12 nov 2018 às 16:39 hs
Levantamento apontava em 2009 risco de deslizamento no Morro da Boa Esperança

Por Danilo Vieira, Luciana Cordeiro e Priscila Chagas, TV Globo


Prefeitura admite que Boa Esperança não estava em mapeamento de risco de 2012
Prefeitura admite que Boa Esperança não estava em mapeamento de risco de 2012

rompimento e o deslizamento de uma pedra no Morro da Boa Esperança, que deixaram 15 mortos confirmados até esta segunda-feira (12), não eram um incidente iminente para a Prefeitura de Niterói, na Região Metropolitana do Rio. No entanto, um professor da Universidade Federal Fluminense fez um levantamento completo da região e dizia, já em 2009, que o risco de deslizamentos na região era “médio”, e que todos os morros da cidade precisavam deste acompanhamento.

Segundo relatório, o morro precisava de monitoramento constante por causa da possibilidade de deslizamento e das construções irregulares na área. O estudo foi feito a pedido do Ministério das Cidades e da Prefeitura de Niterói.

Tragédia ocorreu no Morro da Boa Esperança, no Bairro de Piratininga, em Niterói — Foto: Arte/G1
Tragédia ocorreu no Morro da Boa Esperança, no Bairro de Piratininga, em Niterói — Foto: Arte/G1

O que aumentou o risco de deslizamento, segundo Elson Nascimento, professor da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense, foi a ocupação irregular, que mudou a forma de drenagem da água da chuva e pode ter causado infiltrações que deixaram o solo úmido.

Não é só uma questão hidrotécnica e hidrológica, é uma questão de ocupação, de habitação para a população de baixa renda. Então, a expectativa que se tem é que essas situações tenham piorado, devido a essas ocupações nas encostas.
— Elson Nascimento, professor do Departamento de Recursos Hídricos da UFF

No ano passado, a Defesa Civil de Niterói interditou casas na comunidade. “A prefeitura já sabia que ia acontecer. Falou que ia tomar providência e não tomou providência nenhuma”, contou a empregada doméstica Rosimeri da Silva.

Uma das vítimas do deslizamento no Morro da Boa Esperança se chamava Maria Madalena. Dez anos atrás, a casa dela já tinha sido atingida por outro deslizamento. A vítima foi morar com um vizinho e, pouco tempo depois precisou voltar para a casa onde morreu no último sábado (10).

Em 2010, o subsecretário de Defesa Civil assinou laudo interditando a casa da empregada doméstica Sandra da Silva Francisco por risco de desabamento. “A Defesa Civil tinha condenado o lugar, pedimos ajuda, fizemos um cadastramento do Minha Casa, Minha Vida e o aluguel social, foi tudo muito demorado, tivemos que voltar”, disse Sandra.

Apesar dos laudos, relatos e do histórico de deslizamentos, o prefeito de NIterói, Rodrigo Neves, disse no domingo que o Morro da Boa Esperança não é uma área de alto risco.

Em 2012, houve, ainda na gestão anterior a minha, um inventário sobre áreas de alto risco, 42 áreas de alto risco subsidiaram a implantação da Defesa Civil de sirenes. Nenhum estudo indicava essa área como uma área de alto risco.
— Rodrigo Neves, prefeito de Niterói
Deslizamento no Morro da Boa Esperança, Niterói, deixou 15 mortos — Foto: Reprodução / TV Globo
Deslizamento no Morro da Boa Esperança, Niterói, deixou 15 mortos — Foto: Reprodução / TV Globo

Responsabilidade

Diretora de Recursos Minerais do Estado do Rio, Aline Freitas da Silva disse que a responsabilidade pelo monitoramento de risco do local era da Prefeitura de Niterói. “Nós não tínhamos mapeados nem tínhamos sido solicitados para fazer esse mapeamento aqui”, explicou.

Em entrevista neste domingo, o prefeito Rodrigo Neves afirmou que não havia indicativo de risco. “Não sou técnico da área, mas nas três esferas de governo, seja federal, estadual e municipal, nenhum estudo indicava como área de alto risco”, disse ele.

O maciço se rompeu. Esse fenômeno, é um fenômeno que eu não sou técnico, mas tenho ouvido vários técnicos, é um fenômeno completamente imprevisto, tá certo?
— Rodrigo Neves, no domingo

Segundo o coronel da Defesa Civil de Niterói, Wallace Medeiros, as chuvas que ocorreram antes do deslizamento de sábado não foram fortes o suficiente para transformar a área em um local de alto risco de deslizamentos. Para ele, a comunidade não possui sirenes funcionando, mas talvez não fosse o suficiente para evitar a tragédia.

“Nesse fato específico não houve chuva que ocorresse em volume necessário para que se deflagrasse um deslizamento. Se houvesse a sirene na comunidade, não teria sido utilizada” , disse o coronel.

Segundo o prefeito e o presidente do Departamento de Recursos Minerais, o deslizamento era imprevisível. O departamento disse que vai fazer um estudo completo.

A Secrataria Nacional de Defesa Civil anunciou que vai liberar recursos para a cidade. E o prefeito disse que também vai tomar providências.

“Eu vou pedir ao governador eleito que implante sistema de sirenes, Bonsucesso, Esperança e Caniçal pra que a gente possa ter nessas três comunidades o sistema de sirenes funcionando”, finalizou Rodrigo Neves.

Buscas por desaparecidos no Morro da Boa Esperança, em Niterói, são mantidas durante a noite — Foto: TV Globo
Buscas por desaparecidos no Morro da Boa Esperança, em Niterói, são mantidas durante a noite — Foto: TV Globo
Corpo de criança vítima do deslizamento no Morro da Boa Esperança é levado para ser enterrado — Foto: Cristina Boeckel/G1
Corpo de criança vítima do deslizamento no Morro da Boa Esperança é levado para ser enterrado — Foto: Cristina Boeckel/G1
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