Suspeito de matar por engano filho de ex-PM a mando da milícia já tinha condenação por execução de delegado aposentado

Correio do Pantanal

7 out 2019 às 11:07 hs
Suspeito de matar por engano filho de ex-PM a mando da milícia já tinha condenação por execução de delegado aposentado

Ex-guarda municipal de Campo Grande José Moreira Freires estava, inclusive, sendo monitorado por tornozeleira eletrônica, o que o ligou a morte do Matheus Xavier; ele está foragido.

Por G1 MS

José Moreira Freires, o "Zezinho", é suspeito de participação da morte de estudante e já foi condenado pela execução de delegado aposentado — Foto: Garras/Divulgação

José Moreira Freires, o “Zezinho”, é suspeito de participação da morte de estudante e já foi condenado pela execução de delegado aposentado — Foto: Garras/Divulgação

A Polícia Civil aponta que um dos integrantes da milícia da organização criminosa do jogo do bicho que agia em Mato Grosso do Sul, e que é suspeito de participar da morte por engano do filho de um ex-policial militar, já tinha uma condenação por crime de “pistolagem” no estado.

Segundo relatório do Grupo Armado de Repressão a Roubo a Banco e Resgate a Assaltos e Sequestros (Garras), o ex-guarda municipal de Campo Grande, José Moreira Freires, o “Zezinho”, de 45 anos, foi condenado em 15 de agosto de 2018, a 18 anos de prisão pela morte do delegado aposentado Paulo Magalhães.

Magalhães foi morto em 25 de junho de 2013, perto da escola da filha, no bairro Jardim dos Estados, em Campo Grande. Segundo a polícia, o delegado aposentado estava no carro dele esperando a menina sair da escola quando foi executado com diversos tiros. Ele era polêmico e mantinha um site de denúncias.

Entretanto, antes mesmo de ser condenado pela morte do Magalhães, “Zezinho”, já tinha conseguido um habeas corpus concedido pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJ-MS). A ordem judicial assegurava que permanecesse em liberdade até que o caso fosse julgado em segunda instância, desde que não se ausentasse da cidade, não saísse de casa à noite e fosse monitorado por tornozeleira eletrônica.

Esse monitoramento, inclusive, ajudou o Garras a ligar “Zezinho” a morte do estudante Matheus Xavier, de 19 anos. O jovem foi assassinado no dia 9 de abril deste ano, com tiros de fuzil AK-47, no bairro Jardim Bela Vista, em Campo Grande, quando manobrava a caminhonete do pai, o ex-capitão da Polícia Militar, Paulo Roberto Xavier.

O estudante Matheus Xavier, de 19 anos, foi morto no dia 9 de abril deste ano, com tiros de fuzil AK-47, no bairro Jardim Bela Vista, em Campo Grande, — Foto: Reprodução/Redes Sociais

O estudante Matheus Xavier, de 19 anos, foi morto no dia 9 de abril deste ano, com tiros de fuzil AK-47, no bairro Jardim Bela Vista, em Campo Grande, — Foto: Reprodução/Redes Sociais

Com base nos dados do monitoramento do equipamento, fornecidos pela Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário (Agepen), se descobriu que “Zezinho” esteve bem próximo a casa de Xavier.

Nos dois crimes, a polícia aponta que os suspeitos usaram um modo de operação semelhante. No caso do delegado aposentado, a sentença destaca que a vítima foi monitorada por alguns dias por “Zezinho” e o outro suspeito de envolvimento no crime – que acabou sendo absolvido, o que culminou com a ação na frente da escola, em pleno dia.

Já no caso do estudante, a investigação do Garras reitera que o verdadeiro alvo era seu pai, o ex-capitão da Polícia Militar. Segundo o apurado, “Zezinho” e outro suspeito pelo crime, o também ex-guarda municipal Juanil Miranda Lima, chegaram a contratar um hacker para conseguir acesso remoto ao celular de Paulo Roberto Xavier e ter a localização exata do ex-policial militar. Ele estava dentro da casa, quando o filho acabou sendo morto.

Caminhonete onde estava o estudante Matheus Xavier — Foto: Divulgação / Arquivo pessoal

Caminhonete onde estava o estudante Matheus Xavier — Foto: Divulgação / Arquivo pessoal

Os dois têm prisão preventiva decretada pela Justiça e estão foragidos. Na terça-feira (1º), a força tarefa que investiga o grupo, ofereceu uma recompensa, no valor inicial de R$ 2 mil, por qualquer informação que leve ao paradeiro dos dois suspeitos.

Motivação do crime

Segundo relatório do Garras, o ex-policial militar Paulo Roberto Xavier era o verdadeiro alvo da organização criminosa na execução que resultou na morte do seu filho.

A investigação aponta que o homem apontado como chefe da organização criminosa, o empresário Jamil Name, acreditava que Paulo Roberto Xavier tinha se aliado a um advogado, com quem ele tinha tido um desacordo em negociação de fazendas que pertenceram ao reverendo Moon localizadas em Jardim e em Campo Grande.

Por conta do revez nos negócios, Jamil Name, conforme o relatório da polícia, teria dado ordem para matar o advogado, a esposa dele e seu filho, além do ex-policial militar.

O advogado de defesa da família Name, Renê Siufi, disse ao G1 que as acusações de que seus clientes lideram a organização criminosa é uma “piada” e que está sendo apresentada somente a versão do Ministério Público. Disse que em juízo, Jamil Name e Jamil Name Filho, apresentarão os esclarecimentos necessários.

Em relação a acusação de que Jamil Name teria dado a ordem para matar o ex-policial militar Paulo Roberto Xavier, disse que não sabe nada a respeito e que seus clientes negam qualquer envolvimento com esse e outros crimes.

Paulo Roberto Xavier, de acordo com a investigação, já era conhecido da família Name. Ele tinha, inclusive, trabalhado como segurança do segundo homem na hierarquia do grupo criminoso, Jamil Name Filho. Foi o ex-policial militar que presenciou a briga entre ‘Guri’, como era conhecido Name Filho, e o empresário Marcelo Colombo, o ‘Playboy’, em uma boate em Campo Grande, em 2013.

Testemunhas e investigados relataram à polícia, que por conta dessa briga, que começou porque Colombo pegou um pedaço de gelo no balde de bebidas de Name Filho, e terminou com ‘Playboy’ empurrando o rosto de ‘Guri’, teria sido dado a ordem de execução do empresário. Colombo foi morto no dia 18 de outubro de 2018, em um bar em Campo Grande.

Mesmo com a prestação de serviço para os Name, a investigação do Garras, aponta que o ex-policial militar entrou na alça de mira da família.

“Solidariedade” da milícia

Paulo Roberto Xavier disse durante a investigação, que no dia seguinte a morte do seu filho foi procurado por um policial civil, que trabalharia também para a família Name. Esse intermediário disse que Jamil Filho queria conversar ele.

No encontro, de acordo com a investigação, Guri disse ao ex-policial que iria ampará-lo. Que daria apoio para que ele saísse da cidade e procurasse um local seguro. Disse ainda que iria ajudar o pai do estudante com uma mesada, todos os meses. Orientou ainda que o Paulo Roberto Xavier ficasse fora da cidade por pelo menos dois anos e que depois poderia voltar.

O pai do jovem morto disse que achou estranho, porque já há algum tempo não falava com a família e, à princípio, diz no relato aos investigadores, que não suspeitou que o grupo pudesse ter relação com a morte do seu filho. Somente depois, ele disse que começou a ligar os fatos e concluiu que eles tinham envolvimento no crime.

Segundo os investigadores, a morte por engano também foi sentida dentro da organização. Uma testemunha relatou que o guarda municipal Marcelo Rios, que seria o responsável por contratar os executores “ficou desesperado” na semana do crime. Não dormia, não comia e chegou a falar que a “cabeça dele iria rolar”.

Rios foi preso um mês depois do assassinato do estudante, no dia 19 de maio, em uma casa da família Name no Jardim Monte Líbano, com um arsenal. Foram apreendidos 18 fuzis de calibre 762 e 556, espingarda de calibre 12, carabina de calibre 22, além de 33 carregadores e quase 700 munições.

Armas apreendidas no arsenal da milícia do jogo do bicho em Campo Grande — Foto: Polícia Militar/Divulgação

Armas apreendidas no arsenal da milícia do jogo do bicho em Campo Grande — Foto: Polícia Militar/Divulgação

A operação que levou a desarticulação da organização criminosa foi realizada na sexta-feira passada (28 de setembro), por uma força tarefa formada pelo Garras, Gaeco, Choque e outras unidades policiais. Na ação foram presos o empresário Jamil Name e seu filho, Jamil Name Filho, quatro policiais civis, um policial federal, um militar do Exército aposentado, um funcionário de Jamil Name e guardas civis de Campo Grande, entre outros.

A representação que fundamentou os pedidos de prisão e de busca e apreensão, o Gaeco afirma que Jamil Name e Jamil Name Filho são os lideres da milícia e reforça essa argumentação apontado que a casa onde foi apreendido o arsenal pertence a família Name. Além disso, na casa onde estavam as armas foram encontrados bonés com câmeras ocultas, que tinham várias gravações que foram recuperadas pela perícia que citavam o nome de Jamil Name ou onde ele aparecia nas imagens.

ATENÇÃO: Comente com responsabilidade, os comentários não representam a opnião do Jornal Correio do Pantanal. Comentários ofensivos e que não tenham relação com a notícia, poderão ser retirados sem prévia notificação.

%d blogueiros gostam disto: