13 mar 2018 às 06:33 hs
May acusa russos de envenenar ex-espião e ameaça retaliar

Primeira-ministra britânica, Theresa May, numa cerimónia com a Rainha Isabel II antes de ir falar ao Parlamento

  |  REUTERS/PETER NICHOLLS

Primeira-ministra britânica exige explicações de Moscovo até amanhã. Vladimir Putin avisa que britânicos devem tirar as coisas a limpo antes de apontar o dedo

A seis dias das presidenciais russas, a tensão Londres-Moscovo (com a União Europeia à mistura) encontra-se ao mais alto nível. Em causa, o envenenamento do ex-espião russo Serguei Skripal em território do Reino Unido (e a intenção de realizar as presidenciais russas também na Crimeia, território anexado por Moscovo à Ucrânia).
O pico da tensão deu-se ontem à tarde quando a primeira-ministra britânica, Theresa May, disse no Parlamento que é “muito provável que a Rússia seja responsável” pelo envenenamento do ex-espião de 66 anos e da sua filha de 33. Serguei Skripal e Yulia foram encontrados inconscientes no dia 4, num banco de um centro comercial em Salisbury, no Sul de Inglaterra.

Na semana seguinte, as autoridades britânicas revelaram que o agente duplo russo e a sua filha tinham sido vítimas de um ataque deliberado com um agente que ataca o sistema nervoso. Os dois estão nos cuidados intensivos, em estado crítico, mas estável. Um polícia que os socorreu em primeiro lugar está em estado grave estável. Ontem, no Parlamento britânico, May especificou que os três foram expostos a uma substância conhecida como novichok, uma arma química desenvolvida pela então União Soviética no final do período da Guerra Fria.

“Não vamos tolerar uma tentativa tão descarada de assassinar civis inocentes em solo britânico”, frisou a chefe do governo britânico, falando num ataque “cego e imprudente contra o Reino Unido”. May vai reunir-se amanhã com os chefes da segurança e dos serviços de informações para decidir possíveis medidas de retaliação. “Caso não exista uma resposta credível” por parte de Moscovo, “iremos considerar que esta ação constitui um uso ilegal da força pelo Estado russo contra o Reino Unido”, acrescentou a governante britânica. May lembrou vários episódios de “agressão do Estado russo”, como o conflito no Leste da Ucrânia, a anexação da Crimeia em 2014 ou o envenenamento com polónio 210 do ex-espião russo Alexandre Litvinenko, em Londres, em 2006. Declarando-se pronta “para assumir medidas mais importantes”, a primeira-ministra britânica lembrou a presença de tropas do Reino Unido na Estónia no âmbito da NATO.

Numa reação às declarações de May perante o Parlamento, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo disse que tudo não passou de um “espetáculo de circo no Parlamento britânico”. Maria Zakharova sublinhou: “As conclusões são claras: uma nova campanha de propaganda informativa assente em provocações.” Horas antes, o jornalista Dmitry Kiselyov insinuou num programa do canal de televisão Rossiya 1 que o envenenamento de Skripal pode ser uma encenação britânica para provocar um boicote internacional ao Mundial de Futebol, que começa a 15 de junho na Rússia.

“Como fonte, Skripal tinha muito pouco interesse. Mas como vítima de envenenamento, era de bastante utilidade. Então porque não envenená-lo? Sem problema. E logo juntamente com a filha, que é para ser uma história mais comovente para a opinião pública”, declarou o apresentador de televisão pró-Kremlin. Skripal traiu dezenas de agentes russos e passou-se para o lado britânico. Foi preso em Moscovo. Cumpriu 13 anos de prisão. Em 2010 foi trocado por espiões russos e foi para o Reino Unido.

Antes do jornalista e da porta-voz do governo russo, já o próprio presidente Vladimir Putin tinha deixado um recado ao governo de Theresa May. “Tirem as coisas a limpo do vosso lado e depois falaremos convosco”, declarou ontem em resposta a uma pergunta da televisão britânica BBC. Em Londres, a embaixada russa acusou o governo britânico de estar a jogar “um jogo muito perigoso”.

No que toca às eleições presidenciais russas de domingo, em que Putin deverá sair vencedor, a alta representante da política externa da UE, Federica Mogherini, assegurou ontem que a UE não reconhecerá a votação na península da Crimeia, anexada pela Rússia, sublinhando o apoio dos europeus à integridade territorial ucraniana. “A União Europeia não se cansa de apoiar a Ucrânia”, declarou a chefe da diplomacia europeia, depois de uma reunião com o presidente ucraniano, Petro Poroshenko, realizada em Kiev.

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