Nazismo no Brasil multiplica-se durante governo de Bolsonaro

Correio do Pantanal

9 nov 2020 às 20:01 hs
Nazismo no Brasil multiplica-se durante governo de Bolsonaro

Tomada de posse da nova governadora de Santa Catarina, aliada incondicional do presidente e filha de um adepto assumido de Hitler, acendeu o alerta. “Há um crescimento de 16% de movimentos desse tipo a cada trimestre”, revela a pesquisadora,

Uma suástica numa piscina de Santa Catarina.
Uma suástica numa piscina de Santa Catarina.

João Almeida Moreira09 Novembro 2020 — 21:12

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“Oseu pai, como professor de História, pregava em sala de aula o negacionismo do Holocausto judeu, inclusivamente utilizando livros de uma editora que foi condenada por contar mentiras sobre a Segunda Guerra Mundial. Agora que a senhora é governadora de Santa Catarina, qual é a sua posição: corrobora essas ideias?” A pergunta é de um jornalista, na tomada de posse de Daniela Reinehr no dia 29 de outubro.

“Eu realmente não posso responder, ser julgada ou condenada por esse ou aquele pensamento. Eu respeito as pessoas, independentemente do seu pensamento, eu respeito os direitos individuais, e qualquer regime que vá contra o que eu acredite, eu repudio. Existe uma relação e uma convicção que me move a mim e a todos que se chama família. E cabe-me, como filha, manter a relação familiar em harmonia”, reagiu ela.

Uma pergunta direta de um jornalista e uma resposta cheia de curvas de uma governadora devolveram o tema do nazismo no Brasil, em especial no estado de Santa Catarina, ao noticiário.

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Daniela Reinehr, incondicional de Jair Bolsonaro, acabara de substituir o governador Carlos Moisés, ex-aliado do presidente, afastado para responder a processo de impeachment. Moisés pertence ao PSL, partido com o qual Bolsonaro rompeu; Reinehr aguarda a formalização do Aliança Pelo Brasil, força criada em torno do presidente, para se alistar.

O terceiro protagonista desta história é o professor de José Altair Reinehr, o pai de Daniela, que publicou uma fotografia em frente à casa onde Adolf Hitler nasceu, em Braunau Am Inn, na Áustria, com uma legenda onde exaltava os 90% de apoio popular de que o ditador gozava, as rodovias construídas sob o seu consulado, a revitalização da indústria alemã, a criação de seis a sete milhões de empregos e a moralização dos serviços públicos.

Antes de Reinehr, outro professor do estado de Santa Catarina, Wandercy Pugliesi, foi notícia. Candidato nas municipais do próximo dia 15 a vereador na pequena cidade de Pomerode, é dono de uma propriedade em cuja piscina está pintada uma suástica gigantesca, conforme revelado em fotografia aérea.

A relação de Santa Catarina, estado colonizado por, entre outras comunidades, imigrantes alemães, com o nazismo existe ou não?

Para a antropóloga social da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) Adriana Dias, que o estuda o nazismo no Brasil há 18 anos, “a ligação de Santa Catarina à Alemanha não pode ser considerada a única razão para essa relação”.

“Não há desnazificação”

“Não é a principal causa, mas em Santa Catarina muitas regiões mantiveram a língua alemã, uma narrativa pro-hitleriana e um sentimento de uma Alemanha injustiçada”, começa por dizer. “Uma lei de Getúlio Vargas [presidente e ditador do Brasil de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954] proibiu a língua alemã, o que fez que as populações, algumas mesmo sem ter nada a ver com os nazis, se sentissem perseguidas por serem alvo de proibições, como essa, por decreto”, diz ao DN.

“Por outro lado, há muitas cidades pequenas no estado, fundadas antes dos grandes centros urbanos, onde existe um forte componente de fundamentalismo religioso, quer católico, com ligação ao movimento da renovação carismática, quer luterano, com forte influência do pensamento de Paul de Lagarde, um dos autores que mais inspiraram o nazismo, e uma outrofobia, sobretudo contra migrantes da região Nordeste, considerados sub-raça.” “Ou seja”, conclui a antropóloga, “em Santa Catarina, nalguns pontos, vive-se ainda na Europa dos anos 20.”

E essas características potenciam a simpatia pelo regime hitleriano. “Uma simpatia que jamais foi combatida, o governo de Santa Catarina jamais promoveu uma desnazificação, e não me parece que seja sob esta governadora que essa desnazificação se vai realizar”, acentua a pesquisadora.

“Ela disse que respeita os judeus e respeita também as ideias do pai. Isso não existe, não é uma questão de equivalência, não existe respeito a nazismo, a fascismo, a ideias totalitárias.”

“Acresce que proliferam professores, como o da suástica na piscina [Waldercy Pugliesi] ou o pai da governadora [Altair Reinehr], que negam o Holocausto, falando em apenas 200 mil judeus mortos, e por causa tifo, e isso acaba doutrinando não todos mas pelo alguns dos alunos porque, para se chegar a médico, advogado ou grande empresário, necessariamente tem-se de passar por aulas e por professores como eles, que incutem essas ideias da Alemanha injustiçada.”

Outra questão que se põe é se sob o governo de extrema-direita de Bolsonaro o nazismo vem crescendo. “Quando iniciei as minhas pesquisas, em 2002, havia 12 células, hoje há cerca de 350, e quando falo em células, não falo de nazis online, de pichações nos muros ou dos 500 mil brasileiros que leem o Mein Kampf, não. Células são núcleos organizados de quatro a 80 pessoas.”

“Com Bolsonaro, de um crescimento desses movimentos de 8% ao ano passamos a subidas em torno de 16% a cada trimestre, a cada quatro meses, a cada semestre… vai variando”, diz Adriana Dias.

“O fenómeno tem forte incidência em Santa Catarina mas há também nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e no Distrito Federal com características diferentes, há pessoas vindas da Ucrânia e da Rússia, adeptas de um outro neonazismo, mais corporal, mais violento, que incide no sul do país e também em Goiás, há imigrantes americanos confederados que o Brasil recebeu após a guerra da secessão ligados ao Ku Klux Klan que se fixaram nas regiões paulistas de Santa Bárbara d’Oeste e de Americana, há muitos tipos.”

Eleição de 2018 gerou pico histórico

Outros estudos complementam a pesquisa da antropóloga. A Safernet, organização não governamental (ONG) que vigia sites radicais, encontrou, em maio de 2020, 204 novas páginas de conteúdo neonazi, contra 42 em 2019 e 28 em 2018 nos meses homólogos. Em outubro de 2018, quando Bolsonaro venceu as eleições, o número de novas páginas neonazis em redes sociais e sites no Brasil chegou a 441, ante 89 no mês anterior – um pico histórico, afirma a ONG.

Em nota, citada na edição brasileira do jornal El País, a organização considera “inegável que as reiteradas manifestações de ódio contra minorias por membros do governo de Bolsonaro têm empoderado as células neonazis no Brasil”.

David Nemer, professor titular e pesquisador no Departamento de Estudos de Media na Universidade da Virgínia, especialista em Antropologia da Informática e autor do livro Favela Digital: O Outro Lado da Tecnologia, esteve por quase um ano inserido em quatro grupos de WhatsApp de apoiantes de Bolsonaro para entender o seu funcionamento.

Entre esses grupos, com motivações muito heterogéneas, identificou e batizou o mais radical como “supremacista social”, conforme contou ao DN em agosto de 2019. “Os seus membros estão menos interessados nos atos políticos diários do governo e mais no discurso de extrema-direita promovido pelo presidente e pelo seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro“, apurou.

“Eduardo promove a sua retórica usando técnicas condizentes com a propaganda de extrema-direita americana […] os supremacistas sociais compartilham conteúdo pró-armas, racistas, anti-LGBT, antissemita e anti-Nordeste.”

Bolsonaro nega com veemência relação com o neonazismo. Em entrevista ao DN de 2014, ainda enquanto deputado, ameaçou com processo judicial caso surgisse alguma referência a Hitler na peça jornalística.

Em 2011, entretanto, fora processado por racismo pela cantora Preta Gil após participação num programa de entretenimento. “Se o seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?”, perguntou-lhe a filha de Gilberto Gil. “Preta, não vou discutir promiscuidade com quer que seja. Eu não corro esse risco, os meus filhos foram muito bem educados e não viveram em um ambiente como, lamentavelmente, é o teu”, respondeu Bolsonaro. Quatro anos depois, o processo foi arquivado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).https://www.youtube.com/embed/lkZv3iyZdkA?enablejsapi=1&origin=https%3A%2F%2Fwww.dn.pt&widgetid=1

Um tribunal do Rio de Janeiro também arquivaria uma ação por danos morais movida contra o hoje presidente por, em discurso de pré-campanha eleitoral, ter dito que quilombolas (habitantes de quilombos, refúgios de escravos) pesavam “no mínimo 15 arrobas”, uma unidade de medida usada para animais.

O caso Roberto Alvim

Em 2011, membros brasileiros do site StormFront, fórum nacionalista branco americano, realizaram um “ato cívico” em prol do então deputado federal Jair Bolsonaro na Avenida Paulista. “Vamos dar o nosso apoio ao único deputado que bate de frente com esses libertinos e comunistas”, dizia a convocatória para o ato.

Na mesma Avenida Paulista, mas já neste ano, apoiantes do presidente empunharam bandeiras do grupo ucraniano radical Pravii Sektor (Setor Direito).

Dias depois, o presidente publicou nas redes sociais um vídeo com uma frase atribuída ao ditador fascista italiano Benito Mussolini: “É melhor um dia como leão do que cem como ovelha.”

Roberto Alvim foi substituído do cargo de secretário da Cultura pela atriz Regina Duarte após ler um discurso com citações do ex-ministro da propaganda nazi Joseph Goebbels ao som de uma ópera de Richard Wagner, o compositor preferido de Hitler.https://www.youtube.com/embed/3lycKFW6ZHQ?enablejsapi=1&origin=https%3A%2F%2Fwww.dn.pt&widgetid=2

A propósito do “desafio do leite”, proposto pela Associação Brasileira dos Produtores de Leite para fortalecer o setor, Bolsonaro brindou com um copo de leite durante uma das suas lives – não se sabe se houve intenção do presidente em usar um dos símbolos usados pelos supremacistas brancos, o copo de leite, mas a imagem foi partilhada com euforia em sites radicais.https://www.youtube.com/embed/2pAygZ18J6g?enablejsapi=1&origin=https%3A%2F%2Fwww.dn.pt&widgetid=3

Ainda enquanto candidato presidencial, Bolsonaro recebeu elogio público incómodo de David Duke, um dos líderes do Ku Klux Klan. “Ele soa como nós. E também é um candidato muito forte. É um nacionalista.” Dada a repercussão negativa, Bolsonaro recusou “qualquer tipo de apoio vindo de grupos supremacistas”.

A repercussão negativa – com protestos veementes de entidades ligadas ao judaísmo, por exemplo – também levou Daniela Reinehr a reagir, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, dias após a resposta equívoca na tomada de posse. “Discordo das posições do meu pai, mas o amo como filha”, escreveu, sob o título “não compactuo com o nazismo”.

Correspondente em São Paulo.

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