Transcrever trechos de redações nota mil no Enem 2019 é ‘vício’ a ser evitado, alertam professores

Correio do Pantanal

3 nov 2019 às 00:11 hs
Transcrever trechos de redações nota mil no Enem 2019 é ‘vício’ a ser evitado, alertam professores

Três professores que somam juntos 29 estudantes com nota mil alertam para os riscos de tentar encaixar a qualquer custo uma ‘redação pré-formatada’ na cabeça.

Por Ana Carolina Moreno, G1

Trecho da redação de Sílvia Fernanda Lima, que tirou nota mil no Enem 2018 — Foto: Reprodução/Inep

Trecho da redação de Sílvia Fernanda Lima, que tirou nota mil no Enem 2018 — Foto: Reprodução/Inep

Circuladas amplamente nas redes sociais e nas salas de aula de todo o Brasil, as redações que conseguiram nota mil em edições passadas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) devem servir apenas para fins de estudo: memorizar trechos desses textos e transcrevê-los em sua própria prova de redação é um “vício” para muitos candidatos, mas que deve ser evitado por trazer mais riscos do que benefícios.

A dica vem de três professores de redação do Distrito Federal, do Piauí e de São Paulo que, juntos, já conseguiram 29 “notas mil” – estudantes seus que atingiram a nota máxima na prova –, além de centenas de alunos com notas acima de 900:

  • Regiane Pedigone Segantini, fundadora do curso 100% Redação, com turmas em várias cidades do Interior de São Paulo e, desde 2009, diz que já acumula 17 “notas mil” no Enem, sendo duas delas na edição 2018;
  • Rógi Almeida, fundador do Curso de Redação Professor Rógi, em Teresina, que já soma dez “notas mil”, a última delas em 2018;
  • Sharlene Leite, fundadora do curso Escrita Única Pré-Vestibular em Brasília, que diz ter tido 48 alunos com a nota 980 no Enem 2017 e duas estudantes “nota mil” no Enem 2018.
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Descontos na nota da redação

Especialistas em preparar candidatos do Enem e de outros vestibulares, os três professores são unânimes ao alertar que várias regras da banca avaliadora impedem que trechos copiados de outros textos levem uma redação a uma nota alta, muito menos uma nota mil.

Isso porque o fato de algumas frases já terem sido incluídas em um texto bem sucedido não quer dizer que elas funcionam em qualquer texto, muito menos sem as devidas técnicas de conectar um parágrafo ao outro, ou sem conseguir transformar uma frase sobre um tema anterior de redação em outra que de fato tenha a ver com o tema da prova em que questão.

A competência 3, por exemplo, desconta pelo menos 80 pontos caso um estudante não comprove “indício de autoria” de seu texto. Já na competência 1, caso o corretor avalie que o candidato “tangenciou” o tema, apenas apresentando o assunto, mas sem desenvolvê-lo de fato, os descontos podem chegar a 160 pontos. Uma redação que some esses dois descontos e tire notas máximas nas demais competências chegaria a uma nota de 760 pontos.

Além disso, caso um corretor comprove plágio, o candidato pode estar sujeito, ainda, a ser investigado pela Polícia Federal por possível cola durante o exame, e o resultado seria a eliminação do Enem.

Foi o que aconteceu com um candidato da Bahia na edição 2017: alertados pelos avaliadores da redação, os policiais fizeram uma busca na casa dele e o homem confessou que burlou as regras do exame, acessou a internet pelo celular e copiou a sinopse de um livro sobre redação de surdos como se fosse sua redação sobre o tema “Desafios para a formação educacional dos surdos”.

“Redação publicada é redação morta”, resume Regiane Segantini, professora do 100% Redação. “É antiético ficar copiando redação nota mil. Principalmente se forem publicadas por sites que não o Inep.”

Segundo ela, os dois candidatos do Enem 2018 de seu curso que conseguiram a nota mil não divulgaram publicamente o espelho de suas redações. “Não quiseram dar publicidade porque o povo copia muito. É sem ética isso”, disse ela, afirmando que as redes sociais amplificaram muito o fenômeno de dicas – às vezes de procedência duvidosa – que acabam viralizando.

Regras do Enem ‘engessam’ redação

A sugestão de memorizar trechos de redações que tiraram notas altas em edições anteriores circula há anos entre perfis na internet que dão dicas de estudo, entre os colegas nas salas de aulas de escolas e cursinhos e, segundo especialistas e estudantes ouvidos pelo G1, são respaldadas até mesmo por alguns professores de redação.

Isso acontece, segundo Sharlene Leite, do Escrita Única Pré-Vestibular, porque as regras da correção do exame tentam ser o mais objetivas possíveis para evitar questionamentos sobre a isonomia do Enem. Por um lado, isso é positivo, porque são orientações fixas de correção que não mudam de um tema para o outro. “Isso é uma democratização do processo seletivo, porque os outros vestibulares lançam a planilha de correção só depois, com o que foi corrigido”, disse ela.

Porém, esse fenômeno acaba criando um modelo que pode engessar o processo de elaboração do texto. É aí que entram as famosas ‘decorebas’, tanto de citações de pensadores consagrados e considerados “coringa”, podendo ser encaixados em qualquer tema, quanto de frases inteiras.

“Isso leva o aluno a engessar o texto dele, o que não é bom”, afirma Rógi Almeida, do Curso do Professor Rógi, em Teresina. “O texto da Fuvest é muito mais dinâmico que a redação do Enem.”

Os perigos da memorização

Rógi afirma, no entanto, que uma notícia sobre uma das 77 redações nota mil do Enem 2016 acabou fazendo muitos docentes mudarem de ideia sobre recomendar a prática da memorização de trechos a seus alunos.

A redação foi escrita por uma estudante do Rio de Janeiro que tentava uma vaga em medicina. Sua prova, com o tema “Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil”, usou frases de duas outras redações já publicadas: uma do Enem 2015, sobre “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, e outra do Enem 2014, que trouxe o tema “Publicidade infantil em questão no Brasil”.

As duas redações anteriores, que tiraram, respectivamente, nota mil e 980 no Enem, estavam disponíveis na internet e estão entre os vários textos bem sucedidos no exame que são usados como modelos por milhões de candidatos.

A nota mil da estudante não foi suficiente para que ela conquistasse aprovação no vestibular e, por isso, ela retornou ao cursinho no seguinte. Apesar de não existir nenhuma proibição explícita ao plágio, a então presidente do Inep, Maria Inês Fini, considerou o episódio “lamentável”, e afirmou que pretenda adotar medidas para “dificultar” casos como esse.

A professora Regiane, de Franca (SP), diz considerar que estudante deu sorte de conquistar a nota mil. Segundo ela, ao se depararem com uma redação com nota máxima, muito candidatos “acham que é porque [o texto] colocou filosofia, porque citou uma frase. E não, é um todo. Eu acho que [copiar trechos] não chega a lugar nenhum, vai conseguir um Frankenstein. Por mais que decore coisas, você não vai conseguir tirar nota, porque tem que ter lógica”, explica.

Desde o episódio, os professores dizem que a correção do Enem, apesar de não ter feito grandes alterações nas regras, aumentou a exigência para se chegar à nota mil. Um dos exemplos é a competência 1: agora, não basta apenas escrever com quase nenhum erro de português, é preciso demonstrar um alto domínio da semântica.

Sharlene cita outro exemplo famoso de alteração das regras: o de candidatos que, para tentar provar que a correção do Enem era “aleatória”, incluíam trechos como receitas de miojo ou o hino de um clube de futebol. Em ambos os casos, os estudantes tiveram descontos por causa dos trechos, mas receberam nota nas competências que avaliam outras questões, como o domínio do português. No fim, nenhum tirou nota alta.

“A parte do miojo era contabilizada como ‘linhas não escritas’. Os corretores corrigiram de acordo com o edital. Até mesmo os vestibulares mais valorizados no mundo sempre primam por olhar o que o aluno tem de maior qualidade, e menosprezar o que ele errou. Só que no Brasil as pessoas avacalharam o edital”, explicou ela.

Por causa da polêmica criada com o caso, o Enem mudou as regras e, agora, esse tipo de desvio é considerado “deboche”, e a prova leva nota zero.

“A tecnologia de correção vai se adequando”, explica Sharlene Leite, do Escrita Única Pré-Vestibular. “Quando eu quero ter o prestígio sem o mérito, as regras vão mudando para omitir isso.”

Dica é trocar a ‘decoreba’ pelo repertório

Apesar da maior conscientização por parte dos professores, o “vício da decoreba” ainda está internalizado em grande parte dos candidatos se preparando para o Enem. Sharlene Leite compara esse hábito às dietas milagrosas. “Assim como as pessoas querem emagrecer de uma semana para a outra, os alunos veem na internet um manual com não sei quantas citações”, diz ela.

Rógi também afirma que alguns de seus alunos também chegam à sala de aula com o mesmo vício das frases prontas.

“Vez ou outra aparece aluno com texto já montado. Eu tenho que desconstruir, para que ele tenha mais autonomia de escrita. Isso acaba bitolando o raciocínio do aluno, vou quebrando aos poucos. Tendo autonomia, você tem capacidade de lidar com qualquer tema”, explica o professor Rógi Almeida.

A alternativa apontada pelos três professores é que cada candidato se prepare construindo seu próprio repertório. Conhecer e apresentar as ideias de um pensador famoso na redação, por exemplo, pode servir melhor do que simplesmente encaixar uma de suas frases decoradas.

Eles lembram que o Inep espera do estudante um “projeto de texto”, ou seja, uma estrutura que mostre que o tema foi pensado e o texto foi previamente planejado.

“Citar, decorar um monte de citação de autores para tudo, a cada edição isso se faz mais ineficiente”, diz Sharlene. “E a qualidade do texto se reforça na leitura de mundo do próprio aluno em relação ao tema, como ele vê na vida dele esse tema se manifestar. Isso é muito legal, acho muito emancipador.”

ENEM 2019 – 1º DIA

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