Só 24 países (e menos de 500 milhões de pessoas) têm uma mulher no poder

Correio do Pantanal

8 mar 2021 às 19:52 hs
Só 24 países (e menos de 500 milhões de pessoas) têm uma mulher no poder

“Ao ritmo atual, a igualdade de género nas mais altas posições de poder não será alcançado nos próximos 130 anos”, alerta a ONU Mulher. O Sri Lanka, então ainda Ceilão, elegeu há 61 anos a primeira mulher chefe de governo.Susana Salvador08 Março 2021 — 00:18

Angela Merkel é a mulher há mais tempo no poder. Jacinda Ardern será uma das líderes mais populares.
Angela Merkel é a mulher há mais tempo no poder. Jacinda Ardern será uma das líderes mais populares.© AFP

Os 287 mil habitantes da ilha de Barbados têm uma coisa em comum com os 161 milhões que vivem no Bangladesh: uma mulher primeira-ministra. Menos de 500 milhões de pessoas dos cerca de 7,8 mil milhões que constituem a população mundial – uma em cada 15 -, têm atualmente uma mulher presidente ou chefe de governo. E só num país elas ocupam as duas principais posições de poder (se não contarmos as rainhas): na Estónia.

“Ao ritmo atual, a igualdade de género nas mais altas posições de poder não será alcançado nos próximos 130 anos”, segundo as contas da ONU Mulher, que diz existirem 22 países onde elas são chefes de Estado (nove) ou de governo (13) e 119 onde nunca ocuparam nenhum desses cargos. As Nações Unidas não estão a contar com a presidente interina do Kosovo, Vjosa Osmani, nem com a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, já que estes países não são Estados-membros.

De todas estas mulheres, a que está há mais tempo no cargo (desde 2005) e também a mais poderosa – é a única atualmente à frente de um país do G7 e a sua voz é determinante na União Europeia – é a chanceler alemã. Angela Merkel já anunciou que não irá concorrer a um quinto mandato no final do ano, sendo os favoritos à vitória ambos do sexo masculino. Em 2018, no centenário do movimento sufragista, Merkel reconheceu num discurso que o facto de ser chanceler não significava que existisse mais igualdade e que a Alemanha ainda tem um longo caminho a percorrer. Contudo, admitiu ter feito o seu contributo: “Já ninguém se ri quando uma rapariga diz que quer ser chanceler.”

Se Merkel é a mais poderosa, a mais popular neste momento é provavelmente a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern. Se agora é elogiada pela forma como tem lutado contra a pandemia de covid-19, antes tinha-se destacado pela compaixão que demonstrou após os atentados terroristas de Christchurch, em março de 2019, e já tinha chamado a atenção em junho de 2018. Tornou-se então na segunda líder a ser mãe durante o seu mandato (a primeira foi a primeira-ministra do Paquistão Benazir Bhutto, em 1990). Ardern, ao contrário de Bhutto que teve os filhos praticamente em segredo, tirou seis semanas de licença de maternidade, antes de levar a filha, Neve, quando foi discursar na ONU.

Pioneiras: Sri Lanka e Islândia

A primeira mulher chefe de governo foi Sirimavo Bandaranaike, eleita em 1960, quando o Sri Lanka ainda era o Ceilão. Já a primeira a ser eleita democraticamente como presidente foi a islandesa Vigdís Finnbogadóttir, em 1980, tendo ficado 16 anos no cargo. Antes dela, em 1974, Isabel Martínez de Perón esteve à frente dos destinos da Argentina. Mas só após a morte do marido, Juan Domingo Péron, de quem era vice-presidente.

Sirimavo Bandaranaike com o presidente do Gana Kwame Nkrumah em Londres em 1964.
Sirimavo Bandaranaike com o presidente do Gana Kwame Nkrumah em Londres em 1964.© AFP

Isabel Perón não foi a única a aproveitar as ligações familiares, de maridos ou pais, para construir a carreira política (nestas contas de poder no feminino não entram as várias rainhas, cujas posições atualmente são cerimoniais). Mas o caso já é raro. A exceção é Sheikh Hasina, que é desde 2009 primeira-ministra do Bangladesh (teve um mandato inicial entre 1996 e 2001): é filha do fundador e primeiro presidente do país, Sheikh Mujibur Rahman, morto no golpe de 1975.

Sheikh Hasina é, depois de Merkel, aquela que está há mais tempo no poder. A mais recente é Kaja Kallas, primeira-ministra da Estónia, que tomou posse em janeiro, fazendo com que este país seja o único no mundo com uma liderança 100% feminina: a presidente é Kersti Kaljulaid. Kallas, que tem 43 anos, não é contudo a mais jovem chefe de governo de sempre. A finlandesa Sanna Marin tinha 34 anos quando, em dezembro de 2019, conquistou esse recorde.

Entre os países nórdicos e bálticos, há seis com mulheres em cargos de liderança. Além da Estónia e da Finlândia, há primeiras-ministras na Noruega (Erna Solberg ), na Dinamarca (Mette Frederiksen), na Islândia (Katrín Jakobsdóttir) e na Lituânia (Ingrida Simonyté). A Islândia também foi pioneira por ter tido a primeira chefe de governo lésbica em todo o mundo: Jóhanna Sigurðardóttir (2009-2013). Já em junho de 2017, Ana Brnabic seguiu-lhe os passos, mas como primeira-ministra da Sérvia.

No Leste da Europa, além de Sérvia e Kosovo, há mais três lideranças no feminino: as presidentes Salome Zourabichvili (Geórgia), Zuzana Caputová (Eslováquia) e Maia Sandu (Moldávia), que antes já tinha sido primeira-ministra. No continente com mais mulheres nestes cargos de poder (13), as contas ficam completas com a presidente da Grécia, Katerina Sakellaropoulou.

Na Ásia, além do Bangladesh e de Taiwan, há mulheres na chefia do Estado no Nepal (Bidya Devi Bhandari) e Singapura (Halimah Yacob). Em África, a presidente etíope é Sahle-Work Zewde, havendo ainda três primeiras-ministras: Saara Kuugongelwa-Amadhila na Namíbia, Rose Christiane Raponda no Gabão e Victoire Tomegah Dogbé no Togo. Nas Caraíbas, Paula-Mae Weekes é presidente de Trindade e Tobago, enquanto Mia Mottley é primeira-ministra em Barbados.

Ministras e deputadas

A situação não melhora nos níveis de poder inferiores: só 21% dos ministros são do sexo feminino (os dados da ONU referem-se a janeiro) e só 14 países têm o mesmo número ou mais ministras do que ministros. E mesmo quando elas chegam a uma pasta ministerial, o mais provável é ficarem à frente de temas de família, Segurança Social, igualdade de género, ambiente ou emprego. Nos Parlamentos, só 25% dos eleitos são mulheres (eram 11% em 1995) e só em quatro países são mais de 50% dos deputados: Ruanda (61%), Cuba (53%), Bolívia (53%) e Emirados Árabes Unidos (50%).

Este ano, o tema do Dia Internacional da Mulher é precisamente “Mulheres na liderança: Alcançar um futuro igual num mundo covid-19”. Este dia “chega este ano num momento difícil para o mundo e para a igualdade de género, mas num momento perfeito para lutar por uma ação transformadora e para saudar as mulheres e jovens na sua busca incansável pela igualdade de género e direitos humanos”, indicou a diretora-executiva da ONU Mulher, a sul-africana Phumzile Mlambo-Ngcuka, numa declaração para assinalar a data.

“O nosso foco está na liderança das mulheres e no aumento da representação em todas as áreas onde as decisões são tomadas – atualmente principalmente por homens – sobre as questões que afetam a vida das mulheres. A universal e catastrófica falta de representação dos interesses das mulheres já existe há demasiado tempo”, disse, reiterando que “pode e deve” mudar. “O que é preciso é vontade política para apoiar de forma ativa e intencional a representação das mulheres. Os líderes podem definir e cumprir metas de paridade, inclusive através de nomeações para cargos executivos em todos os níveis de governo, tal como ocorreu nos poucos países com governos paritários”, defendeu Mlambo-Ngcuka, lembrando que em países onde não existem medidas especiais “o progresso é mais lento ou até inexistente e facilmente revertido”.

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