1 fev 2019 às 00:42 hs
EUA vão deixar um dos principais acordos que encerraram a Guerra Fria

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© REUTERS/Brian Snyder

Os Estados Unidos anunciaram que deixarão neste fim de semana um dos principais acordos de desarmamento nuclear da história, o INF (sigla inglesa para Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário), assinado com a então União Soviética em 1987 e que foi um marco do fim da Guerra Fria.

A decisão política havia sido tomada pelo presidente Donald Trump no ano passado, quando ele acusou a Rússia, Estado sucessor do império comunista desmontado em 1991, de violar o acordo ao desenvolver um novo tipo de míssil de cruzeiro.

O anúncio foi feito durante um encontro de segurança nuclear em Pequim pela subsecretária de Estado para Controle de Armas, Andrea Thompson. Ela e o vice-premiê russo, Serguei Riabkov, se reuniram para discutir o ultimato americano dado à Rússia no fim do ano passado, que expirará no próximo dia 4.

Riabkov atacou a colega, dizendo que a Rússia não reconhecia o ultimato. “Eu concluo que os EUA não esperavam nenhuma decisão e que isso foi um jogo para encobrir sua decisão doméstica de deixar o INF”, afirmou à agência russa Sputnik.

Os EUA afirmam que a Rússia tem uma nova arma, o 9M729, que rompe as definições do tratado de 1987, que baniu a instalação em território europeu mísseis de cruzeiro com capacidade nuclear e alcance de 500 km a 5.500 km, lançados do solo.

Os russos dizem que seu míssil é lançado do ar ou de navios, não violando assim o tratado. Mísseis de cruzeiro são “inteligentes”, voando a velocidades subsônicas próximos do solo, desviando do terreno e sendo de difícil detecção por radares.

De uma forma ou de outra, o rompimento é importante politicamente, não do ponto de vista militar. O INF foi fundamental para restaurar alguma sensação de segurança na Europa, que era a linha de frente da Guerra Fria com forças da Otan lideradas pelos EUA posicionadas contra o colosso soviético e seus aliados comunistas do Pacto de Varsóvia.

No fim dos ano 1970, os soviéticos desenvolveram um pesadelo para as populações europeias, o míssil SS-20, de alcance intermediário, que atingiria facilmente as capitais pró-EUA do continente. A resposta dos EUA foi o anúncio da instalação de armas semelhantes, os Pershing-2, o que quase levou a uma guerra de fato no tenso ano de 1983. Eles eram armas balísticas, não de cruzeiro.

O INF levou à eliminação de 1.846 ogivas soviéticas e 846 americanas até 1991. Na prática, contudo, os dois países seguiram desenvolvendo armas com capacidades análogas às dos mísseis proibidos. Não só eles: vários países, incluindo a potência nuclear China, operam tais foguetes.

O próximo passo de Trump deve ser a não renovação do Novo Start, tratado importante de redução de mísseis balísticos intercontinentais, que transportam ogivas nucleares. O acordo para limitar as principais e mais poderosas armas atômicas do mundo foi assinado em 2010, dando sequência a dois acertos similares, e vence em 2021.

Com tudo isso, o presidente russo, Vladimir Putin, acusou os EUA no fim do ano passado de colocar o mundo em um ambiente semelhante ao da Guerra Fria, com um risco mais elevado de um conflito nuclear.

De fato, a administração Trump reformulou sua política de emprego de armas atômicas, na prática facilitando seu uso. A primeira medida prática já ocorreu: nesta semana começaram a ser produzidas as ogivas W76-2, que possuem baixa potência – apenas 5 kilotons, um terço da bomba de Hiroshima.

Os americanos alegam que isso reduziria o impacto do uso da arma, que ficaria centrada em alvos como tropas ou centros de controle. Por outro lado, porém, especialistas argumentam que isso significa admitir o uso de armas nucleares com mais facilidade, e a escalada no confronto com outra potência atômica é evidente: você começa com 5 kilotons e logo estará trocando fogo de 5 megatons.

Contra Putin há a acusação de que ele já havia dado os passos americanos antes, ao revisar sua doutrina nuclear em 2009. De todo modo, concorda com ele o prestigioso Boletim dos Cientistas Atômicos, organização americana que todo ano desde 1947 acerta os ponteiros do Relógio do Juízo Final em janeiro.

Criado para alertar o mundo sobre o risco da extinção por uma guerra nuclear, neste século o relógio adicionou aos fatores apocalípticos a mudança climática. Na semana passada, ele foi mantido na nada confortável posição de dois minutos para meia-noite, o horário simbólico do fim do mundo.

Um dos motivos para tanto é justamente a renovada tensão nuclear entre EUA e Rússia, países que detêm 92% das cerca de 14,5 mil ogivas atômicas do mundo. Com informações da Folhapress.

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