Guerra na sombra entre Irão e Israel prossegue nos mares
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Correio do Pantanal

4 ago 2021 às 22:49 hs
Guerra na sombra entre Irão e Israel prossegue nos mares

Um navio tomado durante horas na terça-feira seguiu-se a um ataque mortal num petroleiro dias antes. Teerão nega responsabilidades no sucedido.César Avó05 Agosto 2021 — 00:16

Há uma semana, o petroleiro Mercer Street foi alvo de um ataque de drones que matou dois tripulantes.
Há uma semana, o petroleiro Mercer Street foi alvo de um ataque de drones que matou dois tripulantes.© KARIM SAHIB/AFP

Um navio-tanque foi apreendido na terça-feira por presumíveis homens armados iranianos no golfo de Omã, no mais recente capítulo de crescentes tensões regionais na sequência de um ataque com drones a outro navio que Israel, os Estados Unidos e o Reino Unido atribuíram a Teerão. O navio foi abordado perto do porto de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, de acordo com as Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido (UKMTO, na sigla em inglês), organismo ligado ao Ministério da Defesa britânico. Numa declaração no início da quarta-feira, o UKMTO disse que os “apresadores” tinham deixado o MV Asphalt Princess e que este estava agora seguro, sem mais qualquer indicação relativa à sua identidade nem ao objetivo da ação hostil.

Nos últimos anos, a Marinha do Irão tem apreendido petroleiros que depois acusa de contrabandear petróleo nas suas águas. Este último incidente, porém, segue-se ao ataque da semana passada a um petroleiro ligado a Israel no vizinho Mar Arábico. A morte de dois tripulantes, um britânico e um romeno, foi a primeira após numerosos ataques imputados ao Irão e a Israel nos últimos anos a navios na região. Teerão negou o envolvimento no ataque da semana passada e disse que não hesitaria em defender os seus interesses na sequência das ameaças de que os seus rivais retaliariam.

O primeiro-ministro israelita disse ter provas recolhidas pelos serviços de informações a comprovar o dedo iraniano no ataque ao Mercer Street.

Segundo a BBC, o MV Asphalt Princess, de pavilhão panamiano, é propriedade de uma empresa sediada no Dubai que viu um dos seus navios sequestrados pelos Guardas da Revolução há dois anos. O navio-cisterna foi abordado por até nove homens armados quando se aproximava da entrada do estreito de Ormuz. Uma aeronave de patrulha marítima da Força Aérea de Omã, sobrevoou em círculos as águas durante horas. O UKMTO tinha aconselhado os serviços de navegação a terem extrema cautela perto de Fujairah, no golfo de Omã.

O navio-cisterna foi abordado por nove homens armados. À volta, seis petroleiros informaram ter perdido a capacidade de navegar.

Para adensar a névoa sobre esta operação, no início do dia seis petroleiros informaram por volta da mesma altura, através dos seus dispositivos de localização do Sistema de Identificação Automática que “não estavam sob comando”, segundo informações do site Marine Traffic. Este aviso significa que um navio perdeu capacidade de navegar, o que deixa incrédulo o perito em petróleo e navegação da empresa de dados Refintiv, Ranjith Raja. “Nem todas as embarcações perderiam os seus motores ou a sua capacidade de navegação ao mesmo tempo.”

O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão disse que as notícias envolvendo vários navios na terça-feira foram “suspeitas” e advertiu contra qualquer tentativa para “criar uma falsa atmosfera” contra Teerão. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Saeed Khatibzadeh, negou que o Irão estivesse envolvido e classificou os recentes ataques marítimos “completamente suspeitos”. “As forças navais iranianas estão prontas para ajuda e salvamento na região”, disse ainda Khatibzadeh.

Em Washington, o porta-voz do Departamento de Estado Ned Price disse que era “ainda demasiado cedo” para se fazer um avaliação sobre os acontecimentos que se desenrolaram no golfo de Omã. Ainda assim disse: “Temos visto um padrão muito perturbador de beligerância do Irão, incluindo a beligerância no domínio marítimo.”

Price referia-se ao ataque que ocorreu também ao largo de Omã, há uma semana, ao petroleiro de bandeira liberiana Mercer Street, de uma empresa sediada em Londres e propriedade de um bilionário israelita. Executado com um ou dois veículos aéreos não tripulados, segundo informou o Comando Central das Forças Armadas dos EUA, matou dois membros da tripulação, um cidadão britânico e outro romeno. Norte-americanos, israelitas e britânicos condenaram à vez o sucedido.

O primeiro-ministro israelita Naftali Bennett disse estar em posse de provas recolhidas pelos serviços de informações a comprovar o dedo iraniano e disse esperar da comunidade internacional uma mensagem a “deixar claro ao regime iraniano que cometeu um grave erro”, enquanto o secretário de Estado norte-americano Antony Blinken se reservou a dar uma “resposta apropriada”.

A guerra não declarada entre Israel e Irão, depois de ter decorrido em solo libanês, sírio e iraniano, salpicou para o mar, atingindo desde 2019 navios comerciais ligados a ambos os países. Os alvos anteriores incluíram petroleiros iranianos destinados à Síria; um navio iraniano ao largo da costa do Iémen que serviu de base flutuante para os Guardas da Revolução; e navios de carga pertencentes ou ligados a israelitas, incluindo um cargueiro atacado em fevereiro. Quer Israel quer o Irão negam oficialmente qualquer ligação aos ataques.

A instabilidade junto ao estreito de Ormuz, através do qual passa cerca de um quinto dos abastecimentos marítimos de petróleo, não se limita a alvos israelitas. Por exemplo, em janeiro, os Guardas da Revolução invadiram um petroleiro sul-coreano e forçaram o navio a rumar para o Irão, tendo alegado que estava a poluir, mas Teerão quis ter uma moeda de troca com Seul sobre milhares de milhões iranianos congelados nos bancos sul-coreanos.

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