Professor no Haiti que perdeu tudo em terremoto agora tem nova vida em MS

Correio do Pantanal

4 maio 2018 às 09:33 hs
Professor no Haiti que perdeu tudo em terremoto agora tem nova vida em MS

Chacha foi personagem de matéria da TV Morena no Haiti. Na quinta-feira (3), encontrou, por acaso, em Campo Grande, mesma equipe que o entrevistou. O reencontro foi emocionante.

 Cláudia Giagher, Chacha e Argemiro Barros no reencontro ao acaso, em Campo Grande, MS (Foto: Cláudia Gaigher/TV Morena)

Lembro de ver da janela do avião um rio seco serpenteando a cidade. Só o leito de areia e nenhuma água. Me assustei. Ao pousar em Porto Príncipe, no Haiti, em novembro de 2010, o ar pesado trazia silenciosamente a dor daquela Nação .

Não tinha água, luz, trabalho ou esperança. As pessoas disputavam comida e atenção e uma multidão vagava pelas ruas. As construções pareciam dominós caídos em camadas. Tudo destruído.

Uma imensa vala de esgoto e montanhas de lixo por todo canto. Milhares de barracas montadas pelos grupos de apoio se transformou numa cidade de lona onde os sobreviventes estendiam em varais improvisados o pouco que tinham. Aqueles lençóis e roupas criavam paredes de pano que dançavam no vento.

E o povo andava de peito erguido. Incrível a maneira como os haitianos não se abatiam diante do caos. Naquele dia até o azul do céu estava desfocado… Fomos gravar no forte. Bem em frente do local onde os militares brasileiros estavam

Instalados, a vista do mar era linda e em volta só destruição. Ali encontramos o Chacha. Ele era meio intérprete porque aprendeu rápido o português. Professor. Mantinha a dignidade sempre com um sorriso no rosto e bem vestido. A voz serena destoava no meio daquele caos. Ele era nosso intérprete.

Não entendíamos nada do creole e eu não falo francês. O Chacha então era os nossos olhos e ouvidos nas reportagens… no dia da gravação no forte ele nos disse que morava ali em frente. Eu pedi para conhecer a casa dele.

Ele nos levou para nos apresentar aos que sobraram da família. Ao entrar ouvi um som conhecido… Vinha de algum lugar da casa o som do refrão da música religiosa: “entra na minha casa… entra na minha vida… Mexe com minha estrutura… Sara todas as feridas …faz um Milagre em mim…” Era a trilha sonora de uma história de fé em meio a destruição.

Eu vi o milagre

Entre os sobreviventes da família do Chacha, tinha um sobrinho de pouco mais de dois anos. Lindo que eu logo peguei no colo. O menino doce me tocava no rosto e acariciava o meu cabelo. Logo se aninhou no meu pescoço. Não lembro o nome dele mais, mas ainda sinto o seu olhar e vejo o seu sorriso.

E esse pequeno cantava a música brasileira com muita emoção. Morri de chorar. Coloquei isso na reportagem.

Naquela lage tinha uma barraca de lona. Era a moradia do Chacha porque não tinha espaço na casa para todos e as estruturas estavam abaladas pelo tremor. Foi ali no telhado que ele me deu a entrevista.

Ele me contou que no dia do terremoto perdeu a noiva, muitos amigos e parentes. A escola onde dava aula veio abaixo. Quase todos se foram. Ele escapou porque conseguiu ir pra rua. Apesar da tragédia, a força dele me intrigou: perguntei de onde vinha essa coragem para resistir a tamanha devastação. Ele disse: Deus cuida da gente. Vou recomeçar.

Oito anos se passaram. Nunca esqueci daquela experiência de trabalhar e registrar uma Nação destruída por um terremoto e um povo guerreiro que não se deixou abater pela destruição.

Equipe de reportagem no Haiti MS (Foto: TV Morena)

Equipe de reportagem no Haiti MS (Foto: TV Morena)

A vida seguiu

Eu voltei para Campo Grande com um pouco do Haiti em mim. Mas a gente se envolve na rotina e quando pisca, mais um ano se passou.

Era quinta-feira, 3 de maio de 2018. Estava saindo da casa de uma senhora . Ela estava contando a sua tragédia pessoal: perder um filho num acidente de trânsito. Triste demais. Não gravamos com ela porque agendamos de filmar no dia seguinte. Eu estava me despedindo da senhora .

O cinegrafista Argemiro Barros saiu da casa primeiro. Dois homens estavam fazendo a manutenção na fiação no poste em frente onde paramos o carro. Um deles, veio sorridente e olhou para o a Argemiro e disse com um português ainda com sotaque: “o senhor foi no Haiti? Eu conheci o senhor. Sou o Chacha. Cadé a Claudia?” Foi nesse momento que eu saí na calçada e vi os dois se abraçando. Uma emoção intensa.

Meus olhos se encheram de lágrimas e eu abracei o Chacha com um imenso carinho de reencontro. Uma misto de alegria, surpresa e alívio por saber que ele estava bem. E o sorriso largo e feliz estampado no rosto da gente . Os três de emocionaram.

Voltamos no tempo e relembramos nosso encontro no Haiti. Parecia ontem. Eu perguntei da vida dele. O Chacha está entre os milhares de haitianos acolhidos no Brasil. Em Campo Grande tem muitos trabalhando em diversos setores.

Chacha hoje faz manutenção de rede elétrica . Encontrou o amor de novo com uma brasileira e tem uma filha de três meses. Linda e bochechuda. Mostramos fotos dos nossos filhos. Eu e o Argemiro ficamos tão felizes que queríamos gravar, fotografar, estreitar ainda mais aquela laços que nasseram na tragédia e permaneceram em nossos corações.

Nesse encontro inesperado eu ganhei o maior presente: a certeza de que a fé é o combustível da coragem. o Chacha me disse que o sobrinho ainda está no Haiti e que do Brasil ele ajuda os que ficaram na terra Natal.

Num português muito bom ele me disse: estou bem. Estou feliz! Reck atraiu a vida e me ensinou a ter mais esperança no futuro. Depois de muitas fotos, vídeos e abraços nos despedimos com um até logo. Eu já mandei mensagem: quero conhecer a futura esposa e a filha. Tomar café conversar sobre a vida e não nos perder mais!

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