Contagem decrescente para retaliação dos EUA na Síria

Correio do Pantanal

11 abr 2018 às 07:08 hs
Contagem decrescente para retaliação dos EUA na Síria

Aspeto de uma rua de Idlib, uma das cidades sírias onde os combates não têm cessado desde o início da guerra, em 2011

  |  EPA

Ataques terão, muito provavelmente, como alvos instalações de armas químicas e centros de comando do regime. Operação deve envolver americanos e aliados internacionais.

No dia em que as forças de Bashar al-Assad retomaram o controlo de Douma, o último enclave ocupado pela oposição nos arredores da capital síria, especulava-se sobre a forma que iria assumir a retaliação anunciada pelo presidente Donald Trump em resposta ao ataque com armas químicas do passado fim de semana, que causou 60 mortos e cerca de mil feridos, precisamente na cidade agora recuperada pelo regime de Damasco. Numa tentativa de evitar um ataque americano às suas forças, o regime sírio convidou inspetores da Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPCW, na sigla em inglês) a visitarem Douma e determinar a natureza das substâncias envolvidas.

Num primeiro comentário ao ataque, a OPCW referiu a possibilidade, com base nas informações prestadas pelos grupos rebeldes, de ter sido usada uma mistura de gás sarin e cloro. O representante da Rússia nas Nações Unidas, Vassily Nebenzia, anunciou a intenção de apresentar uma resolução no Conselho de Segurança da organização a propor o envio de uma missão da OPWC à Síria. O que estava a ser considerado pelos Estados Unidos, França e Grã-Bretanha uma manobra dilatória de Moscovo para evitar a punição do regime Assad – que poderia estar por horas, ontem ao final do dia. Por seu lado, a OPWC confirmou ter tomado a iniciativa de pedir autorização ao governo sírio para efetuar a deslocação. Nebenzia advertiu os EUA para “graves repercussões”, caso fossem desencadeadas operações retaliatórias na Síria.

Durante a tarde o presidente Trump falara com a primeira-ministra britânica, Theresa May, que antes deste contacto estivera ao telefone com Emmanuel Macron, presidente da França, tendo os três dirigentes acordado que os responsáveis pelo ataque de Douma “têm de ser sofrer as consequências” da sua ação”, indicou um porta-voz de Downing Street após os contactos.

Fontes oficiais em Washington, exprimindo-se sob anonimato, explicaram à Reuters que diferentes opções militares estavam em discussão, com os EUA a procurarem uma articulação com os aliados internacionais. Não foram dados detalhes, mas sugeria-se que a finalidade da retaliação seria desencorajar, de uma vez por todas, o regime sírio de usar armas químicas.

Os alvos mais prováveis seriam os centros de comando e controlo que terão dirigido os ataques e unidades de apoio, considerava um especialista em segurança internacional, Benjamin Haddad, do Hudson Institute, num texto ontem publicado online na Foreign Policy. Outro alvo poderia ser a base de Dumayr, de onde teriam partido os helicópteros envolvidos no ataque. A 6 de abril de 2017, em resposta a ataque semelhante, em Khan Shaykhum, os EUA dispararam 59 mísseis sobre a base de Shayrat, na província de Homs.

Aquelas hipóteses foram, de algum modo, confirmadas ao final do dia por Emmanuel Macron que disse, a haver ataques, estes terão como alvo instalações de armas químicas.

Moscovo vetou 11 resoluções a condenarem o regime de Assad

Por outro lado, a representante dos EUA na ONU, Nikki Haley, numa reunião do Conselho de Segurança na noite de segunda-feira, recordou que há pouco mais de um ano mostrara fotografias de ataque semelhante ocorrido a 4 de abril de 2017 em Khan Shaykhun, na província de Idlib e apontou para “as mãos cheias de sangue da Federação Russa” no conflito sírio. Moscovo vetou 11 resoluções a condenarem o regime de Assad, lembrou Haley, que disse ainda ser indispensável estabelecer-se “um mecanismo imparcial para investigar os ataques”. Em 2013, a Rússia e os EUA assinaram um acordo em que o primeiro país se tornava garante de que o regime de Assad entregaria para destruição todas as armas e agentes químicos suscetíveis de uso letal. Na época foi estimado que possuiria mil toneladas de armas químicas. Em agosto daquele ano, o regime de Damasco efetuara um ataque químico em Ghouta oriental, que causou mais de 1700 mortos, segundo fontes da oposição. A região que voltou agora a controlar.

Outro sinal da iminência de uma possível punição militar do regime de Assad foi dada pela notícia do cancelamento da viagem de Trump ao Peru, onde deveria participar sexta-feira na Cimeira das Américas, deslocando-se em seguida à Colômbia. Trump será substituído pelo vice-presidente Mike Pence.

Um terceiro sinal veio do ministro dos Negócios Estrangeiros saudita, Adel al-Jubeir, que falava em Paris no quadro da visita que o príncipe herdeiro Mohammad bin Salman concluiu ontem a França, e antes de Macron proferir a declaração acima citada. “Não vou especular sobre o que pode ou não pode suceder. O que posso dizer é que estão a ser avaliadas as opções disponíveis nesta questão”, disse o ministro saudita, que sublinhou estar Riade em total sintonia com Washington, Paris e Londres, antecipando o cenário de uma presença saudita nas operações a realizar.

Embora seja percetível que os principais poderes envolvidos no conflito procuram, de alguma forma, não abrirem caminho a uma escalada de tensões de consequências imprevisíveis, os sinais de tensão continuam a multiplicar-se. Ontem, soube-se que, no fim de semana, um avião de combate russo sobrevoou a baixa altitude a fragata francesa Aquitaine, em patrulha no Mediterrâneo ao lardo do Líbano, numa violação das regras internacionais. A notícia, inicialmente divulgada pela edição online da revista Le Point, referia ainda que o aparelho voava com armamento completo.

Este caso confirma que a guerra na Síria é, de forma crescente, um conflito em que as grandes potências estão envolvidas e os poderes regionais estão a enfrentar-se de forma aberta. Caso de Israel e do Irão, o principal apoio do regime de Assad no terreno.

À medida que a guerra prossegue e a consolidação do poder de Assad depende, de forma clara, da presença das forças de Teerão e de seus aliados, como o Hezbollah libanês, Israel vê, com crescente preocupação, o reforço da presença militar iraniana na Síria, país com o qual tem fronteira comum. Assim, a determinação em impedir que isto suceda.

A consolidação da presença militar iraniana, mais as forças do Hezbollah (com o qual Israel já travou uma guerra em 2006, que terminou num relativo impasse) e os combatentes xiitas de várias partes do mundo, cria uma nova e potencial ameaça para as forças armadas israelitas. O que Israel já mostrou que não toleraria enquanto o Irão garantiu que o ataque à base de Tiyas “não ficará sem resposta”.

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