1996), mas com um sentido de humor sequíssimo mesmo quando não refuta o zeitgeist – um stalker a atacar uma mulher…

No Forum, o que dizer do filme de André Gil Mata, A Árvore? Apenas que as críticas favoráveis vão colocá-lo no mapa internacional do nicho dos novos autores portugueses. Um filme “bósnio” feito em duas dimensões temporais mas que exterioriza um pouco em demasia a cartilha de Bela Tarr.

A Árvore, se houvesse prémios de cinematografia no Forum, ganharia de caras o melhor diretor de fotografia. As imagens que Mata e João Ribeiro cuidadosamente elaboram são de beleza obstinada.

Em Berlim

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