Dez dias para Trump decidir sobre nuclear dos ayatollahs

Correio do Pantanal

2 maio 2018 às 08:59 hs
Dez dias para Trump decidir sobre nuclear dos ayatollahs

O guia supremo Ali Khamenei (diante do retrato do ayatollah Khomeini) ameaçou “cortar os pés aos EUA” no Médio Oriente

 

Europeus mostraram-se céticos um dia após primeiro-ministro israelita acusar Teerão de mentir sobre programa nuclear. Irão acusa-o de tentar influenciar o presidente americano.

 

Diário de Noticias,

 

“Infantil”, “inútil”, “vergonhosa” e destinada a influenciar a decisão de Donald Trump sobre o acordo nuclear com o Irão. A dez dias da data fixada pelo presidente americano para anunciar se sai ou não do acordo assinado em 2015, esta foi ontem a resposta do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano à apresentação feita na véspera pelo primeiro-ministro israelita Netanyahu, em que acusava o Irão de mentir ao mundo e continuar com o seu programa nuclear. Com recurso ao PowerPoint, Netanyahu mostrou ficheiros com pormenores de um projeto para construir uma bomba atómica que estaria suspenso há 15 anos. Informações apoiadas num primeiro momento pelos EUA mas que deixaram céticos os europeus.

França, Reino Unido e União Europeia todos concordaram que se a informação revelada pelo chefe do governo israelita dá uma ideia da escala do programa iraniano antes de 2015, não prova que Teerão tenha violado o acordo. Este foi assinado em Viena por EUA, China, Rússia, França, Reino Unido e Alemanha. E continuam convictos de que Teerão está a reduzir a sua capacidade para produzir urânio enriquecido.

A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), que monitoriza a aplicação do acordo, garantiu não ter “qualquer indicação credível de atividades no Irão ligadas ao desenvolvimento de um engenho nuclear após 2009”. Mas está disposta a analisar as informações de Israel. Na CNN, Netanyahu garantiu ontem: “Ninguém está mais bem informado do que Israel sobre o Irão.”A hostilidade entre os velhos inimigos tem crescido à medida que o Irão vai reforçando a presença militar na Síria, às portas de Israel.

Num momento em que a tensão com a Coreia do Norte deixou lugar a uma esperança de paz (a cimeira entre Trump e Kim Jong-un está prevista para maio ou junho), o presidente americano vira as atenções para outro nuclear: o dos ayatollahs. Trump está convencido de que o acordo com o Irão é “o pior de sempre”, mas recusou, até agora, voltar a impor sanções. Em janeiro ameaçou sair do acordo se as restantes potências signatárias e o Congresso dos EUA não lhe derem garantias de que as “falhas desastrosas”foram resolvidas. O presidente queixou-se de que o texto obriga o Irão a circunscrever as atividades nucleares apenas por um período de tempo limitado, não o impediu de testar mísseis balísticos, além de, ao levantar as sanções, ter dado a Teerão cem mil milhões de dólares que usam como “fundo de maneio para armas, terror e opressão” no Médio Oriente.

Teerão insiste que o seu programa nuclear é pacífico e já garantiu que o acordo de 2015 “não é renegociável”. O presidente Hassan Rouhani alertou para “sérias consequências” em caso de novas sanções e o guia supremo, o ayatollah Ali Khamenei, disse ser preciso “cortar os pés” aos EUA no Médio Oriente. O Irão garante que só precisa de dias para acelerar o enriquecimento de urânio, além de ameaçar sair do Tratado de não Proliferação Nuclear. No terreno, os inspetores da AIEA já certificaram 11 vezes desde 2016 que Teerão está a cumprir o acordo. Mas a agência registou algumas “violações técnicas”. Além disso, as instalações militares ficaram de fora do acordo. Quanto ao lançamento de mísseis balísticos, Teerão garante que não se destinam a carregar ogivas nucleares.

Na semana passada, o presidente francês, Emmanuel Macron, esteve em Washington, onde tentou convencer Trump a manter os EUA no acordo. Macron admitiu que o documento não é perfeito e falou na necessidade de um novo acordo.

O extremar de posições pode significar um Irão nuclear a curto/médio prazo. Na região, vários países têm projetos de reatores nucleares. A começar pela Arábia Saudita, a grande rival sunita do Irão xiita na disputa pela supremacia regional. Riade planeia gastar 80 mil milhões de dólares na construção de 16 reatores nos próximos 25 anos. E garante que se o Irão tiver a bomba, ela também terá. Em março, os Emirados Árabes Unidos terminaram a construção do primeiro reator nuclear do mundo árabe.

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