12 ago 2017 às 05:02 hs
Da Coreia à Casa Branca Trump chama os generais para pôr a casa em ordem

DN

John Kelly, James Mattis e Jospeh Dunford, três dos quatro generais de Trump. Falta aqui H.R. McMaste

Novo dia, nova troca de palavras. Depois de Pyongyang ter acusado Donald Trump de colocar a península coreana à beira da “guerra nuclear”, o presidente dos EUA veio ontem garantir que “as soluções militares estão preparadas” caso a Coreia do Norte “aja de forma insensata”. Mas enquanto Trump subia um pouco mais o tom, garantindo que ao ameaçar lançar o “fogo e a fúria” sobre os norte-coreanos, “não foi suficientemente duro”, coube ao secretário da Defesa, James Mattis, vir pôr alguma água na fervura. O general na reserva admitiu que uma guerra seria “uma catástrofe” e garantiu que a diplomacia ainda é a via preferida dos EUA para chegar a uma solução.

Veterano do Afeganistão e do Iraque, antigo comandante das forças da NATO e 11.º comandante do Comando Central dos EUA, Mattis ganhou a alcunha Mad Dog (“Cão Louco”) pela forma destemida como liderava os seus homens. Nomeado secretário da Defesa por Trump, faz parte do esquadrão de generais do presidente americano. Neste Eixo do poder militar encontram-se ainda o chefe do Estado-Maior Interarmas, Joseph Dunford, o conselheiro para a Segurança Nacional, John Kelly, que em julho deixou o Departamento de Segurança Nacional para ser chefe de gabinete de Trump, e H.R. McMaster, que substituiu outro general, Michael Flynn, afastado de conselheiro para a Segurança Nacional um mês após tomar posse.

Sem papas na língua a pontos de alguns até o considerarem um pouco rude, Kelly foi a solução que Trump encontrou para acabar com o caos na Casa Branca depois de uma semana de sucessivos ataques, tricas e demissões. Tudo começou com a contratação de Anthony Scaramucci para diretor de comunicações. A entrada do ex-banqueiro ditou a saída do porta-voz, Sean Spicer. Dias depois, e após várias acusações por parte de Scaramucci de ser responsável pelas fugas de informação para a imprensa, foi a vez de Reince Priebus se demitir de chefe de gabinete. Ora quando todos pensavam que Scaramucci era o novo homem forte da Casa Branca, foi ele próprio afastado e substituído por Kelly após dez dias no cargo.

As guerras na Casa Branca eram há muito conhecidas, com Priebus a liderar a ala moderada, mais próxima do Partido Republicano, do qual foi presidente antes de ir para a Administração, e Steve Bannon, o cofundador do site de notícias Breitbart News, à frente da ala radical, próxima da extrema-direita e defensor de ideias muitas vezes racistas e xenófobas.

Segundo o New York Times, Kelly não tardou a impor alguma disciplina militar na Casa Branca, começando por limitar o acesso à Sala Oval, até então aberto a qualquer funcionário. E apoiou McMaster, envolvido numa batalha com Bannon. Este último opunha-se à destituição do Conselho de Segurança Nacional de Ezra Cohen-Watnik, próxima de estratega principal da Casa Branca e de Jared Kushner, o genro e conselheiro de Trump.

Vistos como um grupo, os generais de Trump têm surgido até agora como as vozes do pragmatismo e da defesa do papel dos EUA no palco internacional. A nível interno, fazem contrapeso à fação nacionalista e populista que tenta dominar a Casa Branca. No fundo, e segundo um artigo do jornal online Politico, a sua missão é dupla: Por um lado corrigir os erros da Administração de Barack Obama, cujas “hesitações eram vistas por muitos aliados como um recuo dos EUA dos seus compromissos internacionais”. Por outro lado, “mitigar os danos causados pelo seu chefe”.

A acreditar no chefe do orçamento da Casa Branca, Mick Mulvaney, a razão para Trump se rodear de generais é simples: “Ele gosta de trabalhar com generais”. Depois de o presidente ter aumentado em 10% o orçamento da Defesa, a escolha de militares para alguns dos principais cargos ligados à política externa americana levou os críticos a levantar dúvidas sobre a militarização desta última na era Trump. Mas a verdade é que até agora os generais parecem ter trazido uma “dose de sanidade e experiência a uma administração que bem precisa de ambas”, escrevia Peter Apps, analista de assuntos globais da Reuters.

Com a sua experiência e organização militar, os generais podem ter agora, com Trump a subir o tom com a Coreia do Norte, o seu papel mais importante. Como chefe do Estado-Maior de todos os ramos das forças armadas americanas, Joseph Dunford tem discutido o reforço da cooperação com o Japão, a Coreia do Sul e a China. Segundo o editorial de ontem do Global Times, jornal oficial do PC Chinês, em caso de guerra, Pequim não irá intervir caso o ataque parta de Pyongyang. Já de forem os EUA os primeiros a disparar, a China promete “impedi-lo” de forma a manter o “equilíbrio de forças na península”.

Dunford pode ser uma peça essencial num momento em que a Coreia do Norte diz estar a preparar um ataque contra Guam, território americano no Pacífico. Pyongyang ameaça lançar quatro mísseis em direção à ilha nos próximos dias. Mas Dunford, como os outros generais de Trump, já provou que nem sempre diz o que o presidente gostaria de ouvir. Depois de este ter banido os transexuais das forças armadas americanas, o general veio a público explicar que a medida só seria efetiva quando fosse formalizada. E acrescentou que até lá os transexuais continuariam a ser bem tratados pelos militares.

Apelos ao nuclear na Coreia do Sul

À medida que a retórica se torna mais bélica entre Washington e Pyongyang, na Coreia do Sul há cada vez mais vozes a pedir para o país apostar num arsenal nuclear próprio. Um cenário que parece longe de se concretizar mas que viria apenas incendiar mais os ânimos. A Coreia do Sul, onde estão destacados 28 500 soldados americanos, está proibida de desenvolver armas nucleares desde a assinatura em 1974 de um tratado sobre a energia atómica com os EUA. Em troca, os americanos garantem a proteção do país pelo seu “guarda-chuva nuclear”.

Mas confrontados com as ameaças regulares de Pyongyang, que promete transformar Seul num “mar de chamas”, alguns media sul-coreanos lançaram uma campanha a apelar ao governo para apostar no nuclear. “Chegou a hora de avaliar as armas nucleares”, escrevia ontem o Korea Herald em editorial. Já o Chosun Ilbo explicava que “a catástrofe paira” e “todas as opções, até as que pareciam impensáveis, devem estar na mesa”.

Na vanguarda da tecnologia, os analistas estimam que a Coreia do Sul terá meios e conhecimentos para em poucos meses desenvolver uma bomba atómica. Em 2016, uma sondagem mostrava que 57% dos sul-coreanos apoiavam a ideia de terem um arsenal nuclear, contra 31% que eram contra.

Desde 2006, a Coreia do Norte já realizou cinco ensaios nucleares. Desde fevereiro também efetuou o lançamento de 17 mísseis em 12 ocasiões diferentes.

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