No balé das delações, Moro perde Odebrecht, mas pode ganhar mais artilharia anti-PT

Correio do Pantanal

1 maio 2018 às 08:59 hs
No balé das delações, Moro perde Odebrecht, mas pode ganhar mais artilharia anti-PT

Renato Duque, tido como operador do partido na Petrobras, estaria negociando acordo com a Lava Jato

Ex-ministro Palocci não se entendeu com o Ministério Público, mas com a Polícia Federal

 

El País,

 

Renato Duque em depoimento prestado a Sérgio Moro no ano passado. REPRODUÇÃO DE VÍDEO

MAIS INFORMAÇÕES

As cartas na manga da Lava Jato parecem não ter fim. Os procuradores responsáveis pela operação ainda esbravejavam nas redes sociais contra a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de retirar trechos da delação da Odebrecht das mãos do juiz Sérgio Moro quando começou a circular a notícia de que o ex-ministro Antonio Palocci está fechando a sua própria delação com a Polícia Federal (PF). Nesta segunda-feira, outra boa notícia para os partidários da investigação: o ex-diretor da Petrobras Renato Duque, acusado de ser o operador do PT na estatal, também está em vias de fechar o seu acordo.

Duque já havia fechado um outro acordo, mas em nível internacional, segundo o jornal O Globo, que informa detalhes sobre o novo entendimento com o Ministério Público Federal. A decisão do STF de retirar de Moro trechos da delação da Odebrecht teria beneficiado Duque. Agora, suas informações sobre a participação dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e dos ex-ministros Antonio Palocci e José Dirceu em esquemas de propina valem mais. Em depoimento prestado a Moro no ano passado, Duque, que está preso desde 2014, disse que Lula “detinha o comando” dos esquemas irregulares identificados na Petrobras.

Já a negociação de Palocci, preso desde setembro de 2016, teria enfim sido encaminhada com a PF, já que o Ministério Público não pareceu interessado em utilizar o que o ex-ministro tinha para dizer. A colaboração de Palocci com a Justiça já foi fechada em falso e noticiada mais de uma vez. Agora, a informação que corre é de que seus depoimentos detalham como ele levou pessoalmente pacotes de dinheiro vivo para Lula. Sobre Dilma, o ex-ministro diz que ela atuou para atrapalhar as investigações da Lava Jato ao tentar nomear Lula para comandar a Casa Civil.

Ainda que não se saiba se a delação é para valer, a informação gerou reações indignadas entre petistas. Em nota, Dilma negou encontro que teria sido relatado por Palocci, no qual os dois discutiram financiamento de campanha com Lula e o então presidente da Petrobras Sérgio Gabrielli. “O senhor Antonio Palocci cria um relato que busca agradar aos investigadores”, disse a ex-presidenta. A presidenta do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), também divulgou nota para rebater as acusações contra Lula que o czar da economia petista viria a fazer. Atacando o jornal O Globo, que noticiou os detalhes da delação, Gleisi diz que “as novas mentiras” surgiram logo depois que a Segunda Turma do STF “corrigiu, em parte, aberrações jurídicas que davam a Sergio Moro poderes que ele jamais deveria ter recebido”.

De fato, as novas delações reforçam as expectativas de que ficará mais difícil tirar o caso que diz respeito ao sítio de Atibaia (SP) e ao Instituto Lula das mãos de Moro. Após o julgamento em que a Segunda Turma do STF decidiu encaminhar as informações colhidas sobre o sítio em depoimentos para São Paulo, o ministro Gilmar Mendes assustou os investigadores da Lava Jato ao dizer que “poderá haver recursos em relação a processos que estão lá com o Moro sob o argumento de que não se trata de Petrobras, isso pode vir até aqui [ao STF] em outro contexto”.

Ainda não é possível saber a extensão do estrago que as novas delações podem causar, mas procuradores como Carlos Fernando dos Santos Lima, da força-tarefa de Curitiba, não perdem oportunidade de reforçar o argumento de que qualquer barreira que impeça o avanço da Lava Jato significará o início de seu fim. “O STF não pode permitir que manobras e artimanhas se sobreponham à maioria e à própria história e tradição do tribunal”, postou em seu perfil no Facebook após a decisão do Supremo sobre as delações da Odebrecht. Ao defender a permanência dos processos de Lula com Moro, os procuradores parecem tentar proteger o futuro da operação, como se bastasse cair um pilar — a competência do juiz para julgá-las — para que todas as investigações desmoronassem.

Em despacho da semana passada, Moro defendeu que o processo possui mais provas além das delações dos executivos da Odebrecht. “Oportuno lembrar que a presente investigação penal iniciou-se muito antes da disponibilização a este Juízo dos termos de depoimentos dos executivos da Odebrecht em acordos de colaboração”, escreveu. As novas informações provenientes dos depoimentos de Duque e Palocci reforçariam o argumento do titular da 13ª Vara de Curitiba, mas não o bastante para convencer aqueles que Moro condenou. Em carta, Lula se disse “perplexo ao saber que o Moro e o Ministério Público não vão cumprir a determinação do STF”. No Brasil dividido, há quem ficaria perplexo se eles cumprissem.

ATENÇÃO: Comente com responsabilidade, os comentários não representam a opnião do Jornal Correio do Pantanal. Comentários ofensivos e que não tenham relação com a notícia, poderão ser retirados sem prévia notificação.