Fingiu doenças terminais da filha e depois deixou-a morrer

Correio do Pantanal

23 out 2019 às 17:12 hs
Fingiu doenças terminais da filha e depois deixou-a morrer

Parecia uma história de amor e solidariedade como várias outras. Uma mãe que procurava doações para cobrir os tratamentos médicos para a filha, com várias doenças sem cura. Mas a história era outra. A mulher fingiu que a menina estava doente e aproveitou-se disso. Depois, deixou-a morrer.

Kelly Renee Turner, de 41 anos, foi detida na passada sexta-feira num hotel no sul de Denver, cidade do estado norte-americano de Colorado. É acusada de 13 crimes, incluindo homicídio, abuso infantil, roubo, fraude de caridade e falsificação. O comunicado de imprensa da autoridade local diz tratar-se de um caso “extremamente emocional” para os agentes. A filha de Kelly, a pequena Olivia Gant, tornou-se uma celebridade no Colorado e uma das suas paixões era a polícia.

Olivia, de sete anos, era uma criança que supostamente sofria de várias doenças terminais. A mãe começou a pedir ajuda e promoveu a “lista de sonhos” da menina, que acabou por morrer em agosto de 2017, em circunstâncias suspeitas.

Em abril desse ano, a história de Olivia não deixou ninguém indiferente. Uma menina de seis anos na altura, com uma doença terminal, tinha escrito uma lista de aventuras que queria fazer antes de morrer, como, por exemplo, “apanhar os maus” com a polícia. O Departamento de Polícia de Denver cumpriu o seu desejo. Vestiram-lhe o uniforme, levaram-na em patrulha e nomearam-na chefe por um dia. Olivia também apareceu na televisão. Nas notícias do “Denver Post” daquele dia, a mãe disse: “Não sabemos quanto tempo lhe resta”.

Meses antes, uma organização de caridade conseguiu realizar outro sonho de Olivia: uma festa na qual se vestiu de “Bat Princess” (princesa-morcego) e lutou contra os vilões. O evento custou mais de 11 mil dólares (quase 9900 euros) arrecadados com doações.

Mãe conseguiu 18 mil euros em doações

A mãe afirmava que a filha sofria de uma doença chamada encefalopatia neurogastrointestinal. Para cobrir os tratamentos médicos, criou uma página na plataforma “GoFundMe”, para angariar dinheiro. De acordo com a acusação, Kelly Turner conseguiu juntar mais de 20 mil dólares (cerca de 18 mil euros) para Olivia. A página “Peace4Olivia”, criada em 27 de julho de 2015, já não está disponível. A investigação apurou, através de mensagens no Facebook, que Kelly começou a anunciar as supostas doenças da filha em 2011, quando ela tinha apenas 13 meses.

A acusação não especifica as circunstâncias da morte de Olivia, mas apresenta uma série de entrevistas com 11 médicos que afirmam que a menina não se encontrava em estado terminal e que a mãe não deveria ter parado o tratamento médico da filha. Em agosto de 2017, a mãe exigiu que os médicos parassem de alimentar Olivia através de uma sonda, para que ela pudesse morrer em paz, uma vez que tinha má qualidade de vida. Olivia morreu nos cuidados paliativos, supostamente por uma falha intestinal, em 20 de agosto desse ano.

Um dos médicos questionados na investigação recordou que Kelly afirmava que a filha estava a rejeitar a alimentação pela sonda, algo que na verdade não acontecia. Ele recomendou que a dependência da sonda fosse diminuída pouco a pouco, mas a mãe recusou e também ordenou que nenhuma tentativa fosse feita para reanimar a menina.

Outro médico explicou que nenhum dos diagnósticos de Olivia era terminal e que não havia necessidade de a deixar de alimentar. As doenças de Olivia eram parcialmente reais e parcialmente inventadas. Um dos médicos disse ter ficado “em choque” quando soube que a mãe tinha retirado o tratamento e que Olivia tinha morrido. Todos os médicos questionados afirmam que não era um caso terminal e que a mãe rejeitou todos os tratamentos alternativos propostos. O seguro público Medicaid gastou cerca de 538 mil dólares (por volta de 483 mil euros) nos tratamentos de Olivia.

Depois da morte de Olivia, tentou o mesmo com a filha mais velha

A investigação do caso só começou em outubro de 2018, mais de um ano após a morte da menina. Nessa altura, Kelly levou a outra filha, a irmã mais velha de Olivia, ao hospital, dizendo que a criança tinha dores nos ossos devido a um cancro. A mãe disse ainda que a filha tinha sido tratada no Texas, mas mudaram-se para o Colorado à procura de melhores tratamentos para ela e para Olivia. O médico que a atendeu suspeitou da história e telefonou aos colegas no Texas, que o informaram que a menina nunca tinha tido cancro.

Quando o médico informou o Departamento de Serviços Sociais, investigadores começaram a recolher informações sobre Kelly Turner nas redes sociais sobre supostas doenças que a filha não tinha. Foi então que perceberam que a filha mais nova, Olivia, tinha morrido no ano anterior. Os médicos disseram aos investigadores que temiam que Kelly Turner tivesse falsificado as doenças e submetido a filha a tratamentos desnecessários.

Em 28 de novembro de 2018, os restos mortais de Olivia foram exumados como parte da investigação. O médico legista fez uma autópsia, mas afirmou que não havia forma de determinar falhas intestinais ou qualquer outra doença que a mãe relatava. Disse ainda que não poderia determinar a causa da morte.

Interrogada pelas autoridades, Kelly terá dito espontaneamente que não sofria de síndrome de Munchausen, uma doença mental em que a pessoa encarregada de uma criança inventa doenças e causa sintomas. Não lhe foi feita essa pergunta, mas Kelly disse: “Esse nunca foi o meu caso. Pode perguntar a qualquer um que esteve ao meu lado durante tudo isso”.

No final, a mulher admitiu ter inventado as doenças da filha mais velha. No entanto, nunca confessou nada sobre as doenças de Olivia.

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