13 mar 2018 às 06:28 hs
Francisco já disse que não sai a pontapé. Sai quando não puder mais

Papa Francisco

  |  REUTERS/ALESSANDRO BIANCHI

Bento XVI abriu caminho ao tema da resignação, que deixou de ser tabu. Francisco admite sair se lhe faltarem condições de saúde

Com a resignação de Bento XVI há cinco anos, esta questão deixou de ser inesperada (afinal, a última vez que acontecera tinha sido seis séculos antes, em 1415). E deixou de ser tabu: Francisco já se referiu mais do que uma vez à possibilidade de, também ele, resignar à cadeira de Pedro.

Para o teólogo Anselmo Borges (e colunista do DN), aquele “gesto histórico” marcará para sempre o seu legado. “Será sempre lembrado por isso. É um gesto de humildade, de significado histórico”, apontou, e o próprio Bento XVI “queria que fosse significativo”.

O Papa Francisco tem 81 anos e “já disse que não sai a pontapé” – enfrentando assim os seus “grandes opositores e inimigos dentro da Igreja, nomeadamente dentro do Vaticano”. “Mas também já disse que, quando não puder, resignará”, apontou o também professor de Filosofia.

Em 2015, Francisco dizia que tinha “a sensação” de que o seu “pontificado será breve”. “Tenho a sensação de que o Senhor me colocou aqui para uma missão breve”, confessava, ele que também problemas de saúde.

Com uma contestação crescente de setores mais conservadores e integristas, em maio de 2016, Francisco afirmou que não teria de seguir as pisadas de Bento XVI. “Nunca pensei em desistir de ser papa, ou em abandonar [o cargo] devido às muitas responsabilidades [do lugar]”, disse o Papa Bergoglio. Mas meses depois admitia a possibilidade de deixar a Igreja com dois bispos eméritos se lhe faltassem as condições mínimas de saúde física e mental.

O teólogo Anselmo Borges tem uma convicção, no caso de Francisco resignar. “O Papa não ficará a residir no Vaticano, parece-me que isso não vai acontecer”, antecipou ao DN. Também o bispo de Setúbal, D. José Ornelas, defendeu que “o mal de Roma é que as pessoas se perpetuam nos cargos e depois ficam lá”. “E não ficam lá simplesmente porque têm de viver em algum sítio, ficam lá ainda a querer dizer – e dizem”, apontou D. José Ornelas, recordando que o Papa impôs a resignação aos 75 anos dos membros da cúria, “como acontece com os bispos”.

O bispo de Setúbal não entende ser estranho também Francisco resignar. “Penso que é muito natural que o faça”, disse em entrevista ao DN. Nessa hipótese, e continuando Bento XVI vivo, o bispo de Setúbal notou que “serão três bispos de Roma”, dois deles eméritos como noutras dioceses. “É bom que a Igreja os veja”, mas “já não numa função ativa”, apontou.

Bento XVI respondeu ao cansaço e às dificuldades do seu pontificado (sem forças para mudar o estado das coisas numa Igreja fustigada por casos de corrupção e sucessivos escândalos sexuais, que atingiam também a Cúria Romana), com uma resignação que apanhou a Igreja desprevenida.

Já João Paulo II tinha resistido ao clamor para deixar a cadeira de Pedro, envelhecendo (doente) nesse lugar. “Eu acho que é nobre envelhecer – e envelhecer bem e envelhecer com dignidade -, mas não tem de estar ativo”, apontou D. José Ornelas.

Um bispo “tem de deixar a Igreja avançar para a frente”. E o bispo de Setúbal explicou-se: “Senão, sem querer, com toda a boa vontade, vou partir sempre dos meus critérios de decénios atrás. Isso não está certo. Espero que o bom Papa Francisco dure, que não se lhe impeça de estar sempre ao leme, sentar-se lá à sombra da vela.”

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