Acusado de matar menina Beatriz diz em carta ter confessado sob pressão
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Correio do Pantanal

19 jan 2022 às 22:59 hs
Acusado de matar menina Beatriz diz em carta ter confessado sob pressão

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© Reprodução- Tv Globo

RECIFE, PE (FOLHAPRESS) – O novo advogado do suspeito de matar a menina Beatriz Angélica Mota em 2015 em Petrolina (PE) disse, nesta quarta-feira (19), que Marcelo da Silva, 40, escreveu uma carta em que alega ser inocente no caso.

O texto marca um recuo do acusado, que, na semana passada, confessou em depoimento ter sido o autor do assassinato da criança de sete anos, segundo a Secretaria de Defesa Social (SDS).

Em nota, a SDS disse que o depoimento foi filmado e seguiu todas as regras legais.

Beatriz foi morta a facadas em dezembro de 2015 durante uma festa de formatura no colégio Nossa Senhora Auxiliadora, em Petrolina.

No último dia 12, a SDS anunciou que Silva confessou o crime durante um depoimento a dois delegados da força-tarefa responsável pela investigação. A oitiva aconteceu em um presídio de Salgueiro, no Sertão de Pernambuco, onde ele estava preso por estupro de vulnerável em outro processo.

A polícia decidiu colher o depoimento na ocasião após verificar a compatibilidade do DNA que estava na faca usada no crime contra Beatriz com o DNA de Silva presente no banco de dados da polícia.

Na noite da terça (18), o novo advogado de Silva, Rafael Nunes, divulgou uma carta que teria sido escrita pelo suspeito no presídio de Igarassu, no Grande Recife.

“Eu confessei na pressão. Pelo amor de Deus, eles querem minha morte. Preciso de ajuda. Estou com medo de morrer, quero viver. Eu não sou assassino. Quero falar com a mãe da criança. Quero a proteção de minha mãe”, diz o texto com a assinatura de Silva. A carta está com a data da última segunda (17).

A posição do novo advogado Silva vai na contramão do que foi dito pela advogada Niedja Mônica da Silva, até então responsável pela defesa do suspeito. Antes, em entrevista à TV Globo, ela disse que o acusado lhe relatou ter confessado o crime para “aliviar o coração” da mãe de Beatriz e que chorava ao falar do assassinato.

Na manhã desta quarta (19), em entrevista coletiva, Nunes afirmou que Silva disse ser inocente e que confessou o crime sob pressão. “Diante do exposto viabilizei no parlatório se ele queria externar isso através da escrita. E aí consegui fazer com que chegasse esse papel de ofício, e ele com a caneta escreveu. Isso aqui veio da cabecinha dele, tá? Não tem qualquer tipo de intervenção”, afirmou o advogado, referindo-se à carta.

O advogado disse que ainda não teve acesso ao processo ainda e que terá novas conversas com Silva para tentar entender a mudança de versão.

“Ele não reconhece a confissão. Se ele não reconhece, logicamente não é ele que está ali, segundo as palavras dele. Preciso amadurecer com ele, ganhar intimidade com meu cliente. Mas ele não foi logo dizendo ‘sou inocente’. Percebi facilmente ele querendo me dizer algo”, acrescentou.

Na versão inicial, Silva alegou aos delegados que teria entrado na escola para pedir dinheiro e que, inicialmente, tinha confundido o local com uma igreja, segundo a SDS. Ainda de acordo com a pasta, o suspeito teria entrado e saído sozinho da escola, sem ajuda de terceiros.

Beatriz estava na escola participando da festa de formatura da irmã e saiu de perto dos pais para beber água, quando desapareceu – o pai dela era professor de inglês da escola.

Seu corpo foi encontrado dentro de um depósito de material esportivo do colégio, onde teria ocorrido o crime, com uma faca na região do abdômen. Também havia ferimentos no tórax, membros superiores e inferiores.

Em uma transmissão ao vivo em uma rede social, na noite desta terça (18), horas após a divulgação da carta, Lucinha Mota, mãe de Beatriz, repudiou o conteúdo do texto. Ela disse acreditar que Silva é o assassino de Beatriz.

“O que ele confessa bate com tudo que ocorreu. Depois de ver o vídeo, não tenho mais dúvida. Foi ele que matou minha filha”, disse Lucinha. Ela ainda defendeu que as circunstâncias do assassinato precisam ser esclarecidas com detalhes e voltou a pedir a federalização do caso.

A carta de Silva é um novo capítulo na investigação do caso. Ao longo dos últimos anos, foram 7 perícias, 24 volumes no inquérito, 442 depoimentos e 900 horas de imagens analisadas. O caso passou por oito delegados diferentes e, recentemente, ficou sob responsabilidade de uma força-tarefa com quatro profissionais.

Além disso, houve, em dado momento, sumiço das imagens das câmeras de segurança da escola, as quais a SDS afirma ter recuperado. Um perito que atuou no caso foi demitido pelo governo de Pernambuco por ter prestado serviço a uma consultoria de segurança por meio de uma empresa da qual é sócio ao colégio onde Beatriz foi morta. Esse tipo de atuação é vedado por lei, segundo o governo.

A mudança de versão do acusado impulsionou um grupo de deputados estaduais a começar a coleta de assinaturas na Assembleia Legislativa de Pernambuco para instaurar uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) sobre o caso Beatriz. O movimento é encabeçado pelo deputado estadual Romero Albuquerque (PP).

Até o momento, foram confirmadas nove assinaturas. Para abrir a comissão, é necessário o apoio de 17 deputados. O objetivo deles é protocolar o requerimento na Assembleia no começo de fevereiro, volta do recesso parlamentar.

Procurada, a SDS disse, por meio de nota, que o inquérito sobre o assassinato da menina Beatriz “está sendo realizado dentro de todos os parâmetros legais, com zelo e lisura”.

“O indiciamento do suspeito do crime foi realizado após a identificação positiva através de comparação de DNA. Essa é uma prova técnico-científica, que foi ratificada pela confissão do preso que se coaduna com as demais provas existentes no inquérito policial e é compatível com a dinâmica dos fatos e toda a linha de tempo descoberta durante a investigação”, diz a instituição.

A SDS também afirmou que “a Polícia Civil filmou o depoimento na íntegra, seguindo todas as regras legais, a fim de evitar quaisquer questionamentos, tentativas de macular a confissão ou estratégias projetadas para tumultuar o caso”.

Ainda conforme a secretaria, o caso segue sob sigilo. “A Polícia Civil de Pernambuco está dando continuidade às diligências solicitadas pelo Ministério Público Estadual, bem como à compilação de todas as provas necessárias para conclusão do inquérito policial e consequente remessa ao MPPE”, concluiu.

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