12 ago 2017 às 05:19 hs
Chuva de ovos em Salvador abriu campanha não oficial no Brasil

João Doria quer suceder a Michel Temer no Planalto. Temer diz que Doria é uma liderança nacional

  |  EPA/SEBASTIAO MOREIRA

Incidente em viagem do pré-candidato João Doria serviu de tiro de partida para as equipas dos concorrentes a 2018 se moverem a sério, a um ano das eleições

O que seria apenas mais uma operação de charme de pé de página de um dos candidatos a candidato nas eleições para a presidência de 7 de outubro de 2018 ganhou proporções de incidente de campanha. Ao ser atingido num evento em Salvador na terça-feira por uma chuva de ovos, organizada, segundo as autoridades, por militantes de esquerda, o concorrente preferido da direita, João Doria, disse após o incidente sentir-se “revigorado para lutar pelo Brasil”. A seguir, bradou contra o regime venezuelano, a esquerda em geral, e, claro, Lula da Silva, líder das sondagens. Lula deve dar o troco na próxima semana, no mesmo local, onde iniciará o périplo pré-eleitoral por 28 cidades de nove estados. Os dados estão lançados.

Os ovos da Bahia serviram não só para Doria, prefeito de São Paulo, e Lula, presidente de 2003 a 2011, mas para a extensa lista de pré-candidatos se posicionarem. O capitão na reserva Jair Bolsonaro, por exemplo, aproveitou o embalo para mudar do PSC para o PEN, onde terá liberdade para tudo, até para rebatizar o partido com um nome – Patriotas – e um programa à sua medida. Dirigentes do PSC, incluindo Silas Malafaia, pastor da igreja Vitória em Cristo, criticaram a saída de Bolsonaro mas o candidato decidiu-se depois de o presidente do partido e candidato em 2014 pastor Everaldo, que o batizou nas águas do rio Jordão, ter sido incluído em listas de delação da Operação Lava-Jato.

Com um partido também construído à sua medida, Marina Silva mantém o “nim” sempre que questionada sobre se é candidata pela terceira vez seguida. Mas os dirigentes do Rede animaram-se ao saberem que a ambientalista já vai no segundo check-up em 2017 – ela testa sempre a saúde nas vésperas das campanhas.

Nos corredores de Brasília, os atuais mandatários também se movem: o ministro das Finanças, Henrique Meirelles, tem vindo a reunir–se com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, no sentido de criar uma dupla presidencial. Além de assegurarem o apoio dos seus partidos, PSD e DEM, ainda poderiam ter a máquina do PMDB, do presidente Michel Temer, por trás. Para a candidatura ser competitiva, porém, é necessário que a economia tenha bom desempenho.

O PMDB, parte essencial dos sucessivos governos desde a redemocratização em 1985, corre o risco de mais uma vez não ter nome próprio para concorrer em 2018 – Temer, por exemplo, tem 5% de popularidade e a justiça na sua pista. Mas além da solução Meirelles joga noutro tabuleiro: Doria. O visado na chuva de ovos de Salvador pode ter os caminhos tapados no seu partido, o PSDB, onde Geraldo Alckmin, governador do estado de São Paulo, tem um domínio superior das bases. Nessa eventualidade, o prefeito paulistano, cujo slogan é “eu não sou político”, poderia fazer útil parceria com o partido mais conotado com a velha política do país. “Ele já é uma liderança nacional”, assumiu Temer em evento recente com Doria.

O próprio Doria, porém, cogita convidar para seu vice-presidente Antônio Carlos Magalhães Neto, o prefeito de Salvador e anfitrião no evento da chuva de ovos, do DEM, e assim esvaziar a dupla Meirelles–Maia, sua concorrente no campo da direita liberal. Empresário da área do marketing, o candidato a candidato já se fez fotografar entretanto na capa da revista IstoÉ sob o título “nasce o anti-Lula” para arregimentar toda a direita em seu redor.

E Lula, a partir de quarta-feira, vai visitar 28 cidades de nove estados do Nordeste, reduto do PT por natureza, visando ser recebido com chuva de aplausos em vez de ovos. O líder de todos os cenários de primeira volta nas sondagens, porém, trabalha com a possibilidade real de ser impedido de concorrer ao Planalto por causa da sentença de nove anos e meio por corrupção na Lava-Jato, fora outros processos.

Nessa eventualidade, Fernando Haddad, o antecessor de Doria na prefeitura de São Paulo e cada vez mais assumido plano B do PT, também faz périplo em palestras pelo país a criticar Temer. Caso se candidate, Haddad poderia ter a seu lado Ciro Gomes, do PDT, que condiciona a sua participação nas eleições a uma desistência de Lula, para tentar reunir toda a esquerda.

Em São Paulo

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