“Quando isto normalizar vamos ver as igrejas muito mais despovoadas”

Correio do Pantanal

27 mar 2021 às 17:02 hs
“Quando isto normalizar vamos ver as igrejas muito mais despovoadas”

Para o presidente da Igreja Presbiteriana de Portugal, as igrejas têm uma importância acrescida nesta fase, porque há “uma dimensão de espiritualidade” importante na resposta à pandemia. Mas preocupa-se com o afastamento físico que prejudica a comunhão.Ana Meireles24 Março 2021 — 00:57

Paulo Silva, líder da Igreja Presbiteriana de Portugal
Paulo Silva, líder da Igreja Presbiteriana de Portugal© Inês Pedrosa/Global Imagens

Qual é a mensagem da Igreja Presbiteriana para este ano?
As igrejas têm todas elas uma importância muito grande em contextos de crise. Aquilo que nós verificamos na atualidade é que a abordagem desta pandemia tem sido feita sobretudo a partir de uma visão científica, procurando perceber-se os contornos desta doença, fazendo várias estatísticas e procurando encontrar rapidamente as melhores formas de pôr termo a esta pandemia. Nesta circunstância, esta pandemia é diferente de todas as outras no passado, porque nas outras encontrou-se sempre mais respostas no contexto religioso e não propriamente no contexto científico. Hoje em dia, a igreja está, penso eu, um pouco desalentada, e as pessoas não procuram uma resposta espiritual, procuram sobretudo uma resposta que é orientada por aquilo que a ciência vai dizendo. E, do meu ponto de vista, ainda bem. Porque temos de partir do princípio de que a ciência estuda estas coisas e sabe muito mais disso do que propriamente os teólogos ou a igreja. Por outro lado, é preciso considerar aqui uma outra dimensão, a dimensão da espiritualidade. Nós não somos só uma dimensão física, somos uma dimensão de corpo e de espiritualidade. E quando eu digo aqui a palavra corpo é porque a espiritualidade não pode estar desenraizada do corpo. As igrejas continuam a ter uma importância muito grande do ponto de vista de acompanhar as pessoas no domínio daquilo que é a sua humanidade, a sua espiritualidade, a sensação que as pessoas têm de ter nesta altura de que não estão sozinhas a viver os medos, as angústias, as incertezas que decorrem de uma circunstância pandémica.

Como têm chegado às pessoas nestes tempos de confinamento?
Nós rapidamente, na altura do primeiro confinamento, nos adaptámo às tecnologias e os cultos começaram a ser feitos por Zoom. A questão, para mim, é o que é que se está a passar aqui, porque vamos ter transformações muito grandes. A primeira delas é que um culto eletrónico não é uma comunhão, é uma comunicação apenas. Porque as plataformas eletrónicas são muito etéreas, não incluem a dimensão do próprio corpo. Ou seja, nós para falarmos em termos de uma igreja e de uma comunidade, o que é que aí acontece? Acontece aí um conjunto de atos simbólicos onde as pessoas estão em conjunto vivenciando estes atos simbólicos e, ao mesmo tempo, esses atos suscitam um sentido de pertença, de irmandade. Ora, eu acho que isto é muito difícil de se alcançar no contexto de uma plataforma virtual. Por todos os condicionamentos que uma plataforma traz. Para mim, o perigo que pode acontecer em termos futuros é nós termos uma tendência para ir para o virtual e perdermos essa dimensão da comunhão. E isso é muito preocupante. E nós vamos provavelmente perceber – e já começámos a perceber, quando as igrejas reabriram – que as pessoas que virão às igrejas serão muito menos do que aquelas que vinham antes. E depois há outra coisa que é também muito preocupante, que é o que nós vamos fazer a uma população muito grande de pessoas que estão nas igrejas e que são idosas, e que não têm computador, que são completamente infoexcluídas. E são essas pessoas que precisam mais da comunidade, são essas pessoas que precisam de maior amparo, de maior acompanhamento, muitas delas vivendo sozinhas em suas casas. E, para mim, essa é que é a grande questão. Temos de ter muito cuidado e aquilo que eu defendo é que temos de ser muito moderados no sentido de dizer “não, aconteceu qualquer coisa, vamos fechar e acabou”. Não, vamos tentar que as coisas funcionem e se, porventura, tivermos de fechar, e tivermos de fazer comunicações virtuais, que essas comunicações sejam feitas a partir das igrejas e não na sala de estar das pessoas, na sala de estar do pastor ou da pastora, mas dentro da própria igreja, e a comunicação ser feita a partir daí. Porque há uma dimensão de solenidade também que se perde quando nós começamos a fazer o nosso culto em casa, ou com os nossos livros atrás, ou numa circunstância qualquer, ou num espaço qualquer da casa. Isso é que eu acho que é preocupante, e no futuro é que nós vamos ver. Quando isto normalizar, e com certeza que isto vai normalizar, nós vamos ver as igrejas muito mais despovoadas. Não tenho muitas dúvidas.

Como é que se consegue manter os fiéis numa altura como esta?
É muito difícil. Porque mesmo que nós consigamos estar numa plataforma com várias pessoas, há qualquer coisa de descontinuidade em tudo isso. E a experiência que nós temos é que há muitas pessoas que hoje, mesmo não sendo infoexcluídas, não se sentem bem a ter um culto naquela situação. E que não vão. Eu espero que as pessoas estejam ávidas de voltarem a estar juntas, de poderem vir à sua igreja, de poderem cumprimentar-se… Porque as nossas igrejas são igrejas pequenas, mas que vivem muito essa dimensão do sentido de uma família alargada. E eu gostaria de acreditar que essas pessoas vão voltar todas. Embora mesmo na primeira fase, quando houve o desconfinamento, houve pessoas que não voltaram por motivos de segurança, pessoas mais idosas que não quiseram arriscar.

Que desafios a pandemia vos colocou enquanto igreja?
Desde logo esse desafio de estarmos próximos. Nesta semana fui fazer um funeral e, no final, foi-me impossível não abraçar uma pessoa que estava a sentir muito fortemente a separação da sua mãe. Obviamente que não funcionei de acordo com as regras, mas existe aqui uma outra dimensão, que é uma dimensão importante, e é isso que está a fazer mais falta. É nós termos de estar distantes uns dos outros, não nos podermos tocar, não nos podermos abraçar. Por um lado, ficamos com a sensação de que estamos mais seguros porque não temos esse contacto, mas, por outro lado, estamos a ficar doentes, porque não estamos a conseguir… Nós não percebemos ainda muito bem qual é a dimensão psicológica do impacto de tudo isso. Relativamente aos filhos que não podem visitar os pais, que já são muito idosos, relativamente aos mais velhos que ficam completamente isolados, é uma tristeza.

Como é que se transmite esperança em tempos como este?
Eu acho que nós deveríamos fazer aqui uma reflexão sobre a própria palavra esperança. Todos nós, um dia, vamos deixar esta vida e, como cristãos, acreditamos que vamos passar para outra. E muitas vezes a esperança nesta altura consubstancia-se nesta ideia de que “eu tenho a esperança de que não vou ser apanhado por isto e vou continuar vivo”. E essa é uma questão que nós não devemos equacionar desta forma. Eu gostaria de equacionar a esperança mais nesta ideia de que vamos voltar a estar juntos e vamos voltar a estar de novo nas nossas igrejas, vamos estar com muito mais sede do que a que tínhamos antes, quando podíamos. A mensagem de esperança que nós podemos transmitir nesta hora não é dizer “não te vai acontecer nada” ou “fica descansado que não te ocorre nada”, isto seria uma forma encapotada de negacionismo, que não é aceitável. Mas é dizer às pessoas “esta situação vai passar, nós estamos debaixo da graça e do amor de Deus, vivemos a nossa vida de acordo com a sua própria vontade e queremos acreditar que Deus vai permitir-nos outra vez vivermos juntos a noção do reencontro, da festa, da alegria”.

O número de pedidos de ajuda tem aumentado desde março? Que pedidos de ajuda têm recebido?
Nós fizemos um levantamento aqui há uns meses pelas igrejas todas do país das pessoas que tinham mais dificuldades e começámos a fornecer alimentos, nomeadamente frescos. Sei que nas diversas igrejas há pessoas que estão a ser ajudadas, sobretudo com esse tipo de produto alimentar. Depois, temos tido também algumas ajudas internacionais em termos de verbas que vão chegando para fazer face às necessidades de algumas pessoas mais carenciadas… Felizmente, a Igreja Presbiteriana não é uma igreja que tenha muita gente carenciada.https://imasdk.googleapis.com/js/core/bridge3.447.1_pt_pt.html#goog_359952680Volume 90% 

Como acha que será a relação com os fiéis num mundo pós-covid? As coisas vão voltar a ser o que eram?
A experiência adquirida nesta fase vai fazer que muitas coisas vão continuar a passar-se no mundo digital, não tenho muitas dúvidas quanto a isso. Eu sei que há igrejas que vão reabrir e vão ter os seus cultos ao domingo como habitualmente tinham, mas vão continuar a ter, por exemplo, a meio da semana, encontros de estudo bíblico feitos online, com as famílias a assistirem do outro lado. Não tenho dúvidas de que isso vai acontecer e isso é uma mais-valia. Agora se me disser assim, “vamos deixar de ter cultos e vai passar tudo para o virtual?”. Eu não acredito que isso vá acontecer. Basicamente, há coisas que vão mudar, que resultam exatamente do uso das tecnologias, e há coisas que vão continuar exatamente na mesma. Agora se as pessoas vão mudar ou não face à experiência vivida, eu também não acredito que elas mudem muito. Porque as pessoas têm os seus hábitos enraizados e estes hábitos vão ser retomados naturalmente depois da pandemia.
ana.meireles@vdigital.pt

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