12 set 2018 às 09:29 hs
Vício no celular desde pequeno põe até a alfabetização em risco

Tecnologia tem seus dois lados, mas falta de controle transforma a ferramenta em rival

Danielle Valentim e Ricardo Campos Jr.
Psicopedagoga defende que idade ideal para presentear filho com celular é depois da alfabetização e para uso da web, 12 anos. (Foto: Agência Brasil)
Psicopedagoga defende que idade ideal para presentear filho com celular é depois da alfabetização e para uso da web, 12 anos. (Foto: Agência Brasil)

O uso excessivo do celular pelas crianças é influenciado pelos próprios pais, que de alguma forma oferecem os aparelhos como distração. Nem todos se atentam, mas os especialistas cada vez mais fazem o alerta de que não limitar ou filtrar essa aproximação com a tecnologia prejudica o desenvolvimento cognitivo, incluindo a fala e alfabetização da criança.

A tecnologia tem seus dois lados, afinal, ver uma criança menor de 5 anos usar os “dedinhos” para achar o vídeo preferido, é um avanço admirável. Mas quem lida com as situações no dia a dia  garante que a falta de controle transforma a ferramenta em uma potencial rival. Não há dados estatísticos em Campo Grande sobre crianças diagnosticadas com dificuldades na alfabetização por influência do uso do celular, mas escolas já apontam casos.

Problema começa “lá atrás” – A diretora de educação infantil do Colégio Harmonia, Talita Martins, pontua que alfabetização exige dedicação e concentração. O uso excessivo faz com que a criança perca contato sensorial e os problemas só aparecem no momento da alfabetização.

“A fase da alfabetização exige esforço do aluno. Uma pesquisa canadense revela que quanto maior o tempo de tela maior a probabilidade de uma criança apresentar atrasos no desenvolvimento da fala e criança com atraso na fala, tem dificuldade na alfabetização. Para aprender a escrever, o aluno precisa de um repertório verbal”, explica.

A solução está no equilíbrio. Talita esclarece não há como eliminar a tecnologia da vida das crianças, mas os pais precisam analisar o conteúdo, sendo ele educativo e com tempo de acesso fracionado. Na unidade, os casos de crianças com dificuldades na alfabetização não estão, necessariamente, ligados ao acesso à tecnologia, mas quando se confirma, a solução é prática.

“No momento em que a escola diagnostica, o primeiro passo é chamar a família, para tentar entender como é a rotina dessas crianças fora da escola. Normalmente, o aluno em dificuldade por causa do celular, mescla comportamentos distraídos, agitados ou agressivos. Diante disso, a escola apresenta uma estratégia de controle de uso da televisão, videogame ou celular”, explica.
Para orientar os pais, a escola segue orientações da Academia Americana de Pediatria, que sugere o controle do uso, por idade e por hora.

“Até os 5 anos sugerimos uma hora de tela, fracionado ao longo do dia. Antes dos 5 anos tem de brincar ao livre, no quintal, praças e com água. O conteúdo também precisa ser pedagógico, com temas que contribuem para o desenvolvimento da criança. A partir dos 5 anos, não tem uma recomendação específica, mas a escola sugere o mesmo controle”, disse.

Por outro lado – A psicopedagoga Tânia Maria Filiu de Souza, mestre e doutoranda em educação, defende uma “idade certa”. Para ela, alfabetizar significa orientar a criança para o domínio da tecnologia da escrita e a letra cursiva e o ideal é que a criança só comece a fazer o uso de celulares, tablets e aparelhos com telas depois de alfabetizada.

“Os pais devem refletir antes de presentear o filho com um celular. Para o uso da Web, aconselho a partir dos 12 anos, quando a criança apresenta autonomia e certa maturidade intelectual e emocional. Recentemente, um jornal apresentou uma reportagem a respeito do manuseamento de aparelhos com tela para crianças pequenas, menores de 2 anos. A preocupação dos especialistas, principalmente da Sociedade Brasileira de Pediatria, é que o uso destes aparelhos possam prejudicar o desenvolvimento cognitivo (fala, escrita), o emocional e o sono das crianças”, explica.

Para a doutoranda, é possível reverter casos já diagnosticados, mas os pais precisam fazer parte da mudança.

“Estamos vivenciando uma pariedade distraída, as crianças se queixam que seus pais vivem muito no celular, há uma ausência de comunicação entre pais e filhos. O adulto usa o celular bem parecido com as crianças, relações intermediadas pelas redes, os pais devem fazer pausas com o uso do celular, principalmente quando estão em casa, conversar com seus filhos, manter um clima comunicativo-emocional favorecendo o processo de aprendizado das crianças. É preciso lidar com celular com a intencionalidade pedagógica, para promover desenvolvimento e aprendizagem”, finalizou.

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