Bode pode ser ‘vilão’ da desertificação ou fonte de renda sustentável na caatinga
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Correio do Pantanal

22 ago 2019 às 23:33 hs
Bode pode ser ‘vilão’ da desertificação ou fonte de renda sustentável na caatinga

Para minimizar degradação do solo, criadores de caprinos e ovinos limitam o tamanho dos rebanhos, cercam áreas de preservação ambiental e aproveitam o esterco para espalhar sementes de plantas nativas.

Por Filipe Domingues, G1

O bode 'Pai do chiqueiro' é o animal dominante no rebanho e principal reprodutor. — Foto: Celso Tavares/G1

O bode ‘Pai do chiqueiro’ é o animal dominante no rebanho e principal reprodutor. — Foto: Celso Tavares/G1

É preciso muito cuidado antes de mexer com o bode dos outros no sertão nordestino: qualquer mal entendido pode dar confusão. Os caprinos e ovinos são, ali, um investimento sem igual. O bode é criado solto. Durante o dia, come à vontade das plantas da caatinga e, de noite, volta “de bucho cheio” para o chiqueiro. Quando um bode se perde, vizinhos cuidam do animal até que o dono seja localizado. De carne magra e rica em nutrientes, um bode alimenta muita gente. E a cabra dá bom leite.

A “cultura do bode” é parte da essência do sertanejo. Mas cresce a consciência de que os caprinos e ovinos devem ser aliados à preservação da caatinga, e não vilões da desertificação. Como são devoradores de plantas, superpopulações de animais não deixam a vegetação se regenerar. Com a elevação das temperaturas e chuvas mal distribuídas ao longo do ano, a degradação do solo pode ser irreversível.

Nesta edição do Desafio Natureza sobre a desertificação, o G1 foi até o sertão ver áreas degradadas, preservadas e em recuperação da caatinga. A desertificação é causada principalmente por eventos climáticos e pela ação humana.

Observamos, também, como a população local é afeiçoada ao bode. Por isso, muitos têm buscado técnicas para que essa importante fonte de renda e alimento seja mais sustentável.

Caprinos e ovinos no Brasil

De acordo com Iêdo Bezerra Sá, pesquisador da Embrapa Semiárido, o risco da desertificação causada por atividades agropecuárias é real na região Nordeste.

“O semiárido brasileiro tem solos predominantemente frágeis. E o solo é o substrato onde se faz a agricultura, a pecuária. Os solos se degradam com muita facilidade, principalmente quando estão descobertos, desmatados, ‘o solo nu’, como dizemos na linguagem técnica”, explica Bezerra Sá.

“Muitas vezes, o sertanejo é muito descapitalizado e não trabalha com técnicas. Não tem capacidade de repor o que retira do solo”, diz o pesquisador da Embrapa Semiárido.

É nesse contexto que entra o impacto ambiental da criação de caprinos e ovinos.

A carne de bode é magra e rica em nutrientes. O leite de cabra também é bastante usado na alimentação humana. — Foto: Celso Tavares/G1

A carne de bode é magra e rica em nutrientes. O leite de cabra também é bastante usado na alimentação humana. — Foto: Celso Tavares/G1

O Brasil produz, em média, 30,6 milhões de toneladas de carne de bode por ano e 78,8 milhões de toneladas de carne de ovelha, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Mas ainda estamos longe dos maiores produtores mundiais dessas carnes, que, para o bode, são China, Índia e Paquistão, e, para as ovelhas, são China, Austrália e Nova Zelândia.

De qualquer forma, o rebanho de caprinos (bodes, cabras e cabritos) vem crescendo no Brasil. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rebanho aumentou mais de 16% entre 2006 e 2017, totalizando 8,25 milhões de animais.

A maior parte do rebanho está justamente na região Nordeste: 7,66 milhões de cabeças. E são quase 334 mil estabelecimentos voltados à caprinocultura no país.

Já os ovinos (carneiros, ovelhas e cordeiros) totalizam 13,77 milhões de animais. Novamente, o Nordeste é a região com maior número de animais: 9,03 milhões de cabeças. O rebanho de ovinos teve uma pequena redução entre 2006 e 2017, de 2,8%, em todo o país.

Excesso de caprinos e ovinos pode agravar degradação da caatinga. — Foto: Celso Tavares/G1

Excesso de caprinos e ovinos pode agravar degradação da caatinga. — Foto: Celso Tavares/G1

O bode criado solto

Na chamada “pecuária extensiva”, comum no sertão nordestino, o animal é criado solto, geralmente não há grandes investimentos e áreas extensas são ocupadas. Os bodes, cabras, ovelhas e carneiros podem transitar livremente entre vilarejos, casas, fazendas e terras públicas.

É muito comum encontrar esses animais à beira de estradas – o que requer atenção redobrada dos motoristas para evitar atropelamentos.

Já na “pecuária intensiva”, menos comum na região, os animais ficam presos em uma área menor e são engordados em cativeiro, há uso de procedimentos tecnológicos e maior custo de produção.

Zootecnista e pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos, Rafael Gonçalves Tonucci explica que, ao longo das décadas, o solo da caatinga sofreu uma “pressão de pastejo”.

Caprinos e ovinos criados soltos se alimentam da vegetação nativa da caatinga. — Foto: Celso Tavares/G1

Caprinos e ovinos criados soltos se alimentam da vegetação nativa da caatinga. — Foto: Celso Tavares/G1

Nos tempos do Brasil colônia, a criação de bovinos era mais frequente, especialmente às margens do Rio São Francisco, uma vez conhecido como “Rio dos Currais”. Mas, com o passar dos anos, percebeu-se que os caprinos e ovinos são mais resistentes ao clima seco.

“É muito animal comendo uma vegetação sensível. Mas não é o caprino ou ovino que degrada a terra, mas o mau manejo dessa cultura. O que causa a degradação é uma quantidade muito grande de animais na mesma área”, diz Rafael Gonçalves Tonucci, da Embrapa Caprinos e Ovinos.

Em outras palavras, a superpopulação, ou o chamado “superpastoreio”, contribui com o desmatamento da caatinga e, gradualmente, com o processo de desertificação.

Carência técnica

Questionado pelo G1 sobre os impactos ambientais dos caprinos e ovinos na caatinga, o Ministério da Agricultura respondeu que “a criação extensiva de ovinos/caprinos no sertão nordestino é uma prática histórica, que requer a implantação de boas práticas agropecuárias”.

Isso envolve o manejo sanitário (aplicação de vacinas e acompanhamento veterinário) e a diversificação da dieta dos animais, para que possam também ser criados presos e ganhem mais peso.

“É possível dar ao animal outras fontes de alimentação, para que ele não tire da caatinga tudo o que precisa. Mas isso é caro, custa dinheiro para o pequeno produtor”, diz Rafael Gonçalves Tonucci, da Embrapa Caprinos e Ovinos

Rações de milho, por exemplo, poderiam ser uma forma de suplemento alimentar. Para reduzir esse custo, já é comum dar aos animais a palma forrageira, uma espécie de cacto típico de zonas áridas e semiáridas.

Palma forrageira, planta presente no cerrado e na caatinga — Foto: Patrícia Andrade/G1

Palma forrageira, planta presente no cerrado e na caatinga — Foto: Patrícia Andrade/G1

Segundo o diretor do Departamento de Desenvolvimento de Cadeias Produtivas do ministério, Orlando Melo de Castro, a pasta “propõe um novo modelo de produção mais tecnificado”.

O Plano Agro Nordeste, que está em elaboração pelo governo, prevê “redução do modelo de criação extensiva para um modelo mais intensivo e com garantias de maior produtividade e renda para o produtor, e consequente redução da degradação ambiental”.

O capim pode faltar

O bode é um animal explorador, “sabido”, como diz o sertanejo. É capaz de buscar alimento tanto no alto das árvores quanto embaixo da terra. Por isso, para conservar a caatinga, é essencial isolar algumas áreas e impedir a sua presença. No sertão, o bode já não pode mais viver a sua liberdade sem regras.

“A gente já teve experiência com algumas pessoas que tiveram problemas por conta da estiagem, o capim não deu, e perderam muitos animais”, conta o produtor Gilberto Nascimento Guimarães, de Canudos (BA).

Detalhe do solo rochoso em uma área desertificada em Canudos (BA) — Foto: Celso Tavares/G1

Detalhe do solo rochoso em uma área desertificada em Canudos (BA) — Foto: Celso Tavares/G1

Ele diz que, cada vez mais, as associações de produtores ensinam que é preciso conservar áreas de caatinga para minimizar as dificuldades vividas em época de seca.

“Estamos trabalhando para manter a caatinga em pé, porque isso sustenta o caprino e o ovino. A gente vai vendo que o que vale é a qualidade do animal, e não a quantidade. Quem quer criar muito, acaba perdendo muito também”, diz Gilberto Nascimento Guimarães, produtor agropecuário.

José Moacir dos Santos, técnico agrícola e sócio-fundador do Instituto Regional de Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), observa que os animais comem tanto as plantas rasteiras quanto as mudas de novas árvores.

“Os animais soltos causam uma degradação da caatinga porque vão tornando a vegetação mais rala. As plantas novas que surgem são comidas e não há uma renovação”, afirma . “Dessa forma, aquela planta velha que morre não tem uma sucessora”, diz.

Portanto, ele ensina formas mais eficientes de conter os impactos do bode na caatinga:

  1. Conscientizar a população sobre a conservação do bioma e sua participação no controle climático.
  2. Reduzir o número de cabeças por área (no máximo um animal por hectare).
  3. Cercar áreas a serem recuperadas: a cerca de arame liso com 10 fios é a mais eficiente e tem melhor custo-benefício (foto abaixo).
  4. Usar o esterco do animal como adubo e difusor de sementes nas áreas preservadas ou em recuperação.
  5. Plantar espécies que crescem mais do que 2 metros, como o umbuzeiro e o juazeiro.

Outras plantas muito usadas nesse processo são a macambira (uma bromélia) e diferentes tipos de cactos. Essas espécies têm espinhos e ajudam a proteger outras plantas mais suscetíveis ao bode.

Áreas cercadas ficam protegidas da presença do bode na vegetação da caatinga e podem ser preservadas. — Foto: Celso Tavares/G1

Áreas cercadas ficam protegidas da presença do bode na vegetação da caatinga e podem ser preservadas. — Foto: Celso Tavares/G1

A macambira é uma das plantas usadas pelos produtores da caatinga para proteger outras mais vulneráveis. — Foto: Celso Tavares/G1

A macambira é uma das plantas usadas pelos produtores da caatinga para proteger outras mais vulneráveis. — Foto: Celso Tavares/G1

Evitar o extrativismo e diversificar

Rafael Gonçalves Tonucci, da Embrapa Caprinos e Ovinos, alerta que o maior risco da criação de caprinos e ovinos no semiárido é o de se apresentar como uma forma de “extrativismo”.

“Se você só tira, uma hora a vegetação acaba mesmo. Temos que reduzir essa pressão de pastejo, deixar essa vegetação se recompor, e ela vem”, conta. “Algumas vezes o animal é até um facilitador: come aqui e defeca lá, e assim leva as sementes das plantas. Desde que essa pressão de pastejo seja ajustada.”

Produtor Alcides Peixinho participa do projeto 'Recaatingamento', que procura preservar a caatinga. — Foto: Celso Tavares/G1

Produtor Alcides Peixinho participa do projeto ‘Recaatingamento’, que procura preservar a caatinga. — Foto: Celso Tavares/G1

O produtor Alcides Peixinho, de Uauá (BA), concorda que é preciso manter o bode sob controle. E compreender que a criação desses animais não deve ser a única fonte de recursos da população do semiárido. É possível plantar árvores frutíferas, estocar água em lagos artificiais (aguados ou barreiros) e diversificar a agricultura.

“O bode é um animal que come de tudo que é de folhagem. Através da falta da caatinga, o clima esquenta mais, fica mais árido mesmo. Por isso, o bode é uma ajuda pra gente, mas a gente não pode ter só essa ajuda. A gente não pode se concentrar só no bode”, completa ele, que investe na preservação de áreas da caatinga e, no quintal de casa, planta mandacaru para uma empresa de cosméticos em São Paulo.

Área de caatinga preservada no Parque Nacional da Serra da Capivara. — Foto: Celso Tavares/G1

Área de caatinga preservada no Parque Nacional da Serra da Capivara. — Foto: Celso Tavares/G1

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