Após 48 anos, “sorte” faz mãe e filha se reencontrarem no aniversário

Correio do Pantanal

6 jan 2021 às 07:57 hs
Após 48 anos, “sorte” faz mãe e filha se reencontrarem no aniversário


O 1° dia de 2021 foi de surpresa inesquecível para mãe e filha que se reencontraram após quase 5 décadas
Por Raul Delvizio | 05/01/2021 06:43
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Pela 1ª vez em 48 anos, mãe e filha puderam comemorar aniversário juntas (Foto: Arquivo Pessoal)
O 1º de janeiro de 2021 veio como o melhor dos presentes para Cleusa de Freitas Candido, 73 anos, e sua filha Sandra Leny Angelo dos Santos, 48. As duas se reencontraram após 48 anos distante e tiveram a sorte de celebrar o aniversário juntas no mesmo dia. Agora, com o relógio do tempo restaurado e a distância encurtada ao passo de um abraço, a incerteza finalmente vai ficar no passado.

O reencontro ocorreu no primeiro dia deste ano, exatamente a data de aniversário para elas duas – só que Sandra só foi descobrir isso ao visitar a mãe em sua casa em Campo Grande. Cantando “parabéns” e cortando juntas o bolo, a filha entregou à mãe o mais simbólico dos presentes que só ela mesma poderia dar: o abraço.

“Este, sem sombra de dúvida, é o ano mais feliz que já tive na vida”, admite Cleusa. “Agora sim me sinto livre, solucionada”, acrescentou a filha.

Aqui, com a família reunida (Foto: Arquivo Pessoal)
Além de conhecer seus 5 irmãos e também seu pai biológico, Sandra deu um fim aos fantasmas do passado. Em uma conversa franca, as duas mulheres puderam resolver o lamento guardado cada uma no seu coração.

O ano era 1973. No município de Nioaque, Sandra “Elenir” Wider só tinha 10 meses de idade quando Cleusa a entregou aos cuidados de Esmeralda, sua amiga de maior confiança à época. Até então sem filhos, a agora mãe adotiva pôde realizar o sonho de cuidar de uma criança para chamar de sua. No mesmo dia, a mãe biológica se muda para Maracaju junto aos outros filhos. Relembrando aquele tempo, Cleusa não poderia alegar outro motivo.

“Sentíamos fome. Eu não tinha casa própria, não havia estudado, não tinha comida na mesa todos os dias para alimentar meus pequenos. Passávamos muitas dificuldades. Eu fugi de casa aos 14 anos e me casei com o pai dos meus filhos – acabei tendo cada um deles em ‘escadinha’ – mas hoje nem mais casada eu sou. Foram tempos difíceis. Sempre trabalhei na lavoura e contei com a ajuda dos outros, inclusive de Esmeralda. Sei que pode parecer uma justificativa fraca, mas eu me sinto culpada desde então”, assume.

Dona Cleusa afirma nunca ter perdido as esperanças nas orações (Foto: Paulo Francis)
Quando Cleusa foi parar em Maracaju, Esmeralda e seu esposo se mudaram com Sandra para a região de Cerro Corá, na fronteira com o Paraguai. “Acho que foi o medo de me perder”, reflete a filha sobre a decisão dos pais adotivos. Os anos passaram e as duas mulheres nunca mais se viram, muito menos Cleusa pôde descobrir o paradeiro da sua filha, que já nessa ocasião havia perdido o sobrenome e até foi “rebatizada” com uma nova data de aniversário – afinal, ninguém imaginava qual seria a verdadeira.

“Fiquei desesperada quando soube que havia perdido Sandra. Fui muito julgada. Se abandonei foi por uma questão de necessidade. Até hoje nunca tive informações suficientes ou condição financeira para procurá-la. Só podia conversar com Deus à noite e rogar para que ele atendesse as minhas orações, que ela estivesse bem”, afirma a mãe biológica.

Do Paraguai, Sandra foi parar no estado de Alagoas – terra natal dos pais adotivos –, no município de Lagoa da Canoa. Já com 17 anos, ela e sua família se mudaram para a capital de São Paulo para tentar a sorte na vida. “Pulávamos de casa em casa. Muito parente nos ajudou para que a gente não passasse fome”, relembra. Acabou que em SP ela estudou, casou e teve um filho. E deu seu jeito para se estabilizar e melhorar de vida. Atualmente, ela abandonou a cidade grande para a pequena Irecê, na Bahia, há 9 anos.

Sandra não guarda nenhuma mágoa sobre toda essa história (Foto: Arquivo Pessoal)
“Nunca é tarde para se ter esperança”, considera. Por mais que seus pais adotivos sempre foram muito abertos com relação à história de como ela foi parar naquela família, Sandra continuava com as mesmas dúvidas do seu passado. “Era uma curiosidade, até uma mágoa misturada com raiva mesmo que eu precisava solucionar. Hoje não mais”.

“Meus pais sempre me deram força: ‘fia, vai atrás deles que também são sua família’, costumavam dizer. Eu procurava de tudo que era jeito. Mandei cartinha pro Faustão e até pro Luciano Huck. Entrava nesses sites de busca de pessoas perdidas e colocar meu testemunho. Na época do Orkut, cheguei a participar de muitas comunidades e fiz dezenas de ligações – até mesmo para Nioaque – achando que estava na trilha certa”, lamentava à época a cada procura em vão. Mas para ela, tudo tinha uma razão de ser.

Sandra sabia poucas informações do seu passado que sua mãe Esmeralda a confidenciava, porém suficientes para uma busca. Só foi em junho de 2020, quando ela assistiu uma palestra com um professor universitário que morava em Campo Grande, viu a oportunidade de pedir ajuda.

  • CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS
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