Passar o resto da vida em solitária é pena justa para El Chapo, defende agente que ajudou a prender traficante

Correio do Pantanal

27 jul 2019 às 06:45 hs
Passar o resto da vida em solitária é pena justa para El Chapo, defende agente que ajudou a prender traficante

Especialistas defendem que o confinamento em que o mexicano cumprirá a sentença deveria ser abolido. Prisão federal Supermax já foi descrita por administrador como ‘versão limpa do inferno’.

Por Lara Pinheiro, G1


Na ilustração, El Chapo, (à direita, na frente) lê um comunicado por meio de uma intérprete durante o proferimento da sentença na quarta-feira, 17 de julho. — Foto: Elizabeth Williams via AP

Na ilustração, El Chapo, (à direita, na frente) lê um comunicado por meio de uma intérprete durante o proferimento da sentença na quarta-feira, 17 de julho. — Foto: Elizabeth Williams via AP

O traficante mexicano “El Chapo”chegou na semana passada à prisão federal ADX Florence, no Colorado, de onde não deve sair enquanto estiver vivo. Joaquín Guzmán Loera, de 62 anos, recebeu, na quarta passada, a sentença de prisão perpétua em uma corte federal americana.

A defesa de Chapo apelou da sentença, mas pode ter que esperar até um ano pelo resultado do recurso.

O lugar onde ele está, chamado informalmente de “Supermax”, já foi descrito por um de seus ex-administradores como “uma versão limpa do inferno”. A prisão fica em Florence, no Colorado – a cerca de 2,3 mil km de Sinaloa, estado natal de El Chapo no México que deu o nome ao cartel que fundou.

“É remota, solitária — os prisioneiros quase não têm interação com ninguém no mundo exterior. É arquitetonicamente projetada para ser impossível escapar”, explica Duncan Levin, ex-procurador que hoje é advogado de defesa criminal.

Na Supermax, a maioria dos detentos fica cerca de 23 horas por dia sozinho em celas de menos de 8m² — onde devem fazer refeições, tomar banho e dormir. O único conforto? Uma televisão.

Cela no presídio Supermax, no estado norte-americano do Colorado, em foto de 1994. — Foto: Mark Reis/The Gazette via AP, File

Cela no presídio Supermax, no estado norte-americano do Colorado, em foto de 1994. — Foto: Mark Reis/The Gazette via AP, File

“Sim, ele vai para prisão perpétua no Colorado, na Supermax – mas ele está vivo. Não é como uma das muitas vítimas sem nome e sem rosto que, por causa de uma de suas decisões, nós nunca nem saberemos quem são”, aponta Ray Donovan, agente da Administração de Repressão às Drogas americana, em entrevista ao G1.

Donovan liderou as operações que levaram à prisão do traficante em 2016, e investiga o cartel de Sinaloa desde 2012. Os esforços para prender Chapo, diz, não têm precedentes – e só foram possíveis por causa da parceria com agentes mexicanos.

Ray Donovan, agente da DEA que capturou El Chapo. — Foto: DEA

Ray Donovan, agente da DEA que capturou El Chapo. — Foto: DEA

Durante o julgamento, além do tráfico de drogas internacional, a procuradoria citou, entre os crimes de Chapo, o assassinato ou tortura, pelas mãos do próprio traficante, de pelo menos 26 pessoas ou grupos de pessoas. Ele também drogava e estuprava, segundo relatos de testemunhas, meninas de apenas 13 anos.

“Se eu acho que a sentença foi justa? Sabendo tudo o que eu sei sobre El Chapo e o cartel de Sinaloa, sim, com certeza”, afirmou Donovan.

Efeitos da solitária

 Joaquín 'El Chapo' Guzmán em foto de 19 de janeiro de 2017 — Foto: United States Drug Enforcement Administration via AP

Joaquín ‘El Chapo’ Guzmán em foto de 19 de janeiro de 2017 — Foto: United States Drug Enforcement Administration via AP

A opinião do agente da DEA não é unânime. Especialistas ouvidos pelo G1 alertam, principalmente, para os efeitos do confinamento solitário prolongado – que, opinam, deveria acabar.

“O objetivo [da solitária] é destruir as pessoas – mental e fisicamente. Destruir sem bater, torturar ou executar, mas, em essência, conseguindo a mesma coisa”, afirma Paul Wright, diretor-executivo do Human Rights Defense Center, organização em Nova York que luta pelos direitos humanos de prisioneiros.

Wright explica que, à medida que formas de punição física de prisioneiros foram sendo abolidas nos Estados Unidos – como o eletrochoque, os espancamentos e os açoites, as prisões em que o confinamento solitário prolongado era a norma foram crescendo.

Na ilustração, El Chapo lê um comunicado, por meio de um intérprete, durante o proferimento da sentença de prisão perpétua na quarta-feira, 17 de julho. — Foto: Elizabeth Williams via AP

Na ilustração, El Chapo lê um comunicado, por meio de um intérprete, durante o proferimento da sentença de prisão perpétua na quarta-feira, 17 de julho. — Foto: Elizabeth Williams via AP

“Seres humanos são animais sociais — acho que um psiquiatra explicou que o contato com outras pessoas é o que nos embasa na realidade. Quando você tira esse contato, para a maioria das pessoas, suas mentes tendem a ficar fora de controle”, diz Paul Wright.

Em 2014, um estudo com quase 245 mil detentos de Nova York, feito pelo departamento de saúde pública da cidade, mostrou que, apesar de apenas 7% dos prisioneiros estarem em confinamento solitário, mais da metade dos episódios de automutilação vinham desse grupo.

Para tentar entender o efeito do confinamento solitário de longo prazo na população carcerária, o psiquiatra Terry Kupers, professor do Instituto Wright, na Califórnia, afirma ter entrevistado mais de 500 prisioneiros ao redor dos Estados Unidos. Ele publicou, em 2017, um livro sobre o isolamento em cadeias de segurança máxima.

Imagem de 22 de fevereiro de 2014 mostra Joaquín El Chapo Gúzman sendo escoltado por fuzileiros navais até um helicóptero na Cidade do México — Foto: AP Photo/Eduardo Verdugo, File

Imagem de 22 de fevereiro de 2014 mostra Joaquín El Chapo Gúzman sendo escoltado por fuzileiros navais até um helicóptero na Cidade do México — Foto: AP Photo/Eduardo Verdugo, File

“Em uma pessoa que é mentalmente estável, o confinamento solitário causa ansiedade extrema – expressada como ataques de pânico, pensamento distorcido, paranoia”, explica.

“A pessoa tenta controlar a ansiedade fazendo coisas repetitivas – andando para lá e para cá, limpando a cela, fazendo marcas na parede para ocupar a mente. E aí tem o desesepero – elas ficam deprimidas, sem esperanças, acreditam que vão morrer ali”, diz Kupers.

“Se eles têm um transtorno mental – esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão, a solitária vai exacerbá-lo”, diz Kupers. Mesmo que alguém seja capaz de manter a estabilidade mental – o que é muito difícil de fazer – eles estarão rodeados de pessoas que estão psicóticas ou cometendo suicídio”, lembra.

Além disso, afirma o médico, os prisioneiros também ficam sujeitos à violência dos próprios guardas, comuns em locais com prisão solitária. “Eles entram, usando roupas protetoras, e podem usar spray de pimenta neles ou jogá-los contra a parede e algemá-los”, afirma.

Presídio de segurança máxima Supermax, no Colorado, EUA. Traficante mexicano El Chapo pode ser levado a essa unidade, considerada a mais segura do sistema penitenciário norte-americano — Foto: Jerilee Bennett/The Gazette via AP

Presídio de segurança máxima Supermax, no Colorado, EUA. Traficante mexicano El Chapo pode ser levado a essa unidade, considerada a mais segura do sistema penitenciário norte-americano — Foto: Jerilee Bennett/The Gazette via AP

“El Chapo vai morrer ali. Ele vai ter sentimentos de desespero relacionados a isso – a prevalência de suicídio é muito alta”, diz Kupers.

Além do traficante, outros presos cumprem prisão perpétua na ADX: o “Unabomber”; conspiradores do 11 de setembro; autores de atentados em Boston e Oklahoma; um médico que pode ter envenenado até 60 pacientes; e um agente do FBI que espionava para os soviéticos.

“Mas e os que vão sair um dia?”, questiona o psiquiatra. “Se o que fazemos a elas enquanto estão presas as torna mais propensas a cometerem atos criminosos [quando saírem], então estamos fazendo um grande mal à sociedade”, avalia Kupers.

Para o ex-procurador Duncan Levin, enviar El Chapo para a ADX Florence é, também, uma forma de retaliação. “Ele é uma das pessoas mais violentas do mundo – mas não é conhecido por ferir guardas ou outros detentos”, lembra.

“Acho que isso é parte da punição dele – acho que isso é feito mais como uma retaliação do que qualquer sensação real de impedir a fuga – porque é impensável que alguém possa escapar de qualquer prisão federal [regular]”, avalia.

Traficante 'El Chapo' desembarca nos EUA, em janeiro de 2017, após ser extraditado. — Foto: U.S. law enforcement via AP

Traficante ‘El Chapo’ desembarca nos EUA, em janeiro de 2017, após ser extraditado. — Foto: U.S. law enforcement via AP

Levin também acredita que o confinamento solitário deveria ser abolido.

“Quando prendemos as pessoas, ainda precisamos tratá-las como seres humanos. Até mesmo o pior criminoso do mundo não deveria ficar em um lugar que o faz perder sua humanidade”, diz o ex-procurador.

A 8ª emenda à Constituição americana proíbe que “punições cruéis ou incomuns” sejam infligidas a prisioneiros. Para Levin, entretanto, a Suprema Corte dos EUA não entende que o confinamento solitário se encaixe nessa descrição.

“É uma questão de decência humana – não precisa ser uma violação constitucional para ser uma questão de certo ou errado”, afirma.

Nenhum desses argumentos, entretanto, convence o agente Ray Donovan, da DEA.

“Se você diz que é desumano, ou injusto, passar a vida em uma cela, eu acho que nem é preciso dizer — ele [El Chapo] foi condenado por crimes hediondos contra a humanidade, contra seres humanos, por um longo período de tempo. O fato de que ele vai passar o resto da vida na prisão é, sim, muito justo”, afirma.

ATENÇÃO: Comente com responsabilidade, os comentários não representam a opnião do Jornal Correio do Pantanal. Comentários ofensivos e que não tenham relação com a notícia, poderão ser retirados sem prévia notificação.