11 mar 2018 às 10:49 hs
Trump entre a guerra com a UE e a paz com a Coreia

Trump mostra a proclamação que impõe taxas sobre o aço e alumínio estrangeiros, acompanhado por trabalhadores americanos do setor

  |  EPA/MICHAEL REYNOLDS

Bruxelas está preparada para responder proporcionalmente às taxas aprovadas pela Casa Branca, mas para já procura ficar isenta. Pyongyang terá prometido suspender testes por agora

Quinta-feira, 8 de março. No espaço de 24 horas, Donald Trump parece ter ficado mais perto da paz com a Coreia do Norte, depois de ser convidado por Kim Jong-un para um encontro, mas abriu o que pode vir a ser uma guerra com a União Europeia (e não só) com o anúncio da aplicação de taxas aduaneiras de 25% sobre o aço e de 10% sobre o alumínio.

O presidente dos Estados Unidos defendeu estas taxas, que começarão a ser aplicadas dentro de duas semanas, dizendo que os os produtores americanos precisam de ser protegidos por questões de segurança nacional. “Vamos ser muito justos, vamos ser muito flexíveis”, afirmou Trump na quinta-feira. México e Canadá são, para já, os dois únicos países isentos.

A resposta da União Europeia não se fez esperar, com a comissária para o Comércio, Cecilia Malmström, a avisar que Bruxelas estava preparada para taxar as importações de manteiga de amendoim, sumo de laranja, arandos e bourbon. Também o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, alertou os Estados Unidos de que as “guerras comerciais são más e fáceis de perder”, enquanto que o líder da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, garantiu que Bruxelas não iria ficar sentada “enquanto a nossa indústria é atingida por medidas injustas que colocam em risco milhares de empregos europeus… A UE reagirá firme e proporcionalmente para defender nossos interesses”.

Já ontem, a União Europeia e o Japão insistiram junto dos Estados Unidos para que lhe sejam concedidas isenções nas tarifas sobre o aço e o alumínio, sendo que Tóquio apelou a um “comportamento calmo” neste assunto, pois poderá resultar numa guerra comercial. Mas para já, do encontro deste sábado entre a comissária europeia Cecilia Malmström, o ministro da Economia japonês, Hiroshige Seko, e o representante dos EUA para o Comércio, Robert Lighthizer, saiu a conclusão de que as negociações precisam de continuar, o que acontecerá já na próxima semana, e de que Washington ainda não esclareceu o que é preciso para se conseguir uma isenção.

Claro está já que a UE não está disposta a muito para consegui-lo. “Esta não é uma negociação comercial. Estamos a falar de uma ação unilateral contra as regras internacionais”, afirmou na sexta-feira Jyrki Katainen, o vice-presidente da Comissão Europeia e responsável pela pasta da Competitividade.

A UE exportou para os EUA, em 2017, 5,3 mil milhões de euros de aço e 1,1 mil milhões de euros de alumínio, sendo que Bruxelas estima que as taxas agora impostas por Donald Trump poderão custar cerca de 2,8 mil milhões ao bloco.

Além do Japão, a UE está a procurar outros aliados, tendo o embaixador da UE em Brasília, o português João Gomes Cravinho, falado na hipótese de se concertar uma resposta às tarifas de Donald Trump com Brasil e Austrália.

A China acusou também o presidente americano de estar a “atacar” o comércio mundial, prometendo adotar uma “resposta adequada e necessária”. “Num mundo globalizado, quem recorre a uma guerra comercial está a seguir a receita errada”, afirmou o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi. “A história ensinou-nos que as guerras comerciais nunca são o caminho correto para a resolução de problemas”, acrescentou.

Pyongyang em silêncio

A braços com uma potencial guerra comercial, Trump parece atravessar tempos de paz com a Coreia do Norte, após meses de acesas trocas de palavras entre Washington e Pyongyang. Ainda não se sabe quando e onde terá lugar o encontro entre o líder americano e norte-coreano (a convite de Kim Jong-un, anunciou a Coreia do Sul na quinta-feira), mas ontem o republicano afirmou que a Coreia do Norte concordou em suspender os testes a mísseis. “A Coreia do Norte não faz um teste desde 28 de novembro de 2017 e prometeu não fazê-lo até às nossas reuniões. Acredito que vão honrar esse compromisso!”, tuitou ontem o presidente americano.

Trump usou o Twitter para mostrar que os líderes de China e Japão apoiam este encontro, mas não esclareceu quando e onde este poderá ter lugar e quais são as condições de Washington para que ele se realize – na sexta-feira, depois de Trump ter tuitado o seu sim ao convite, a porta-voz da Casa Branca afirmou que este encontro não terá lugar “sem se verem passos concretos e ações concretas da parte da Coreia do Norte”. “O presidente Xi [Jinping]disse-me que aprecia que os EUA estão a trabalhar para resolver o problema diplomaticamente, em vez de optar pela alternativa ameaçadora. A China continua a ser útil!”, escreveu, adiantando uma hora depois: “Falei com o primeiro-ministro [Shinzo] Abe do Japão, que está muito entusiasmado”.

O grande silêncio em torno deste possível encontro vem, curiosamente, de Pyongyang. Os media estatais norte-coreanos noticiaram a visita de uma delegação da vizinha do Sul no início da semana, mas até ontem ainda não tinha dado atenção ao convite de Kim Jong-un a Trump nem à cimeira entre as duas Coreia, marcada para abril e que servirá para discutir o programa nuclear do regime norte-coreano. “Na Coreia do Norte, a liderança não vai passar a informação aos media até terem a certeza de que as cimeiras irão acontecer”, disse à Reuters Shin Beom-chul, professor na Academia Nacional Coreana de Diplomacia, em Seul.

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