13 mar 2018 às 06:46 hs
Direita vence e FARC entram no Congresso graças a acordo de paz

Ex-comandante das FARC Iván Márquez entrevistado pelos jornalistas após votar. Entra no Senado devido ao acordo que negociou

  |  REUTERS/JAIME SALDARRIAGA

Ex-presidente Álvaro Uribe foi o mais votado no Senado, onde o seu partido tem maioria. Nas primárias o seu candidato presidencial teve mais de quatro milhões de votos

Com pouco mais de 85 mil votos e menos de 1% nas legislativas colombianas, o partido da ex-guerrilha das FARC (agora a Força Alternativa Revolucionária do Comum) ficou muito abaixo do valor mínimo para entrar no Congresso. Mas os acordos de paz negociados com o governo de Juan Manuel Santos, que pusera fim a um conflito com mais de meio século, garantem que haverá cinco ex-guerrilheiros no Senado e outros cinco na Câmara dos Representantes. As eleições ficaram marcadas pela vitória da direita do ex-presidente Álvaro Uribe, a voz mais crítica contra esses mesmos acordos. Além de ter sido o senador mais votado, viu o seu candidato às presidenciais de 27 de maio, Iván Duque, conquistar mais de quatro milhões de votos nas primárias.

“Hoje é um dia histórico para a Colômbia. É a primeira vez na vida que voto e faço-o pela paz”, disse Pablo Catumbo, ex-comandante rebelde e agora senador eleito pelas FARC. Iván Márquez, o comandante da guerrilha que liderou as negociações de paz, não votava há 30 anos e também entrará no senado a partir de 20 de julho, assim como Sandra Ramírez, a companheira do falecido líder Manuel Marulanda. O acordo de paz abria o caminho político aos guerrilheiros, algo que não agradou a muitos colombianos que preferiam vê-los presos. Enquanto as FARC entram no Congresso, o Exército de Libertação Nacional (ELN) retomou as negociações de paz com o governo de Santos, suspensas desde 10 de janeiro.

Prémio Nobel da Paz em 2016, o presidente tem hoje menos de 20% de popularidade e isso refletiu-se no resultado do seu Partido Social da Unidade Nacional nas legislativas: passou de 21 senadores para 14 e de 48 deputados para 25. O grande vencedor foi o seu antigo mentor, o ex-presidente Álvaro Uribe (principal adversário dos acordos de paz), cujo Centro Democrático foi a força mais votada no Senado (apesar de ter perdido um senador e ficar com 19) e é a segunda da Câmara dos Representantes (passou de 19 para 32), atrás do Partido Liberal (35 deputados). Uribe foi o senador mais votado, com mais de 820 mil votos. No final, os resultados mostram uma grande fragmentação política, com mais de dez partidos representados em cada câmara no Congresso – há 108 senadores e 172 deputados.

Primárias

Paralelamente às legislativas, houve primárias para escolher o candidato presidencial tanto à direita como à esquerda. A participação foi tal que foi autorizado o uso de boletins de voto fotocopiados, para fazer face à escassez dos oficiais. Há ainda outros seis candidatos.

O grande vencedor das primárias foi Iván Duque, do Centro Democrático de Uribe, que conquistou mais de quatro milhões de votos e anunciou que a segunda classificada, a ex-ministra Marta Lucía Ramírez, do Partido Conservador Colombiano, que conquistou 1,5 milhões de votos, será a sua candidata a vice-presidente. “Esta coligação é para toda a Colômbia, o país expressou-se através do voto livre dos seus cidadãos. Estou motivado para devolver a democracia à Colômbia e a confiança às suas instituições”, disse Duque. O ex-procurador Alejandro Ordóñez teve 384 mil votos.

Ao contrário de alguns membros do setor mais radical, Duque não defende rasgar os acordos de paz com a guerrilha das FARC, mas quer fazer modificações importantes. Em relação ao principal adversário segundo as sondagens, Gustavo Petro, deixou o alerta: “Não queremos que cheguem ao nosso país as tentações do autoritarismo populista que arruinou a Venezuela”, afirmou.

À esquerda, sem surpresas, foi precisamente o ex-guerrilheiro (do Movimento 19 de Abril, que largou as armas em 1990) e antigo presidente da câmara de Bogotá, Gustavo Petro, o vencedor. Teve 2,8 milhões de votos face aos pouco mais de 500 mil do adversário, Carlos Caicedo. “Sem um peso para financiar a nossa campanha, passamos os 2,8 milhões de votos. O objetivo agora: ganhar”, escreveu Petro no Twitter, congratulando-se com o bom resultado das “forças alternativas” nas legislativas. A luta contra a corrupção é um dos pontos da sua campanha.

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