Gabriel. Menino esteve em agonia 45 a 90 minutos e foi enterrado pela madrasta
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Correio do Pantanal

11 set 2019 às 05:50 hs
Gabriel. Menino esteve em agonia 45 a 90 minutos e foi enterrado pela madrasta

O corpo de Gabriel, de oito anos, foi encontrado na bagageira do carro em que seguia a madrasta, Ana Julia Quezada, que começou esta segunda-feira a ser julgada. O crime que chocou Espanha ocorreu no final de fevereiro do ano passado

Ana Julia Quezada começou a ser julgada pela morte do enteado, Gabriel Cruz, de oito anos© EPA/Carlos Barba

DN

“Total falta de escrúpulos”, ouviu-se esta segunda-feira no tribunal de Almería sobre Ana Julia Quezado, a autora confessa da morte de Gabriel Cruz, de oito anos. O crime aconteceu no final de fevereiro do ano passado e chocou Espanha. Ao 12º dia sem se saber do seu paradeiro, o corpo da criança foi encontrado na bagageira do carro em que seguia a madrasta, que começou esta segunda-feira a ser julgada.

As palavras foram proferidas por Francisco Torres, advogado da família da criança, ao garantir que Ana Julia Quezado deixou Gabriel Cruz a agonizar “entre 45 a 90 minutos”, depois de lhe ter desferido os primeiros golpes”. Decorrido esse tempo, a mulher, de 45 anos, de origem dominicana, asfixiou o menino, assegurou Torres durante a audição.

Durante esse período, “Gabriel podia ter sido salvo com apenas uma chamada para os serviços de urgência”, afirmou o advogado perante um tribunal de júri composto por nove pessoas. Francisco Torres afirmou mesmo que “não há ninguém tão mau como a acusada“, que na altura do crime era a namorada de Ángel Cruz, pai da criança.

Depois de agredir a criança com a “parte romba” de um machado – em legítima defesa, garantiu na altura da detenção -, Ana Julia Quezado “fumou uns cigarros, pintou uma porta e, passado uma hora, viu que ainda respirava e então asfixiou-o”, acusou o advogado da família.

A acusada participou nas buscas e chegou a dar entrevistas sobre o desaparecimento de Gabriel Cruz.

Acabou por ser detida depois de se deslocar à fazenda em Rodalquilar, em Almería, no sul de Espanha, onde estava a construir uma casa com o companheiro. A polícia viu-a a desenterrar algo na propriedade que colocou na bagageira do carro. Os agentes intercetaram o veículo em que seguia a madrasta da criança e encontraram o corpo de Gabriel na mala.

Os motivos do crime

A autópsia revelou que Gabriel morreu asfixiado, por estrangulamento, no próprio dia em que desapareceu.

De acordo com o advogado da família, a mulher teve dois motivos para cometer o crime. “O primeiro, económico: a propriedade [onde a criança morreu e foi enterrada] vale cerca de 500 mil euros”, afirmou Torres. O segundo motivo estava relacionado com o facto de considerar que Gabriel era um empecilho “porque o pai passava muito tempo com ele”.

A defesa de Ana Julia Quezada alega que se tratou de um homicídio involuntário. Uma argumentação que o advogado da família desmonta. “Se alguém mata imprudentemente, alguém chama a Guardia Civil”, ou liga para o número de emergência, “e não foi isso que ela fez”, disse Francisco Torres.

Esteban Hernández, advogado de Quezada, afirmou em tribunal que a sua cliente nunca pretendeu acabar com a vida da criança. “Entendemos que a sua intenção não era provocar ferimentos”, disse Hernández sublinhando que a morte de Gabriel Cruz não foi intencional.

Pormenores macabros

Como relata o El País, os factos apresentados pelo tribunal referem que no dia 27 de fevereiro de 2018, Quezada surpreendeu o menino quando este ia brincar com os primos perto da casa da avó em Níjar, também em Almería. Convenceu-o a entrar no seu carro para a acompanhar até à fazenda de Rodalquilar. Foi aqui que a criança “inocente” e “totalmente desprevenida” foi agredida “com violência” pela madrasta. Quezada tapou depois a boca e o nariz da criança com as suas mãos provocando-lhe a morte por asfixia.

Ainda de acordo com o tribunal, Quezada escavou um buraco na propriedade, com recurso a uma pá, onde enterrou a criança. O jornal espanhol refere que o braço esquerdo do menino não cabia no buraco e que, por isso, a madrasta tentou cortá-lo com um machado.

Acusação pede prisão perpétua

A defesa admite que o comportamento da acusada depois da morte da criança “foi infeliz”, mas “muito comum”. “Como é que diz ao seu companheiro que matou o filho dele?”, questionou o advogado Esteban Hernández.

A acusação pede a pena máxima permitida pela lei espanhola (prisão perpétua com revisão ao fim de 25 anos) e uma pena acessória de dez anos de prisão pelos danos psíquicos provocados aos pais.

A defesa de Quevada considera que deve cumprir uma pena máxima de 15 anos por homicídio involuntário.

A decisão será tomada por um tribunal de júri – nove pessoas que foram selecionadas a partir de um grupo inicial de 30. Para que Ana Julia Quezada seja declarada culpada é preciso que sete dos membros do júri concordem com esse veredicto. Para ser declarada inocente bastam cinco opiniões concordantes.

De acordo com o jornal espanhol El País , o julgamento deverá estender-se por nove sessões, até 18 de setembro, e vai concentrar novamente todos os holofotes mediáticos – estão guardados 50 lugares para os meios de comunicação social na sala onde vai decorrer o julgamento. Mas nem todas as sessões serão abertas.

O depoimento dos pais de Gabriel, previsto para esta terça-feira, bem como o da avó e de uma prima menor da criança, vão decorrer à porta fechada. O mesmo sucederá com a audiência onde serão ouvidos os médicos legistas, em que deverão ser revelados pormenores sobre a morte da criança. Os pais já emitiram um comunicado, intitulado Pacto de Ética pelo Sorriso de Gabriel, a pedir “sensibilidade e responsabilidade” na cobertura mediática do julgamento.

Junto ao tribunal de Almería estão de serviço 40 agentes da Polícia e 130 jornalistas acreditados.

Fora deste julgamento, mas a pairar sobre ele, está a morte de uma outra criança, de quatro anos, filha adotiva do ex-marido de Quezada, que morreu há 22 anos depois de cair por uma janela da casa onde morava. O caso chegou a ser investigado pela polícia, que acabou por considerar que se tratou de um acidente. Os pais de Gabriel Cruz têm tentado que este caso seja reaberto.

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